Especial Separação: como contar às crianças

Publicado em Revista Crescer/família, 03.04.17
Por Naíma Saleh

Não é possível evitar o sofrimento dos filhos – afinal, a notícia é triste mesmo. Mas com respeito e diálogo, dá para mostrar que não será o fim do mundo e que vocês continuam formando uma família.

Separação: como contar aos filhos? (Foto: Thinkstock)

Em 10 anos, a taxa de divórcio no Brasil cresceu 160%, de acordo com os últimos dados do ‘Estatísticas do Registro Civil” de 2015, ano em que foram registrados 328.960 desquites no país. É claro que ninguém casa (ou, pelo menos, não deveria se casar) esperando que um dia o relacionamento acabe, mas, às vezes, o fim é inevitável e pode se tornar um alívio, tanto para o ex-casal quanto para as crianças. É um recomeço para todos.

Isso, é claro, não torna o processo menos doloroso. Decidir terminar uma relação nunca é simples. E quando há filhos no meio, é preciso ter ainda mais cuidado e delicadeza na hora de colocar um ponto final. Veja o que é preciso ponderar antes de comunicar a separação às crianças e quais são as melhores maneiras de contar.

A decisão

É fato que todo casal tem problemas, mas, independentemente do tipo – e da gravidade – da situação, o primeiro conselho da psicóloga Marina Vasconcellos, terapeuta familiar e de casal pela UNIFESP, é procurar ajuda profissional antes de bater o martelo. “Tem casais que chegam ao consultório quase decididos, mas voltam atrás, porque na terapia conseguem consertar o que não estava indo bem no casamento”, explica.

Isso diminui as chances de tomar uma decisão e voltar atrás depois – o que pode tornar o processo mais difícil e causar um sofrimento desnecessário tanto aos filhos, como aos pais.

Como contar

Uma vez que decisão está tomada, é melhor avisar às crianças o quanto antes – mesmo porque, dificilmente, elas não vão perceber que algo está acontecendo. Vá direto ao ponto, mas com delicadeza. “O ideal é que os pais contem juntos, com calma, tranquilidade e respeito”, recomenda Marina. Frases como “Nós não nos amamos mais” ou “a gente se respeita, mas não existe mais amor de casal” ajudam a deixar claro que os papéis de pai e mãe vão continuar intactos mesmo com a dissolução do casamento.

Ainda que o clima entre os pais seja de paz e que eles tenham chegado a um acordo, é natural, nesse momento de angústia, tentar garantir que a criança venha para perto si. “Inconsicientemente, cada pessoa quer puxar o filho para perto porque tem medo de vê-lo menos, de se afastar na nova configuração”, explica a psicóloga Miriam Barros, psicoterapeuta de crianças, adolescentes, casais e famílias. O resultado é que, na hora de conversar com as crianças, a escolha dos termos e da forma de falar pode, sutilmente, insinuar que a culpa pelo fim é de um dos dois ou que um lado está muito magoado. Por isso, é melhor que o ex-casal  converse muito entre si antes, para combinar o que e como falar para as crianças.

Como contar

Uma vez que decisão está tomada, é melhor avisar às crianças o quanto antes – mesmo porque, dificilmente, elas não vão perceber que algo está acontecendo. Vá direto ao ponto, mas com delicadeza. “O ideal é que os pais contem juntos, com calma, tranquilidade e respeito”, recomenda Marina. Frases como “Nós não nos amamos mais” ou “a gente se respeita, mas não existe mais amor de casal” ajudam a deixar claro que os papéis de pai e mãe vão continuar intactos mesmo com a dissolução do casamento.

Ainda que o clima entre os pais seja de paz e que eles tenham chegado a um acordo, é natural, nesse momento de angústia, tentar garantir que a criança venha para perto si. “Inconsicientemente, cada pessoa quer puxar o filho para perto porque tem medo de vê-lo menos, de se afastar na nova configuração”, explica a psicóloga Miriam Barros, psicoterapeuta de crianças, adolescentes, casais e famílias. O resultado é que, na hora de conversar com as crianças, a escolha dos termos e da forma de falar pode, sutilmente, insinuar que a culpa pelo fim é de um dos dois ou que um lado está muito magoado. Por isso, é melhor que o ex-casal  converse muito entre si antes, para combinar o que e como falar para as crianças.

Abra espaço e converse

É comum que as crianças menores se perguntem o que foi que elas fizeram para causar esse tipo de situação. Elas podem achar que o pai ou a mãe está saindo de casa por conta de um mau comportamento delas, de algo que elas disseram e não deveriam ter dito, ou alguma decepção que tenham causado. “As crianças têm muitas fantasias. Quanto menores, mais egocentradas. Elas se acham culpadas por um monte de coisas, pois são muito autorreferentes”, explica Marina. Por isso, deixe claro que a escolha do casal não tem nada a ver com as crianças, que é uma decisão de adultos e que não vai interferir no amor que os dois sentem pelo filho. Também reforce o lado positivo da situação. Explique que a criança vai ter duas casas, dois quartos, deixando claro que o espaço dela está garantido na vida de cada um.

Também não adianta propor uma ida ao cinema ou a qualquer lugar que seu filho goste de ir para tentar agradá-lo e depois soltar a bomba. A criança pode se sentir enganada. Além disso, é uma situação muito particular para ser conversada em locais públicos. O melhor lugar é em casa, no ambiente privado, para que a criança possa chorar, ficar mal, falar o que tiver vontade.

Males para bem

Quando a situação entre o casal é muito ruim, a notícia pode até trazer certo alívio, porque os filhos não gostam de ver os pais brigando e se ofendendo. “Em muitos casos, são perdas que vão resultar, mais tarde, em um ganho de saúde emocional tanto para o ex-casal quanto para a criança. Se cada um puder ter uma vida mais tranquila e se a criança não presenciar um modelo de relação com brigas, é um fato positivo para a sáude mental de todos”, reflete Miriam.

É inevitável, porém, que as crianças fiquem tristes. “Elas têm o direito de reagir e se expressar. É preciso acolher, conversar”, diz Marina. É bacana também citar exemplos de outras famílias com pais separados que o filho conhece e que se dão bem. Mas dê tempo ao seu filho de processar e espaço para que ele possa se manifestar.

O que tem que ficar claro para as crianças é que, mesmo que os pais não formem mais um casal, nenhum deles vai perder o contato com elas, ambos farão de tudo para estar presentes e os filhos poderão contar com eles sempre. Afinal, casamento acaba. Família, não.

Evite dizer…

“Quando eu tiver um namorado, ninguém vai tomar o lugar do seu pai”. A criança não precisa se preocupar com a possibilidade de uma nova presença na família nesse momento. Mesmo que um dos pais – ou os dois – já estejam em novos relacionamentos, não é a hora de contar. Deixe a criança assimilar uma coisa de cada vez.

“Vamos nos separar porque seu pai/sua mãe é (insira aqui qualquer ofensa)”. É preciso manter o respeito ao se dirigir e se referir ao ex-parceiro, mesmo que ele não esteja presente.

Pode ser bom dizer:

“Mamãe/papai ainda vai ficar triste, talvez fique mais quietinha, mas vai passar. Você também pode ficar triste, não tem problema”. Lidar com a situação de forma equilibrada não quer dizer esconder os sentimentos. Abra espaço para você e seu filho poderem lidar com essas emoções.

“Amamos você e seremos sempre os seus pais acima de tudo”. Separe os papéis de casal e de pais, dando segurança para seu filho que um não vai interferir no outro.

Como e quando contar aos filhos sobre um novo relacionamento

Publicado no site itmãe uol, 18.02.16.

Melhor apresentar o novo namorado aos filhos só se for “para valer”

casal

Você já superou aquela fase difícil pós-divórcio, tocou a vida e está até namorando de novo. Que bom! Mas junto com as delícias de começar um novo relacionamento, quem é mãe enfrenta também uma preocupação sobre um tema inevitável: como e quando apresentá-lo aos filhos. Calma! Essa é uma situação cada vez mais comum, com o aumento dos divórcios e dos recasamentos (23,6% dos casamentos acontecidos em 2014 foram 2o núpcias de pelo menos um dos cônjuges, segundo IBGE). Portanto, a notícia tende a ser mais bem recebida por todos. Embora não exista uma resposta exata para encontrar o jeito e o timing certos, o desafio pede que você leve vários fatores em consideração. Veja aqui alguns pontos que podem lhe ajudar a refletir sobre o assunto e a passar por mais essa mudança de fase numa boa.

É para valer?

Esse é a questão número 1, todo mundo sabe. Como ter certeza de que o relacionamento vai durar? Para a psicóloga Vanessa Abdo, a apresentação só tem de ser feita uma vez que você acredite no potencial do relacionamento (talvez, lá no fundo, encontre a resposta!) e que alinhe tudo com o novo parceiro. Isso porque conhecer diversos namorados da mãe (ou do pai) pode ser prejudicial para a criança, que não sabe se deve criar vínculos ou não.

O tempo de cada um

Quanto tempo faz que seu relacionamento anterior acabou? Foi suficiente para que seu filho superasse e que o seu próprio coração sarasse? E quando surgiu esse novo amor? Tais questões são essenciais, já que apresentá-lo cedo demais aos filhos pode causar situações prejudiciais à toa, como ciúmes e raiva. A corretora Juliana*, 45, mãe de dois meninos, de 10 e 6 anos, passou por isso. Ela começou a namorar poucos meses após se separar e logo o namorado conheceu os filhos dela. Na época, ela achou que estava fazendo o que era certo para ela, que tinha ficado muito magoada com o fim do relacionamento e que enxergava no namorado uma nova chance. “Os meninos até tentaram aceitá-lo, mas vi que eles estavam sofrendo calados para me ver feliz. Acabei dando uns passos pra trás e tirei um pouco o namorado do convívio. Apesar de continuarmos juntos, estou dando um tempo para os meus filhos”, conta.

O fator divórcio

“Quando o relacionamento acabou de forma consensual e tranquila, e ninguém está sofrendo mais, tende a ser mais fácil passar por essa nova fase, tanto para a mãe e os filhos, como também para o ex-cônjuge”, conta a terapeuta de casais Marina Vasconcellos. Nesse caso, as crianças podem até torcer pelos pais. Agora, se a situação é inversa, vale ter ainda mais cautela. Não há por que causar mais ressentimentos a todos.

A idade dos pequenos

“Quando o filho é um bebê, ele não entende bem o que é um namorado. A questão torna-se um desafio, entretanto, quando a criança tem entre 5 e 10 anos”, explica a psicóloga Vanessa. Na opinião dela, quanto maior a criança, maior a complexidade e a necessidade de ter paciência, já que eles passam a questionar e a comparar mais, e tendem a ter ciúmes e a competir. Já a terapeuta Marina acha que, em muitos casos, pode ser diferente, especialmente se o casamento acabou sem brigas. Paola* está passando justamente por isso. Divorciada há 5 anos, ela contou recentemente para as filhas adolescentes sobre um novo namorado e tudo que elas querem é saber quem ele é, porque é legal, quando vão conhecê-lo. “O pai delas também está feliz em outro relacionamento. Elas entendem, então, o quanto isso é importante”, acredita.

Aos poucos

“Vá apresentando a ideia de um novo relacionamento aos poucos para o seu filho. Pergunte se ele quer conhecê-lo, pois impor o seu namoro não é uma boa ideia”, aconselha Marina. Além disso, escolha um local “neutro” para fazer as apresentações. “Dentro de casa pode dar uma sensação de invasão. Evite também trocar muitos beijos e carícias logo de cara”, diz Vanessa. Seu filho precisa se acostumar com a ideia, afinal.

O ex-cônjuge

Considere a possibilidade de avisar o seu ex-marido antes de fazer a apresentação, principalmente se a separação for recente. Coloque-se na situação dele e reflita sobre como você se sentiria ao saber da novidade só depois que seu filho já conheceu a nova namorada. Essa conversa preserva o respeito e a consideração entre vocês, que mesmo com o fim do casamento, continuarão sendo os pais dele.

Entenda como os traumas de infância interferem na vida adulta

Quanto mais rápida for a interferência do profissional, menores as consequências negativas.

Publicado pela Redação do Doutíssima (Terra),  03.11.2015

Na área da psicologia é comum que os profissionais identifiquem problemas na vida adulta de uma pessoa, ocasionados por traumas de infância. É fato que o desenvolvimento infantil é uma fase muito importante para a construção da personalidade e do caráter de qualquer indivíduo. Neste cenário, a influência dos pais é muito significativa.

 A psicóloga especialista em psicodrama terapêutico Marina Vasconcellos explica que é difícil falar sobre traumas de infância de maneira breve, pois essa é uma questão complexa. “É na infância que necessitamos mais do cuidado e do afeto dos adultos para crescermos com saúde e nos desenvolvermos”, destaca.

 

traumas de infância istock getty images doutíssima

 

Quais são as causas dos traumas de infância?

Segunda Marina, quanto mais carinho, proteção, cuidado e estímulos houver na infância, melhor será o desenvolvimento em todos os aspectos. “O cérebro está em formação e o aprendizado fica gravado junto com as emoções que o acompanham”, diz. Por isso, quando as crianças sofrem abusos emocionais, as marcas podem ser para o resto da vida.

 A especialista esclarece que, além da genética, tudo o que os pais ou responsáveis pela criação de uma criança dizem, servirá de base para a construção de sua personalidade. “Filhos rotulados na infância como burros’, por exemplo, provavelmente vão crescer sem acreditar em sua capacidade intelectual e muito inseguros”, aponta.

Quando a autoestima da criança não é desenvolvida, ela poderá se prejudicar em todos os seus papéis, pelo resto da vida. “Os traumas são emoções negativas que ficam gravadas em nosso cérebro, trazendo à tona novamente aquela emoção ruim toda vez que se passa por situações que lembrem aquela vivida anteriormente”, diz Marina.

Dessa forma, os traumas de infância vão contaminando o aprendizado da pessoa desde o começo da vida. “Isso faz com que seja mais difícil ter um desenvolvimento pleno,emocionalmente falando”, sintetiza a especialista.

Traumas de infância mais comuns

Segundo a psicóloga, os traumas mais comuns de infância são os verbais: humilhações, afirmações de que a criança “faz tudo errado” e “não sabe nada”. “Rótulos negativos têm um poder enorme sobre a criança, que cresce com problemas de autoestima, insegurança e dificuldades de relacionamentos em geral, tanto afetivos, quanto profissionais”, esclarece.

Os traumas físicos também são comuns e deixam marcas além das físicas. “Espancamentos, acidentes graves, que demandem cirurgias sérias e muito tempo de recuperação podem deixar sequelas como pânico, dificuldade em confiar nas pessoas, necessidade de se defender delas por qualquer coisa e muitos outros sintomas”, lembra.

Brigas entre os pais também traumatizam, em especial quando são frequentes, graves e envolvem agressão física. “Em geral, as crianças tentam entrar no meio para defender um deles e acabam por apanhar também, ou sentem-se incompetentes por não conseguirem agir. No futuro, elas poderão se tornar adultos agressivos e impulsivos”, adverte ela.

Abusos sexuais são outro problema sério, pois, invariavelmente, trazem problemas na esfera afetiva do adulto, dificuldades para confiar nas pessoas e, claro, na sexualidade”, lembra. Mas, segundo a psicóloga, é importante lembrar que nem sempre aquilo que traumatiza uma pessoa, irá atingir igualmente outra.

 Conforme explica ela, cada um tem a sua maneira de reagir aos estímulos externos. “A genética, o desenvolvimento emocional e a predisposição para determinadas doenças e comportamentos ao longo da vida também influenciam no trauma”, diz.

 Como tratar um trauma?

Normalmente, o trauma de infância é identificado através da terapia. “A pessoa chega se queixando de algo que causa incômodo no presente, sem fazer a ligação com o passado”, explica. O terapeuta, através de um processo investigativo junto com o cliente, ajuda a  identificar dinâmicas de funcionamento prejudiciais, buscando entender de onde elas vêm.

“Em psicodrama, podemos trabalhar as ‘cenas regressivas’, ou seja, a partir de cenas atuais, acabamos caindo naquelas da infância, entendendo o início do problema e as defesas construídas para lidar com o trauma. Tendo essa consciência, a pessoa pode aprender a reagir de outra forma. É uma sensação libertadora”, destaca.

Segundo Marina, se uma criança sofre de abusos na infância, independente de sua natureza, quanto mais rápida for a interferência de um profissional, menores as consequências negativas para seu futuro. “A intervenção de um psicoterapeuta pode ser fundamental para ajudá-la a crescer, eliminando o trauma perto de sua origem”, conclui.

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Posso “não gostar” dos meus próprios pais?

Publicado no Minha Saúde Online em 7/9/2014

Posso não gostar dos meus próprios pais?

 

Não raro recebo em meu consultório e vejo por aí casos onde a pessoa sente-se “culpada” por não gostar dos pais, como se o fato de serem os progenitores garantisse àqueles o direito ao amor e respeito incondicional de seus filhos. Ledo engano.

Elisabeth Badinter faz uma boa análise em seu livro “Um Amor Conquistado – o mito do amor materno” (Ed. Nova Fronteira, 1985): “Quanto a mim, estou convencida de que o amor materno existe desde a origem dos tempos, mas não penso que exista necessariamente em todas as mulheres, nem mesmo que a espécie só sobreviva a ele. Primeiro, qualquer pessoa que não a mãe (o pai, a ama, etc.) pode ‘maternar’ uma criança.

Segundo, não é só o amor que leva a mulher a cumprir seus ‘deveres maternais’. A moral, os valores sociais, ou religiosos,
podem ser incitadores tão poderosos quanto o desejo da mãe.” Concordo com esta afirmação, e acrescentaria o amor paterno na mesma categoria. Nem todos são preparados emocionalmente para desenvolver os papeis de pai e mãe, e os filhos arcam com as consequências.

A sociedade, assim como as religiões e diferentes culturas pelo mundo afora, ensina que temos que respeitar e amar nossos pais; afinal, eles nos criaram, alimentaram, educaram, sustentaram… e devemos lhes retribuir todo o trabalho e dedicação no mínimo com o reconhecimento e o amor devidos. Porém, há pais que literalmente não fazem por merecer, e o melhor seria que saíssem de perto dos filhos, já que a convivência apenas causa traumas emocionais e prejudica o desenvolvimento saudável dos rebentos.

Há pessoas doentes que se recusam a buscar tratamento para seus distúrbios, em especial os psiquiátricos. Filhos ficam sujeitos a maus tratos, violência física e psicológica, humilhações, chantagens emocionais, exposições da intimidade para outras pessoas, vergonha de escândalos em público… Tudo isso pode ser causado tanto por pessoas simplesmente mal educadas e grosseiras, como por aquelas doentes, vítimas de algum distúrbio não diagnosticado e, consequentemente, não tratado.

Recusam-se a buscar tratamento, mesmo sendo avisadas pelos parentes e amigos próximos, com o velho argumento em sua defesa: “Não sou louco para fazer terapia”. Se for o caso de psiquiatra, então, o preconceito aumenta. Sofrem anos a fio e levam toda a família junto nessa batalha, provocando brigas e frequentes conflitos quando tudo isso poderia ser evitado, ou solucionado, caso seguisse um tratamento adequado. Encaixam-se nesses casos os alcoólatras, psicóticos, portadores de TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo), neuróticos graves, bipolares, entre outros.

 

Mesmo sem serem portadores de doenças psiquiátricas, aqueles pais que traem seguidamente o cônjuge provocando sofrimento a este também se distanciam dos filhos, que alimentam por ele raiva, revolta e repulsa muitas vezes. Outros inúmeros comportamentos inadequados, posturas perante a vida e as pessoas, assim como valores morais absolutamente questionáveis provocam nos filhos sentimentos negativos em relação aos pais.

Sem falar nos psicopatas, arredios a qualquer tratamento e sem “cura” por se tratar de um transtorno de personalidade, e não de uma doença. Frios, incapazes de sentir algo e de desenvolver a empatia, não pensam duas vezes antes de prejudicar quem quer que esteja ao seu lado, sempre pensando no que irão ganhar com suas ações interesseiras, manipuladoras e maquiavélicas. Sendo assim, não desenvolvem qualquer relação afetiva com os filhos, permanecendo indiferentes a eles.

O resultado disso tudo é que o vínculo com os filhos fica extremamente prejudicado, muitas vezes nem tendo força para ser construído. As crianças crescem convivendo com pais agressivos e abusadores, não vendo a hora de se livrarem desse ambiente doentio e conflituoso. Guardam consigo a sensação de culpa por não gostarem dos pais, sofrendo sozinhos anos a fio por não terem coragem de admitir para si mesmo e para os outros tal sentimento. “Como não gostar do(a) meu(minha) próprio(a) pai(mãe)? Não é errado isso? Afinal, é meu(minha)/pai(mãe)!!”

Não, não é errado isso. Se o vínculo afetivo não foi construído e alimentado devidamente, o amor não cresce. Não precisa procurar justificativas que amenizem para si e para os outros certas atitudes dos pais que o envergonham, humilham ou agridem. Eles são humanos e passíveis de erro, como qualquer um.

A diferença entre pais saudáveis e doentes é que os primeiros, ao perceberem que erraram, tentam se desculpar e melhorar, não tendo problemas em voltar atrás em opiniões ou decisões equivocadas. Procuram evoluir e aprender com os erros. Já os outros não têm essa capacidade, persistindo no erro e muitas vezes manipulando os filhos para que estes, sim, sintam-se culpados por questionarem certas atitudes.

Nesses casos todos, o melhor a se fazer é manter a “distância afetiva” dos pais, ou seja, desenvolver-se emocionalmente independente do que eles possam dar em troca, e não esperar um amor que não existe. Muitas vezes a distância física também é recomendada: que o convívio com eles seja o mínimo possível para evitar situações de estresse emocional que certamente ocorrerão.

E isso só é possível se alcançar com a ajuda de um bom trabalho psicoterapêutico, onde a pessoa se aproprie de seu potencial e desenvolva a independência afetiva, elaborando a culpa advinda desse processo todo. Afinal, não é fácil assumir que seus pais fazem mal a você: nem para si próprio, muito menos para os outros.

Quando a pessoa se permite exprimir os sentimentos negativos que alimenta pelos progenitores, apropriando-se deles e entendendo de onde surgiram, como foram construídos, resultado de anos de convivência com uma pessoa sem condições psicológicas necessárias para o bom desempenho do papel de pai/mãe, há uma grande sensação de alívio e libertação emocional.

Vida de miss mirim: saiba mais sobre o mundo dos concursos infantis

Publicado no Terra em 14/10/2013

Para algumas meninas, ir à Disney e vivenciar o mundo das princesas é um grande sonho. Mas para aquelas que estão, desde cedo, no universo das misses, isto é algo bem próximo da realidade: coroas, faixas e vestidos pomposos são alguns dos elementos que as destacam de uma infância comum. É o caso de Pietra Gasparin, 6, que, no fim de outubro, embarca para a Euro Disney, em Paris, na França. Este é o prêmio por ter recebido a faixa de Mini Miss Brasil Universo 2013, que a leva a representar o País no concurso internacional.

As competições mirins são geralmente muito criticadas devido a uma série de fatores: a feminilização precoce e a busca incessante por um padrão de beleza irreal são apenas alguns deles. Mas, de acordo com o missólogo Evandro Hazzi, que descobriu Pietra, na França os concursos de beleza infantil são proibidos e este só existe porque vai contra o movimento de “adultização” das crianças. “É algo que foge da tal padronização de concursos de miss mirim”, completa Alê di Lima, assessor de Pietra, que é gaúcha de Passo Fundo, Rio Grande do Sul.

Claudia Gasparin, mãe da menina, reforça o discurso e conta que sempre tentou colocar outras questões à frente da beleza. Ao começar pelas festas de aniversário da filha, sempre temáticas e em prol de alguma causa: meio ambiente, proteção dos animais e união da família já foram algumas. “Este projeto da Disney vem para tirar este conceito de criança se maquiando, de não poder comer. Estamos entrando em um concurso para trazer um novo conceito de miss para a criança”, completa.

Segundo a mãe, Pietra ainda é uma novata no ramo das misses. No ano passado, ela foi convidada para participar do Mini Miss Passo Fundo 2012 e, de lá, saiu vencedora. “Eu fiquei surpresa, ela é totalmente crua. Eu posso dizer até que eu julgava este tipo de coisa e dizia ‘minha filha jamais vai entrar nisso’”, relembra.

O título de miss entrou na vida da filha como mais uma de suas atividades, que são muitas – entre elas, caratê, piano e hipismo, uma de suas paixões desde os três anos de idade. “Ela é uma criança normal, tem dias que está bem, tem dias que está cansada. Não tirei nada da vida dela”, explica. Esta será a primeira vez que Claudia e o marido saem do Brasil e a ida para Disney, de qualquer forma, seria o presente de aniversário dos pais para a filha este ano.

Passando o bastão
Enquanto Pietra ensaia os primeiros passos neste universo, Mirella Scheeffer, 13, já é uma profissional reconhecida, que se despede das passarelas infantis. No ano passado, ela venceu o concurso de Miss Universo Infantil e a vigência de sua faixa termina no fim do mês de outubro.

Mirella Scheeffer, 13, se despede das passarelas infantis mas visa ganhar o concurso adulto quando chegar a hora (Foto: Facebook / Reprodução)

Mirella Scheeffer, 13, se despede das passarelas infantis mas visa ganhar o concurso adulto quando chegar a hora
(Foto: Facebook / Reprodução)

Ela é dona de vários títulos importantes e atua na área desde os 9 anos de idade. Também já foi eleita Miss Brasil Infantil e, recentemente, participou de um concurso de marca de brinquedos, no qual derrubou mais de 16 mil candidatas e acabou virando uma boneca. Os concursos abriram portas e renderam até um teste para Malhação, da Globo.

Mirella também tem seguidores no Twitter, no Facebook, fã-clubes e, com certa timidez, confirma que o assédio dos meninos também aumentou muito nos últimos meses. O interesse nos concursos começou por conta das irmãs mais velhas, que já desfilaram. “Eu via aquele mundo de princesas, coroas e vestidos e queria viver nesse mundo. Eu já tinha ideia do que era, mas fiquei boquiaberta no primeiro concurso e acabei me apaixonando”, diz, acrescentando que sempre foi vaidosa. “Eu sempre fui de pegar as roupas das irmãs, os saltos da mãe”, conta.

Miss na sala de aula
A maior preocupação apresentada pelas mães entrevistadas é a busca por um convívio social normal com as demais crianças. “Outro dia a Pietra queria levar a faixa e a coroa para a escola, para brincar. Eu deixei, mas falei para ela não levar para o recreio, para não gerar ciúmes”, conta a mãe.

Claudia conta ainda que a filha não teve grandes problemas e que tudo acabou virando uma grande brincadeira. Mirella, no entanto, não teve a mesma sorte e chegou a sofrer bullying na escola.

Depois de fechar um contrato com uma marca grande de calçados infantis, Mirella foi parar nos outdoors da cidade e, com isso, ficou ainda mais conhecida do que já era. “Ela disse que queria mudar de escola porque começou a se destacar e as colegas achavam que ela tinha algum tipo de vantagem pelo fato de ser miss”, conta Vera Scheeffer, mãe da adolescente.

Na ocasião, a diretora da escola foi acionada e marcou uma reunião geral, com todos os alunos, para resolver a situação. “Eu tinha uma ideia de que eu ia ser olhada de forma estranha, mas as pessoas falavam coisas horrendas para mim e qualquer coisa que eu fizesse, elas achavam um defeito”, lembra Mirella. Felizmente, ela não precisou sair da escola; voltou às aulas normalmente e tentou tirar algo de positivo da situação. “Dei a volta por cima e muita gente hoje tem vergonha do que falava e acabou se tornando meu amigo.”

Bastidores
Como mãe de miss, Vera diz que sempre tentou mostrar para a filha o lado positivo e o negativo deste universo. Os excessos, no entanto, podem ser vistos nos bastidores e, por algumas vezes, ela chegou a notar casos em que, nitidamente, a criança não está disposta a seguir este caminho.

Pietra Gasparin representará o Brasil em concurso na Euro Disney, em Paris (Foto: Carol Gherardi / Divulgação)

Pietra Gasparin representará o Brasil em concurso na Euro Disney, em Paris
(Foto: Carol Gherardi / Divulgação)

Ela afirma que já viu nos bastidores crianças chorando e sem vontade de desfilar. “Tem meninas que passam mal horas antes de entrar na passarela porque deixaram de comer. Acho inadmissível”, conclui.

O sonho da mãe nem sempre corresponde ao da filha, e este é um grande problema, na opinião da psicóloga Marina Vasconcelos. “É um perigo fazer com que o filho realize o que ela não conseguiu realizar. A criança pode passar a se perguntar: ‘será que minha mãe vai gostar de mim se eu deixar de fazer?’”, pontua.

Do laquê aos cílios postiços
Outro ponto polêmico nos concursos infantis é o excesso de produtos e beleza, o que faz com que as candidatas pareçam mulheres adultas em miniatura. Na opinião de Claudia, equilíbrio é o segredo. “Maquiagem é algo que toda criança nessa idade ama. É a Pietra mesmo que escolhe as cores que ela quer, sempre combinando com o vestido, mas tudo muito suave”, afirma.

Mas, de acordo com a dermatologista Marcia Monteiro, de São Paulo, é preciso cautela, pois algumas crianças são muito sensíveis a substâncias químicas, podendo desenvolver quadros alérgicos. “Eu não recomendo o uso de maquiagem para crianças. Acredito que poderíamos liberar o uso, muito esporadicamente, a partir dos 15 anos de idade”, alerta, acrescentando que o uso precoce de alguns produtos também pode levar ao aparecimento de acne.

Ela também não recomenda alisamento, tintura ou tratamentos capilares mais agressivos. “Acredito que o maior dano em relação ao uso destas práticas de beleza na infância esteja relacionado ao aspecto psicológico. Ainda que seja dermatologista e deva alertar para os riscos à saúde da pele, não poderia deixar de ponderar que isto pode induzir a criança a acreditar que seja ‘feia’ ou ‘inadequada’. Da mesma forma, cria, muito precocemente, uma busca incessante por um ideal de beleza, muitas vezes irreal e inatingível”, analisa a profissional.

Madura antes da hora
De acordo com a psicóloga Marina, de um modo geral, as meninas que começam muito cedo não têm muita dimensão do território em que estão adentrando. “Para elas é uma fantasia que vira a realidade, mas elas não sabem o que isso vai repercutir”, afirma.

A psicóloga e analista do comportamento Lygia T. Dorigon reforça. “Nesta fase, as crianças são bastante influenciadas pelas suas referências, como pais e professores, e ainda têm poucas condições de avaliar a situação de forma adequada. Se a família conduz isso de maneira tranquila, como uma situação divertida, de descontração, a criança pode levar isso numa boa. Do contrário, se percebe que há uma pressão da família para que seja a melhor, pode ser que valorize a vida de ‘miss’ mais do que deveria, uma vez que ainda não está preparada para isso”.

Apesar das faixas, coroas e aplausos, a repercussão nem sempre é só positiva. Mirella conta que passou por um momento delicado após ser criticada por desfilar de biquíni. “Eu ouvi mais comentários negativos do que positivos. As pessoas realmente acham que meninas de 12 anos têm que estar brincando de boneca. Mas a minha roupa era um biquíni porque era um traje típico representando o Carnaval do Brasil, então não acho que foi uma exibição. Fui bastante julgada, mas não acho que foi vulgar”.

Aprender a lidar com críticas, reações negativas e o fracasso também faz parte deste universo. Para a psicóloga Marina, é preciso cautela para conduzir estas situações, para não “pular fases e atropelar o desenvolvimento”.

Em busca da perfeição
Outro ponto de atenção levantado pelas psicólogas é o exagero com a questão da vaidade. Na opinião das profissionais, o excesso de preocupação com a beleza deve ser dispensado na infância. “Não se pode incutir na criança uma vaidade exagerada, que pode virar também uma sexualização adiantada”, observa.

Lygia também considera esta questão como prejudicial à criança do ponto de vista psicológico. “Acho negativo uma situação que valoriza a beleza e atributos físicos, pois é importante que as crianças sejam valorizadas em outras competências também. É a fase de elas serem estimuladas em diferentes áreas e de ampliarem seus gostos e interesses. Uma rotina de concursos, focada nisso, faz a criança entender que é isso que é importante, ou seja, que é isso que precisa valorizar”, diz.

Mirella aprendeu a lidar com a cobrança das pessoas, mas afirma que não foi algo fácil. “O que me deixava desconfortável era a pressão que as pessoas colocavam em mim para eu ser perfeita. Mesmo sem te conhecer, elas fazem uma imagem de você”, afirma.

Segundo Lygia, o problema é quando a criança leva isso como uma situação estressante, com uma grande valorização em detrimento às suas outras competências. “Se isso ocorrer, pode ser que, quando adulta, a criança apresente dificuldades em termos de segurança e autoestima. Mas tudo isso depende menos da criança e mais da forma como as pessoas do seu entorno conduzem a situação”, conclui.

Os limites
A principal recomendação para as crianças que seguem este caminho é não deixar de lado as atividades de uma criança normal, colocando a vida escolar sempre em primeiro plano. “É preciso colocar um limite e não deixar que ela deixe de ir a escola, pratique os esportes e conviva com os amigos. Elas também precisam saber que não é fácil ser uma Gisele Bündchen. São pouquíssimas as que vão se destacar, então, terão que enfrentar as frustrações e entender que o sucesso não é para todo mundo”, diz Marina.

Lygia também recomenda que os pais fiquem atentos para o que a criança quer, gosta e sente. “A criança procura fazer aquilo que agrada os pais, especialmente quando tem uma boa relação com eles. Avalie se o sonho é mesmo da criança ou se é seu. Atente para outras habilidades e competências de sua filha. Valorize-a para além de seus atributos físicos. Quanto mais ela aprender coisas novas, mais forte será seu repertório comportamental e mais condições ela terá de escolher seu caminho futuro com segurança. Terá mais condições de ser feliz e isto, provavelmente, é o que deve ser mais importante”, completa.

Ela também ressalta que, por mais frustrações que uma criança passe, sempre é possível reconstruir um caminho. “A história por que cada um passa influencia a vida futura, mas não a determina. Experiências negativas deixam marcas, mas novas experiências criam novas marcas que podem se sobrepor às antigas. Desse ponto de vista, é sempre possível que alguém se recupere de histórias ou lembranças negativas”, afirma.

No caso de Pietra, a vida de miss ainda é uma brincadeira, segundo a mãe, que ela não leva como profissão. No de Mirella, a “brincadeira” já se desenha para um caminho futuro, já que o seu sonho é concorrer ao miss adulto e, quando concluir os estudos, “entrar na mídia”. “Quero ser atriz, fazer filmes e até cinema, quem sabe?”, conta, ressaltando que também pretende morar fora do Brasil – de preferência, em Londres. “É de onde são os integrantes da minha banda preferida, o One Direction”, conclui.