Como lidar com a falta de limites das outras crianças?

Publicado em Bebe.com.br/família,29.11.17
Raquel Drehmer

Pode dar bronca? Os pais sempre precisam ser avisados sobre o comportamento de seus filhos? Especialistas orientam como é melhor agir

Lidar com os momentos de desafio aos limites dos próprios filhos já é uma tarefa bem árdua. Precisar agir – ou não – quando as crianças dos outros são malcriadas com você ou com seus filhos, então, é algo que deixa muitas pessoas sem saber o que fazer.

Foi o caso da gerente de compras Juliana Mattos. Depois de cansar de pedir para uma das amigas da filha de 5 anos para comer à mesa junto com toda a turminha, não subir no sofá usando sapatos e, principalmente, não bater nas outras crianças, ela vetou as reuniões infantis em sua casa.

“A menina não sabia se comportar, eu não me sentia confortável para dar bronca e a mãe dela foi bem pouco receptiva quando relatei o que vinha acontecendo. Disse que era ‘coisa de criança’. Mas, para mim, é falta de limites. Principalmente a coisa de bater nas amigas”, conta. “Agora, só pode ir uma por vez em casa. E aquela amiguinha, infelizmente, não pode ir mais, porque eu não sabia mais o que fazer com ela.”

É bom ensinar sua criança a se defender da falta de educação alheia

No caso de agressividade, como Juliana relatou, é preciso analisar a situação antes de tomar uma atitude. “Se não for uma coisa muito grave, deixe que se resolva sozinha. Os pais às vezes se metem onde não são chamados e tiram da criança a capacidade de autodefesa”, orienta a psicóloga Marina Vasconcellos. “Agora, se for algo que chame a atenção e que esteja se repetindo, vale conversar com os pais da outra criança, esperando que eles deem a bronca no filho, e não você.”

Se nada resolver, a solução é procurar o afastamento, ainda que temporário. “Se o problema persiste, vale a pena tirar seu filho da situação, falar para ele não brincar mais com aquela criança. Você dá instrumentos para seu filho se defender sozinho e elas não bastam, então ele sai, porque também não é um saco de pancadas”, afirma a psicoterapeuta familiar Ana Gabriela Andriani.

E se os pais da criança estiverem presentes quando ela for malcriada?

As malcriações da amiga da filha de Juliana aconteceram dentro de casa, sem a presença de outros pais. Mas as más atitudes podem se manifestar em momentos em que os adultos estejam junto, como uma festa. Ou, ainda, a criança sem limites pode ser filha de amigos seus. O que fazer nesses casos?

Ana Gabriela é a favor do benefício da dúvida para esses pais. “Vale a pena primeiro tentar conversar com a criança e ver como seus pais vão reagir. Pode falar meio brincando, é uma chance de eles se colocarem. A gente espera que reajam, atuem dizendo que é para ela parar”, observa a psicoterapeuta.

Existe a possibilidade de eles não fazerem nada. Aí, a consultora de etiqueta e marketing pessoal Ligia Marques é a favor do papo direto: “Se a situação estiver ficando incontrolável, é seu direito pedir aos pais, sim. ‘Por favor, podem pedir que seu filho não faça tal coisa?’.”

Mas com jeitinho, ok? Especialmente se eles forem seus amigos. A consultora de etiqueta Susi Obal considera que não adianta estender uma briga entre crianças até os pais. “Já aconteceu de os adultos estarem brigados e os filhos já terem feito as pazes”, afirma.

Uma criança desconhecida está sendo malcriada em público. É preciso fazer algo?

Você está bela e plena no shopping, no supermercado, no clube ou em qualquer lugar público e de repente nota uma criança sendo mal educada: ela mostra a língua para as pessoas, grita, cospe, faz gestos inadequados. E agora?

Em primeiro lugar, nunca se deve dar uma bronca diretamente; você não conhece aquelas pessoas. Se você não conseguir ficar em paz com a situação, pode se dirigir aos pais, mas esteja preparada para não ser bem recebida.

“Se esses pais deixam os filhos cuspirem e serem agressivos com estranhos, há o risco de você ser desrespeitada. Criança com esse tipo de comportamento vem de pais mal educados”, explica Marina.

Ainda assim, Ana Gabriela defende uma abordagem direta: “Pode ser que os adultos se voltem contra quem falar, mas reclamar é um direito. Não tem problema dizer ‘Desculpa, mas ela está cuspindo’, ‘Desculpa, mas seu filho está me chutando’.”

Saia justa: você leva seu filho e um amigo para passear e a outra criança é mal educada

Vocês estão no cinema, no teatro, em um restaurante, no supermercado ou em um passeio no shopping e ali dá-se o problema. Todas as especialistas são da opinião de que você deve interromper esse amiguinho na hora.

“A mãe precisa ter autoridade. Se a situação continuar, dizer que todos vão embora”, sugere Marina. Ligia concorda com a ideia do “toque de recolher”: “Tem que dizer que se ele não conseguir se comportar vai pra casa na hora. Ninguém é obrigado a aturar criança sem educação e ficar quieto.”

De toda forma, algum preparo antes de sair de casa pode evitar esse transtorno. A criança pode se comportar de forma considerada inapropriada apenas porque o lugar ao qual vocês foram não é adequado para os pequenos. “Vale sempre lembrar que há restaurantes mais indicados para se levar crianças e outros em que, por mais que alguns não concordem, não gostam da presença delas. Faça uma boa escolha em relação ao local”, recomenda Ligia.

Combinar com as crianças como será a saída também é uma boa ideia. Ana Gabriela afirma que uma criança é super capaz de seguir as regras de outra casa e que não tem problema estabelecê-las. “É importante fazer um combinado antes de sair de casa. Dizer que vocês vão comprar pipoca, refrigerante e eles vão procurar ficar quietinhos no cinema, por exemplo. Tentar antecipar algumas situações é muito bom. E, se houver algum imprevisto, agir no momento”, finaliza.

Entenda como os traumas de infância interferem na vida adulta

Quanto mais rápida for a interferência do profissional, menores as consequências negativas.

Publicado pela Redação do Doutíssima (Terra),  03.11.2015

Na área da psicologia é comum que os profissionais identifiquem problemas na vida adulta de uma pessoa, ocasionados por traumas de infância. É fato que o desenvolvimento infantil é uma fase muito importante para a construção da personalidade e do caráter de qualquer indivíduo. Neste cenário, a influência dos pais é muito significativa.

 A psicóloga especialista em psicodrama terapêutico Marina Vasconcellos explica que é difícil falar sobre traumas de infância de maneira breve, pois essa é uma questão complexa. “É na infância que necessitamos mais do cuidado e do afeto dos adultos para crescermos com saúde e nos desenvolvermos”, destaca.

 

traumas de infância istock getty images doutíssima

 

Quais são as causas dos traumas de infância?

Segunda Marina, quanto mais carinho, proteção, cuidado e estímulos houver na infância, melhor será o desenvolvimento em todos os aspectos. “O cérebro está em formação e o aprendizado fica gravado junto com as emoções que o acompanham”, diz. Por isso, quando as crianças sofrem abusos emocionais, as marcas podem ser para o resto da vida.

 A especialista esclarece que, além da genética, tudo o que os pais ou responsáveis pela criação de uma criança dizem, servirá de base para a construção de sua personalidade. “Filhos rotulados na infância como burros’, por exemplo, provavelmente vão crescer sem acreditar em sua capacidade intelectual e muito inseguros”, aponta.

Quando a autoestima da criança não é desenvolvida, ela poderá se prejudicar em todos os seus papéis, pelo resto da vida. “Os traumas são emoções negativas que ficam gravadas em nosso cérebro, trazendo à tona novamente aquela emoção ruim toda vez que se passa por situações que lembrem aquela vivida anteriormente”, diz Marina.

Dessa forma, os traumas de infância vão contaminando o aprendizado da pessoa desde o começo da vida. “Isso faz com que seja mais difícil ter um desenvolvimento pleno,emocionalmente falando”, sintetiza a especialista.

Traumas de infância mais comuns

Segundo a psicóloga, os traumas mais comuns de infância são os verbais: humilhações, afirmações de que a criança “faz tudo errado” e “não sabe nada”. “Rótulos negativos têm um poder enorme sobre a criança, que cresce com problemas de autoestima, insegurança e dificuldades de relacionamentos em geral, tanto afetivos, quanto profissionais”, esclarece.

Os traumas físicos também são comuns e deixam marcas além das físicas. “Espancamentos, acidentes graves, que demandem cirurgias sérias e muito tempo de recuperação podem deixar sequelas como pânico, dificuldade em confiar nas pessoas, necessidade de se defender delas por qualquer coisa e muitos outros sintomas”, lembra.

Brigas entre os pais também traumatizam, em especial quando são frequentes, graves e envolvem agressão física. “Em geral, as crianças tentam entrar no meio para defender um deles e acabam por apanhar também, ou sentem-se incompetentes por não conseguirem agir. No futuro, elas poderão se tornar adultos agressivos e impulsivos”, adverte ela.

Abusos sexuais são outro problema sério, pois, invariavelmente, trazem problemas na esfera afetiva do adulto, dificuldades para confiar nas pessoas e, claro, na sexualidade”, lembra. Mas, segundo a psicóloga, é importante lembrar que nem sempre aquilo que traumatiza uma pessoa, irá atingir igualmente outra.

 Conforme explica ela, cada um tem a sua maneira de reagir aos estímulos externos. “A genética, o desenvolvimento emocional e a predisposição para determinadas doenças e comportamentos ao longo da vida também influenciam no trauma”, diz.

 Como tratar um trauma?

Normalmente, o trauma de infância é identificado através da terapia. “A pessoa chega se queixando de algo que causa incômodo no presente, sem fazer a ligação com o passado”, explica. O terapeuta, através de um processo investigativo junto com o cliente, ajuda a  identificar dinâmicas de funcionamento prejudiciais, buscando entender de onde elas vêm.

“Em psicodrama, podemos trabalhar as ‘cenas regressivas’, ou seja, a partir de cenas atuais, acabamos caindo naquelas da infância, entendendo o início do problema e as defesas construídas para lidar com o trauma. Tendo essa consciência, a pessoa pode aprender a reagir de outra forma. É uma sensação libertadora”, destaca.

Segundo Marina, se uma criança sofre de abusos na infância, independente de sua natureza, quanto mais rápida for a interferência de um profissional, menores as consequências negativas para seu futuro. “A intervenção de um psicoterapeuta pode ser fundamental para ajudá-la a crescer, eliminando o trauma perto de sua origem”, conclui.

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Lei da Palmada não proíbe palmada, dizem advogados

Publicada na Folha em 06/06/14

A Lei da Palmada, aprovada anteontem (4/6) no Senado, é subjetiva e não acrescenta nada à legislação vigente, dizem advogados ouvidos pela Folha. Deixa brecha, inclusive, para a própria palmada.

A legislação proíbe “castigo físico” que cause “sofrimento físico” ou “lesão”. Apesar do apelido, a palavra “palmada” não consta no texto. Nem outra semelhante.

Cinco advogados ouvidos pela Folha afirmam que a regra deixa brechas para várias interpretações.

O criminalista Carlos Kauffman diz que, para o caso de castigo físico que cause sofrimento ou lesão, já constam lesão corporal e maus-tratos no Código Penal. “Se der palmada sem sem sofrimento físico ou moral e sem lesão corporal, não há problema.”

Na tramitação do Congresso, o texto proposto pelo executivo sofreu uma mudança. A palavra “dor” foi trocada por “sofrimento físico” . Com isso, diz Kauffman, a legislação ficou ainda mais subjetiva.

EFEITO SIMBÓLICO

Alamiro Velludo Netto, criminalista e professor de Direito Penal na USP, concorda que a norma não proíbe todo tipo de tapinha. “A palmada que tem mais efeito simbólico, de correção, não foi proibida, mas sim aquela com sentido de agressão.”

Segundo ele, a lei gera um grande prejuízo para os juízes, que terão de dar contornos mais precisos ao que deve ser considerado sofrimento físico.

“Em que medida um tapa é significativo? A forma como ele é dado, o contexto, tudo isso deverá ser considerado [na Justiça]. Uma palmada pode não ser considerada sofrimento físico, e o que vai determinar isso são as decisões [judiciais]”, diz o advogado.

O que a lei deve penalizar é a situação em que o responsável pela criança, seja mãe ou pai, ultrapassa os limites do razoável, afirma o professor.

O criminalista Fernando Castelo Branco ressalta que agressões devem ser punidas, como prevê a lei. O medo dele é que, por ser ampla, a nova regra abra espaço para interpretações radicais.

“O pai dá uma palmada no filho que sai correndo para atravessar a rua causou um sofrimento físico na criança?”, pergunta ele, que não vê na palmada um tratamento degradante.

O professor de Direito Penal Luiz Flávio Gomes lembra que a norma não prevê punições penais, mas encaminhamento para tratamento. “Se a lei penal que prevê pena não surtir efeito preventivo, uma lei sem punição vai surtir menos efeito”, diz.

“A violência física, sobretudo doméstica, é cultural. As lei não mudam a realidade”, acrescenta Gomes.

DENUNCISMO

Para a advogada Carmen Nery, especialista em administração legal, a lei interfere em assuntos familiares e pode gerar um denuncismo que sobrecarregaria o Judiciário.

“Agora o juiz vai verificar se tal chinelada fere ou não fere a Lei da Palmada”, diz.

” Você acha que um Judiciário como o nosso, lotado, sem condição de julgar latrocínios e serial killers, tem de decidir se a palmada foi bem dada ou o beliscão excessivo?”

“Tapinha sempre foi educativo”, diz psicóloga sobre “Lei da Palmada”

Publicado na Folha em 06/06/14

Psicóloga pela PUC-SP e terapeuta de família pela Unifesp, Marina da Costa Manso Vasconcellos defende o direito dos pais a uma “palmadinha”, que deve ser precedida de diálogo e avisos à criança. O projeto foi aprovado nesta quarta-feira (4) no Senado.

Ela é contrária à lei, que considera exagerada. “Um tapinha na bunda é educativo”, diz. Ressalva, porém, que tapinha é diferente de surra. “Isso nunca.”

 

Folha – Chega uma hora que o diálogo acaba e pode-se lançar mão do tapinha?

Marina Vasconcellos – Sou a favor do tapinha. Acho a lei exagerada. Um ponto é não dar uma surra numa criança, outro é dar uma palmadinha que não seja na cara, não seja humilhante.

Um tapinha não dói?

Um tapinha na bunda é educativo, sempre foi e ninguém é traumatizado por isso. Antes de bater existe o famoso ‘um, dois, três’, quando a criança está fazendo algo errado, que resolve muitas das situações.

Você faz um aviso, dá uma chance para que aquilo não continue. Caso seja necessário, uma palmadinha resolve. Repito que isso é diferente de uma cintada, socar, surrar uma criança. Isso nunca.

Mas isso não terá consequências para a vida adulta?

Não acredito que uma reação rápida, por parte dos pais possa causar algum reflexo. Um tapinha no bumbum se esquece rapidamente, mas faz efeito no momento da atitude errada. Julgar se isto é um ato de violência é extremamente subjetivo.

Lanças mão de um tapinha deve ser algo muito raro, quando a criança está em postura de desafiar os pais e sabe o que isso pode causar a ela pela desobediência. Ela compreende isso claramente.

Operação pais, ativar!

Publicado na Revista Atrevida em abril de 2013

Ficar batendo de frente com os seus pais para fazer valer a sua vontade é cansativo, desgastante e, na maioria das vezes, não dá resultado algum. melhor que isso é tentar entender os comportamentos que você mais detesta neles e aprender a resolver tudo na conversa. Tem jeito. E Atrê (Revista Atrevida) garante!

Sabe aquela hora em que a galera da escola arma “a” balada e seus pais a proíbem de ir, sem querer nem conversar? Ou então quando a sua mãe, pra lá de empolgada, resolve só não deixá-la sair com a turma como se convida para ir junto? Se você já foi personagem de uma dessas historinhas sabe que, no momento exato em que seus pais perdem a noção, dá uma vontade louca de surtar. Mas quer saber? Essa não é a coisa mais inteligente a fazer. Tentar entender os motivos que levam seus pais a agirem desse jeito, por outro lado, é um bom começo. Depois, é preciso tentar construir uma parceria com eles, algo que só se consegue com muita vontade e paciência e que (ai!) leva tempo. Mas a gente garante que, no final, vale a pena. Listamos estratégias que não só funcionam como resolvem de forma definitiva as encrencas de casa. E aí, bora tentar?

Quem deu as dicas: os psicólogos Alexandre Bez, Ana Cristina Nassif, Anne Lise Sappaticci, Elizabeth Monteiro, Marina Vasconcellos e Miguel Perosa; a psiquiatra Ivete Gattás e a psicopedagoga e orientadora familiar Georgia Vassimon.

SE ELES QUEREM QUE VOCÊ SEJA FREIRA

Não porque eles são religiosos demais, mas porque detestam a ideia de ver você beijando alguém!

Tente entender: na cabeça deles, você provavelmente é nova demais para levar uma relação adiante e seus pais querem evitar que você sofra. Outro motivo que os leva a proibir terminantemente os seus namoricos é o medo de que eles atrapalhem seus estudos e todos os outros planos que eles traçaram para a sua vida.

E mude você: faça todo o possível para mostrar que é digna da confiança deles, que aprendeu o que eles ensinaram e (importante!) cumpra com seus deveres. Além disso, deixe claro que faz questão da aprovação deles, que se importa com o que pensam e que está disposta a namorar sério e a levar o namorado em casa, para eles conhecerem. Aborde o assunto com jeitinho para não assustá-los. Fale primeiro com quem está mais calmo e companheiro e, depois, peça ajuda para uma conversa em família. No fundo, é tudo uma questão de preparar bem o terreno. Vai na fé!

SE OS SEUS PAIS DÃO MEDO

Eles são tão, tão críticos que você treme da cabeça aos pés quando precisa levar um papo, mesmo que seja sobre uma coisa besta.

Tente entender: provavelmente eles foram criados de forma rígida pelos seus avós e acabaram seguindo o mesmo modelo. O medo de que você se envolva com drogas, bebidas ou outras coisas que não são nada legais também pode justificar o modo como eles agem.

E mude você: em vez de procurar seus pais só quando precisa de alguma coisa, tente puxar assuntos do dia a dia com eles. Pode acreditar:  quanto mais vocês papearem, menor vai ser a distância entre vocês. Daí, no meio dessas conversas à toa, você pode até comentar que gostaria de se abrir mais com eles, mas que se sente insegura. Só cuidado: fale isso num momento em que estiverem bem tranquilos, escolha as palavras e não faça parecer que a culpa é toda deles. Ao contrário, fale em primeira pessoa, tipo: “eu nunca sei como começar uma conversa” ou “eu tenho medo da reação de vocês”. Mesmo que eles façam cara de quem não está dando a mínima na hora, pode ter certeza de que, depois, no travesseiro, eles vão pensar sobre isso. Outra coisa que ajuda é se interessar de verdade pelo que eles estão sentindo ou passando (em vez de ficar imaginando que só você tem problemas no mundo) e até se oferecer para ajudar, sem esperar alguém pedir. Isso vai mostrar a eles que você está madura e merece um voto de confiança. Por fim, se nada disso adiantar, peça ajuda a alguém próximo  em quem eles confiam muito para intermediar essa conversa. Pode ser um tio, um vizinho ou até a professora da escola.

SE ELES VIVEM FAZENDO VOCÊ PASSAR VERGONHA

Ter um tiquinho de vergonha dos pais, na adolescência, é comum. Portanto, você não precisa ficar se achando uma monstra só porque já quis desaparecer  quando eles quiseram dar o ar da graça no meio da galera. Isso é aceitável, principalmente se os seus pais querem ser descolados, não perdem a oportunidade de entrosar com a turma, fazem piada até com sombra e se esforçam pra usar gírias (, na maioria das vezes, usam errado!).

Tente entender: você talvez nem se preocupasse com esse jeito de ser dos seus pais. Até acharia graça. Porque no fundo você sabe o quanto eles são legais, participativos e preocupados com a sua felicidade. Tudo o que eles fazem é pra tentar diminuir a distância que existe entre vocês, simplesmente porque vocês fazem parte de gerações completamente diferentes. Então, antes de chiar, aceite que as atitudes deles são só mais uma forma de amor.

E mude você:  se chegou a ficar vermelha que nem pimenta só umas duas ou três vezes na vida pelo comportamento deles, melhor fingir que nada aconteceu e simplesmente relevar. Agora, se isso acontece toda hora e já está fazendo você ganhar apelidinhos chatos na turma, abra o jogo e fale como se sente. Seja direta e diga o que gostaria que eles não fizessem na frente da turma. Mas seja doce e gentil nesse papo, para não magoá-los. Por outro lado, nada de ficar criticando a galera de casa o tempo todo, querendo mudar o jeito deles. Pensa: você também não detesta quando fazem isso com você? Então… Tente olhar as mil qualidades que eles certamente têm e valorize o esforço que fazem por você. Na dúvida, se sua turma encher você por causa disso, delete os amigos. Os pais valem mais!

SE ELES DETESTAM SEUS AMIGOS

Eles nem conhecem sua galera, mas adoram dizer que são péssima companhia? Pior: não querem mais nem que você saia com eles!

Tente entender: por algum motivo, seus pais têm medo de que os amigos influenciem você a tomar atitudes erradas ou simplesmente temem que a turma a faça sofrer. Tudo não passa de uma preocupação (que muitas vezes até faz algum sentido) com a sua saúde, seu bem-estar e a sua felicidade.

E mude você: para acabar de vez com o problema, ou você mostra para eles que seus amigos são cabeça-feita ou mostra que, independentemente das amizades, você já sabe o que é melhor pra você. As duas coisas dão trabalho. No primeiro caso, você vai ter que pedir autorização para para levar a galera para casa, para permitir que seus pais conheçam, de verdade, esses amigos. Se os garotos e garotas forem realmente do bem, seus pais vão sacar na hora. Uma alternativa é demonstrar, nas pequenas atitudes do dia a dia, o quanto você é madura e responsável com você mesma, com as suas coisas e com a escola. Por fim, se mesmo assim seus pais continuarem implicando, vale colocar a cabeça no travesseiro e analisar se, de fato, eles não estão com razão. Se chegar a conclusão de que a sua turma não tem mesmo muito a ver com você ou que ela não respeita tanto o seu jeito de ser, os seus valores e a sua vontade, é sinal de que o melhor a fazer mesmo é pular fora.

SE OS SEUS PAIS TE CONSIDERAM UMA CRIANÇA

Eles são suuupercarinhosos e paparicam você demais. Por outro lado, querem controlar to-dos os seus passos, usam apelidinhos bregas para chamar sua atenção no meio de toda a turma e, se bobear, não deixam nem você ir até a esquina se não estiver escoltada por um adulto.

Tente entender: seus pais simplesmente não suportam a ideia de ver você sofrendo. Por isso, eles querem, de todo jeito, protegê-la e facilitar a sua vida. Amam você mais que tudo e, mesmo com o seu crescimento, ainda não perceberam que você sabe se cuidar.

E mude você: para ser vista como uma menina mais madura, você terá de assumir mais responsabilidades e, claro, provar que dá conta delas. Cumprir com os seus deveres e levar a sério os estudos, manter as suas coisas organizadas, ajudar em casa e tratar bem os seus irmãos são atitudes que vão passar aos seus pais o recadinho de que você cresceu. Se mesmo assim eles continuarem o velho discurso, explique a eles o quanto isso a incomoda e lembre-os de que, infelizmente, você não poderá contar com eles em todos os momentos da sua vida e que, por isso mesmo, precisa aprender a se virar sozinha. É certeza que eles vão considerar seus argumentos.

 

Seu filho, um cidadão

Atitudes para que as crianças virem adultos conscientes de seus direitos e deveres

Publicado na revista Cláudia em fevereiro de 2013

Por definição, um cidadão é um indivíduo com direitos civis e políticos garantidos por um Estado – ou seja, em tese, seu filho já nasceu um cidadão. Mas a teoria não basta. É preciso aprender, praticar e cultivar a cidadania.Boa parte dos valores éticos essenciais para que ele, no futuro e agora, viva bem em sociedade vem da escola. “É lá que a criança tem as primeiras experiências mais sólidas em termos de vida pública e aprender a conviver , como alguém que pertence a um lugar e um grupo”, diz Maria Teresa Égler Mantoan, professora da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de campinas (Unicamp) e coordenadora do Laboratório de Estudos e Pesquisas em Ensino e Diferença (Leped), da mesma instituição. mas as noções de respeito por si mesmo e pelo outro, a solidariedade e a tolerância para conviver bem com a diversidade também nascem em casa. Tudo começa pela postura que os pais assumem tanto nos domínios domésticos quanto na comunidade da qual fazem parte. Atitudes cotidianas até simples, como caminhar pelo bairro para conhecê-lo melhor ou puxar uma conversa crítica sobre um filme que a família acaba de ver, ajudam a formar filhos cidadãos. Consultamos especialistas e reunimos as principais.

SEJA UM BOM MODELO

Um ótimo ponto de partida é mostrar – não com palavras, mas com ações – que a família tem consciência de seus direitos e deveres e age de modo participativo na sociedade. isso inclui ir a reuniões e eventos promovidos pela escola em que os filhos estudam, não faltar a assembleias de condomínios, comparecer às urnas para eleger governantes consciente de seu voto, opinar em referenciados  e inteirar-se de questões importantes para o seu bairro, sua cidade, seu estado, seu país. Mas as atitudes do dia a dia contam, e muito. Então, atenção: do banco de trás do carro, seu filho percebe se você dá ou não passagem para pedestres, se sempre segue as regras de trânsito – ou as burla quando está com pressa, por exemplo – e se costuma parar em fila dupla ao deixá-lo na escola. E nota a gentileza e o bom senso (ou a falta desses atributos) no trato com parentes, amigos, colegas de trabalho e empregados. “Crianças e adolescentes são muito observadores. Veem tudo”, afirma a psicóloga Marina Vasconcellos, terapeuta familiar e de casais, em São Paulo. Ela ressalta que, por isso, vale comentar quando pessoas fazem algo errado.”Você pode dizer: ‘Olha só, um motorista parado bem em cima da faixa. isso não é legal.'”, sugere. O papo deve acontecer de modo natural e fluido, não parecer ensaiado ou ter ar de lição de moral. Uma das bases para formar um cidadão crítico é você mostrar quem é de verdade, suas crenças e seus princípios.

ATIVE O SENTIMENTO DE PERTENCER

cidadania tem tudo a ver com sentir-se parte integrante de um grupo e corresponsabilizar-se por ele. Primeiro a própria família. “Os pais precisam falar sobre ela e mostrar quem é esse conjunto de pessoas mais próximas, sua história e seus hábitos. Assim, a criança começa a entender como seus parentes convivem e quais são os limites que ela ocupa dentro dessa célula”, diz Maria Teresa, do Leped, da Unicamp. Quando bem trabalhado na esfera micro, o sentimento de pertencimento facilita a convivência na esfera macro – não importa aqui se estamos falando de outras crianças no parque, na turma do clube ou de colegas da escola. Segundo experts, esse sentimento de pertencer a algo, que gera comprometimento, é essencial para seu filho entender que “estar com o outro” é diferente de apenas “estar junto do outro” – pressupõe compartilhar e respeitar. De acordo com Maria Teresa, “o papel da família é central para as crianças perceberem que, fora de casa, elas também têm compromissos com o mundo que a cerca”. mais adiante, essas noções contribuirão para dar sentido à ideia de nação, na qual podemos reclamar se nossos direitos não são assegurados, mas também precisamos assumir deveres para o bem comum.

INVISTA NA PARCERIA COM A ESCOLA

Uma vez que tanto a vivência em família como as experiências no ambiente escolar são fundamentais para a construção e o fortalecimento das noções de cidadania, nada mais sensato do que buscar uma sólida parceria. “Todas as instituições sociais participam do processo educativo. Mas a escola é aquela destinada a educar de modo organizado e sistemático. É ali que são partilhados, de forma intencional e específica, os conhecimentos, as crenças e os valores de uma sociedade”, afirma Terezinha Rios, doutora em educação e colunista da revista Nova Escola Gestão Escolar, da Fundação Victor Civita. Conhecer os caminhos trilhados pela escola em que seu filho estuda requer mais do que só acompanhar comunicados e comparecer a reuniões. Peça para conhecer o projeto político-pedagógico, documento no qual são descritos objetivos e metas da instituição, bem como os meios utilizados para alcançá-los. A maioria desses projetos faz referência à formação cidadã. Depois, é preciso acompanhar o mais de perto possível o trabalho cotidiano dos educadores para ver como as propostas são colocadas em prática. “A tarefa da escola terá mais êxito se articulada à atuação de outras instituições, principalmente a família. É preciso estabelecer o diálogo.”

ABRA ESPAÇO PARA POSTURAS CRÍTICAS

Passear a pé pelo bairro, ver o que ele tem de bom e de ruim, observar a diversidade de pessoas e lugares que abriga, pensar em formas de torná-lo mais bonito e agradável. Essa é uma atividade simples, mas carregada de estímulos ao comportamento cidadão. Também dá para fazer exercícios parecidos em outra cidade ou país. “Conhecer novos povos, culturas, hábitos e culinárias diferentes é favorecer o entendimento da diversidade”, diz a psicóloga e psicanalista Blenda de oliveira, de São Paulo.  E isso é básico para desenvolver a tolerância. Sem contar que a criança e o adolescente precisam de espaços para expressar suas opiniões. Há formas simples e que funcionam de fazer isso. “Que tal assistir a um documentário, um filme de ficção ou uma peça de teatro e depois fazerem juntos um debate crítico sobre eles? Esse tipo de discussão ajuda a estimular a reflexão, importante na construção da cidadania”, afirma Luciana Maria Allan, diretora técnica do Instituto Crescer para a Cidadania, em São Paulo. O trabalho voluntário é outro eixo a explorar. Visitar uma casa de repouso ou contar uma história em uma creche são experiências que sensibilizam e mudam o olhar dos nossos filhos. Só não adianta cobrar interesse por voluntariado se essa não é uma prática valorizada pela família e incorporada a seu dia a dia. “falamos que os jovens de hoje são apáticos e não têm visão crítica do mundo. mas em que momento nós, como pais, oferecemos estratégias para que sejam cidadãos participativos? Quando convidados, eles querem participar e gostam. Ficam chocados e preocupados com a realidade ao redor e têm energia para mudar as coisas para melhor”, diz Luciana.

INCENTIVE A COLABORAÇÃO

A amizade e a convivência entre vizinhos parece diminuir conforme aumenta o tamanho das cidades e dos condomínios. O resultado é que hoje impera o individualismo em nossa sociedade. “Estamos mais isolados e infelizes”, resume Maria Teresa, da Unicamp. “Há quem tema ser solidário por medo de se dar mal e quem ache que nunca vai precisar de quem mora ao lado, torcendo para que a recíproca seja verdadeira”. Em vez de perpetuar o isolamento, os pais precisam favorecer o encontro. vale incentivar seu filho a se apresentar a novos moradores do prédio, chamando-os para brincar. Ou convidar um colega recém-chegado à escola para uma tarde de diversão. Sim, eventualmente eles entrarão em conflito. E sim, talvez eles sejam diferentes em trajetória, características, pensamentos e posses. Mas nada disso deve servir como medida de comparação ou competição, e é isso que você vai ensinar a seu pequeno. Tome sempre cuidado não só com o que fala mas com o que pensa. Sonhar que seu filhos erá um grande vencedor na vida é válido, mas nunca a qualquer custo. Pouco vale chegar lá se não houver justiça social para que o outro também tenha a chance de chegar – e é por isso que a violência urbana é um problema de todos nós.

DIGA NÃO A QUALQUER DESPERDÍCIO

Certamente, as festas de fim de ano fizeram roupas, brinquedos e aparelhos eletrônicos novos desembarcarem na sua casa. É uma oportunidade para promover uma limpeza geral nos armários e ensinar que certos acúmulos são desnecessários. Além de gratificante, o ato de doar é pedagógico. “Ensina sobre desapego e mostra que nada é insubstituível”, diz Marina. falar sobre o uso consciente de água e energia elétrica e mostrar a importância de separar o lixo também são lições essenciais. “É preciso educar os filhos para que aprendam a não desperdiçar comida, tempo, amigos, afetos, talentos e oportunidades. Sustentabilidade engloba tudo isso”, afirma Blenda. O desafio é transmitir um pacote completo de limites, valores, responsabilidades e posturas cidadãs em diferentes áreas – um pacote para ser carregado a vida inteira.

 

Preconceito pode vir de algum aprendizado anterior

Mas é um problema cada vez mais exposto

Publicado em Arca Universal em 11/05/2012

Foto: Thinkstock

Para a psicóloga Marina Vasconcellos, o preconceito – principalmente étnico – acontecia muito mais antigamente por causa da escravidão dos negros. “Provavelmente, uma pessoa preconceituosa age desta forma, porque viu um modelo de alguém, aprende em algum momento a ser assim, mas cada vez menos isso acontece. Antigamente, nossos avós e bisavós eram muito preconceituosos, porque e negro era escravo. Mas isso já mudou.”

Porém, o preconceito fica mais evidente hoje, porque as pessoas não aceitam mais atitudes assim. “Antigamente era normal ser preconceituoso e os negros aceitavam isso, se submetiam pelo trabalho, não tinham o que fazer, mas trabalhavam revoltados por dentro, humilhados. Como hoje não é normal, quem é preconceituoso chama atenção”, explica Marina.

É claro que o preconceito vai muito além do racismo, atingindo também aquele que é diferente, portador de alguma deficiência física. “As pessoas agem contra aquilo que é distinto, do que sai dos padrões da sociedade. Quando destoa daquilo que é maioria, já julgam que é errado”, esclarece a especialista.

Para a Auxiliar de Serviços Gerais, Paula Elias, de 27 anos, o comportamento ainda está muito latente. “Eu sempre sofro preconceito porque sou gordinha. Vejo no ônibus, por exemplo, que as pessoas preferem ficar de pé a sentar em um banco vago ao meu lado, para não ficarem apertadas. Mesmo se falando mais sobre o assunto, ainda existe muito.”

Marina Vasconcellos ressalta que, como o preconceito está sendo mais exposto, ele acaba aparecendo mais. “Por isso, aparecem mais as pessoas preconceituosas, porque agora elas têm que enfrentar o que não gostam, a ponto de não conseguirem respeitar o próximo como ele é.”

É por isso que existe uma linha tênue entre o desrespeito e o julgamento. “O preconceituoso julga o que, e como a pessoa deve fazer ou não, se está certo ou errado. Mas o preconceito e o desrespeito estão ligados, porque o preconceito nasce do desrespeito ao próximo, do julgamento equivocado de valores.”

Paula diz que nunca sofreu um preconceito declarado, mas já passou por outras situações. “Nunca ninguém me falou nada, mas olham muito. Já passei por isso em algumas entrevistas de emprego, por exemplo. A pessoa vê que sou gorda e negra, diz que me retonará e não liga nem para dizer que não fui selecionada.”

Para Marina, é possível lidar com quem é diferente, sem ser preconceituoso. “Respeitar as diferenças é fundamental, em qualquer relação humana. Não se pode desejar mudar o outro. É preciso respeitar a maneira de ser do outro, convivendo com a diferença, mesmo não concordando, mas aceitando.”

Julgamento de si

Há também o preconceito de si, muito presente na sociedade, onde se pressupõe que as pessoas vão apontá-lo. “É, por exemplo, o caso do negro, que acaba pensando que as pessoas terão preconceito contra ele, sendo este o preconceituoso. Ele mesmo já chega se acusando”, detalha Marina.

Consequências

Ser um preconceituoso traz grandes implicações para a vida da pessoa. “Por ela se tornar radical, inflexível, julgando-se superior aos outros, acaba sendo chata, inconveniente, grosseira e muitas vezes desrespeitosa, ao evitar o contato com uma pessoa no ônibus, por exemplo.”

Além de ser excluída pelas outras pessoas, acaba também se afastando delas. “Porque começa a rotular, julgando, se achando superior e se separando de uma relação com quem é diferente dela.”

Saindo do preconceito

Para deixar de ser preconceituoso há dois caminhos possíveis. “Com este afastamento das pessoas, pode ser que perceba o quanto está subjulgando e busque deixar de ser assim. Também é possível que o preconceito aconteça com a própria pessoa, que sinta na pele o desprezo, ou que veja algo próximo, como por exemplo, um homem racista, mas que a filha escolhe um negro para casar. Abandona a filha ou aceita? É um caso difícil”, finaliza Marina.

Pais devem permitir que os filhos adolescentes transem em casa?

Publicado no BOL em o6/04/2012

Quais regras e limites devem ser impostos para que eles não percam o respeito pelos pais?

Há quem acredite que a filha vai se casar virgem. Outros são da teoria de que “o que os olhos não veem, o coração não sente”.  Alguns, mais corajosos, defendem que os filhos(as) levem os namoradas(os) para dormir em casa, assim estarão mais seguros. Mas até o pai mais moderno costuma sentir um aperto no peito quando a filha vira para ele e diz: “já está tarde para meu namorado ir embora. Ele pode ficar em casa?”. Qual resposta deve ser dada em uma hora dessas? Quais os limites devem ser impostos? O UOL Comportamento conversou com especialistas para ajudar a resolver o dilema familiar da melhor forma possível.

Deixar ou não deixar? Eis a questão
“É importante se questionar para perceber se há espaço para que isso aconteça”, diz a psicóloga Lélia Reis, pesquisadora do grupo Sexualidade Vida (CNPq/USP). “Você pode ouvir barulhos no meio da noite e, se os relacionamentos não durarem muito tempo, terá que se acostumar com a rotatividade”. Se a resposta não estiver na ponta da língua quando o adolescente o questionar, não dê desculpas nem mude de assunto. “Se não dá conta, seja honesto”, diz Lélia. “Diga que irá pensar numa saída, mas que não se sente à vontade ainda”.

Para a psicóloga Marina Vasconcellos, especializada em psicodrama, é melhor só permitir que namorados durmam em casa quando os filhos estiverem mais perto da maioridade. “Muitos jovens estão aquém da maturidade emocional exigida para o sexo e seguem os instintos sem saber as consequências do que estão fazendo”, diz ela. “Estimular a vida sexual tão cedo não é bom”.

Se eu permitir, eles perderão o respeito por mim?
“Dificilmente. A menos que os pais sejam totalmente liberais ou não tenham educado seus filhos para os respeitarem”, diz Marina. É importante que os pais do jovem, independentemente de continuarem casados ou não, cheguem a um consenso sobre como vão lidar com a situação e passem as mesmas normas para os filhos. Se as regras forem estabelecidas com clareza, não há com o que se preocupar. “Eles só perdem o respeito se não houver limites”, diz a psicanalista e sexóloga Maria Alves de Toledo Bruns, líder do grupo de pesquisa Sexualidade e Vida. “Não dá para ter uma pessoa diferente por dia saindo do quarto do seu filho ou pegá-lo no sofá da sala com alguém”.

Devo impor regras?
Sim, sempre. “Os filhos até esperam por isso, pois sentem que estão sendo cuidados”, diz Marina Vasconcellos. “Eles encaram como uma falta de atenção quando os pais são muito permissivos”. Depois de chegar a uma conclusão com seu parceiro e estabelecer quais são os limites, dias e horários permitidos, é bom deixar claro para os filhos o que pode ou não ser feito. “É importante que os pais tenham informações sobre quem é o namorado ou a namorada, ter contato com a família e até ligar para avisar quando a pessoa for dormir em casa”, diz a psicanalista e sexóloga Maria Bruns. Para ela, a maior preocupação deve ser ao decidir até que ponto a intimidade da família deve ser compartilhada com uma pessoa de fora. “Levar alguém que encontrou na festinha ou no barzinho é muito precipitado”.

Que conversas ter?
““Você percebe a maturidade dos filhos pelas conversas”, diz Marina. “Se eles já têm idade para fazer sexo, têm idade para dialogar”. Além do papo sobre doenças sexualmente transmissíveis, gravidez, prevenção e métodos contraceptivos, outros assuntos devem ser abordados. Para Lélia Reis, é essencial também falar sobre relacionamentos e sentimentos. “Diga como lidar quando a pessoa não liga no outro dia, fale sobre inseguranças com o corpo e explique para a menina que o homem não vai achá-la fácil se ela tiver camisinha na bolsa”, diz. Os pais também devem levar o filho ao urologista e a filha ao ginecologista para acompanhar o desenvolvimento e ajudar a esclarecer questões.

Como não deixá-los constrangidos com o papo?
“Converse da maneira mais natural possível, assim eles encararão de uma maneira tranquila”, diz Marina Vasconcellos. O problema é que essa naturalidade não surge da noite para o dia. Não adianta mudar de canal cada vez que vê uma cena picante na novela ao lado do filho e, uma semana depois, vir com papo sobre camisinha. “A família cria seus próprios tabus ao longo do processo educacional”, diz a sexóloga Maria Bruns. “E o diálogo deve ocorrer antes da adolescência”. Para ela, o ideal é aproveitar oportunidades ao ver filmes, novelas ou noticiários ao lado dos filhos. Até mesmo histórias de pessoas próximas podem servir como um pretexto para comentar sobre sexo -sempre aos poucos e no tom de conversa, não de lição. “Deixe claro que o filho tem a liberdade para falar sobre isso ou não. A confiança é conquistada desde a infância, aos poucos”, conclui Lélia.

Seis erros cometidos pelos pais na educação dos filhos

Autores e especialistas listam e comentam os equívocos mais comuns dos pais no relacionamento com as crianças

Publicado no IG Delas em 02/03/2012

Preconceito racial deve ser abordado de forma clara na infância. Foto: Thinkstock/ Getty Images

Elogiar muito uma criança pode estragá-la. Para um adolescente, discutir com os pais demonstra respeito. Estas são apenas algumas afirmações contidas em “Os 10 Erros Mais Comuns na Educação de Crianças” (Editora Lua de Papel), recém-lançado no Brasil e escrito pelos americanos Po Bronson e Ashley Merryman. No livro, os autores procuram desconstruir mitos atuais a respeito da educação das crianças a partir de resultados de pesquisas sobre o desenvolvimento infantil. Conheça alguns dos discursos equivocados mais comuns dos pais citados pelo livro e confira os comentários de especialistas.

“Sempre elogio meu filho”

Incentivar e apoiar as atitudes de uma criança parece um caminho 100% seguro para garantir autoestima em alta. O problema é que o exagero pode levar a um efeito exatamente contrário. “Até os anos 70 não havia uma preocupação nítida com essa questão da autoestima dos filhos. Quando se começa a falar mais sobre isso, vem o exagero. Os pais começaram a elogiar qualquer coisa, mesmo que banal”, afirma Tania Zagury, mestre em educação e autora do livro “Filhos: manual de instruções” (Editora Record).

Tania ressalta que encorajar e parabenizar um filho deve fazer parte da rotina da família, desde que os pais percebam que as crianças realmente se esforçaram para atingir o objetivo. “Elogios excessivos e falta de encorajamento são dois extremos perigosos. O ideal é cada família encontrar o seu equilíbrio”.

 

“Deixo meu filho dormir um pouco mais tarde para ficar comigo”

De acordo com os autores do livro, pesquisas apontam que uma hora a menos de sono por dia pode significar problemas como comprometimento da capacidade intelectual, do bem-estar emocional, déficit de atenção e obesidade. Apesar de não haver ainda um consenso estabelecido pelos estudiosos, muitos defendem a ideia de danos causados pela diminuição de horas de sono para crianças e adolescentes.

“Os pais trabalham fora e acabam chegando tarde. Para compensar essa ausência permitem que seus filhos fiquem acordados até mais tarde em sua companhia. Mas isso pode ter um efeito ruim”, aponta Tania. O psicólogo clínico pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Marcelo Quirino concorda: “um sono ruim pode gerar alterações afetivas, cognitivas e sociais. O sono é fundamental para uma boa saúde”.

Livro tenta mudar mitos sobre educação de crianças. Foto: Reprodução

“Ensino a meu filho que somos todos iguais”

Qual a forma ideal de falar sobre diversidade racial com as crianças? Muitos pais acreditam que expor a criança a um ambiente multirracial, sem necessariamente apontar diferenças físicas como a cor da pele, seria o suficiente para desencorajar o preconceito e fazer com que o filho encare tudo com naturalidade. Para Po Bronson e Ashley Merryman, ficar apenas no discurso de “somos todos iguais” não é o caminho ideal. Os autores do livro defendem a abordagem mais clara do tema com diálogos exatamente sobre essas diferenças físicas e por que elas não devem ser motivo de discriminação. “O discurso de que somos todos iguais é mesmo muito superficial porque simplesmente não somos iguais. Pelo menos não fisicamente”, diz Marcelo.

Psicóloga e terapeuta familiar da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Marina Vasconcellos acredita que o importante é ensinar a respeitar as diferenças. “Dizer que somos todos iguais acaba sendo uma mentira mesmo. Outra abordagem é necessária”.

“A criança enxerga diferenças físicas. É uma questão visual. Precisamos ensinar que essas diferenças existem e nem por isso um é melhor do que o outro. A questão do preconceito deve ser trabalhada desde cedo com mais profundidade”, afirma Tania.

“Não discuto com meu filho adolescente”

Fase de bastante atrito, a adolescência é motivo de pavor para muitos pais. Alguns se sentem afrontados e outros desrespeitados diante de tantas discussões e confrontos. Mas será que os filhos também enxergam as discussões como uma forma de desrespeitar seus pais? “Tudo depende de como essa discussão acontece. Vozes exaltadas e xingamentos, por exemplo, não fazem parte de uma discussão saudável. Mas se é uma conversa respeitosa, é muito positivo para a família”, conta Marina.

Para fugir de tantos conflitos, muitos pais acabam sendo condescendentes com atitudes erradas dos filhos, como dirigir um carro sem permissão ou chegar embriagado em casa. Casos assim exigem posicionamento dos pais para o adolescente saber que eles se importam com seu bem-estar. “O adolescente pode confundir permissividade excessiva com falta de interesse mesmo. É preciso encontrar um equilíbrio. O interesse abusivo e o desinteresse total são igualmente prejudiciais”, ensina Marcelo Quirino.

Não é possível prever se criança será adulto bem sucedido. Foto: Thinkstock/ Getty Images

“Meu filho é superinteligente”

Será possível detectar hoje os grandes nomes do futuro? O livro de Po Bronson e Ashley Merryman conta que milhões de crianças competem por vagas em boas escolas nos Estados Unidos, mas que em 73% dos casos todo esse processo seletivo mostrou-se equivocado. “Não há como prever se uma criança vai ser bem sucedida, mas se ela tiver uma boa educação certamente terá mais chances”, diz Tania Zagury.

“Os pais ou os avós podem até enxergar um gênio, entretanto é o coração falando alto. Tirando o emocional de campo, crianças mais precocemente estimuladas possuem maior possibilidade de desenvolvimento intelectual”, diz Tania, observando que as diferenças individuais existem e devem ser respeitadas.

“Meu filho assiste a DVDs educativos”

É sedutor pensar nos vídeos educativos disponíveis na prateleira das lojas como ajudantes poderosos no desenvolvimento da fala do seu bebê. Um engano comum, segundo os autores de “Os 10 Erros Mais Comuns na Educação de Crianças”. O assunto é tão polêmico que foi alvo de um comunicado da Academia Americana de Pediatria condenando o uso de vídeos para crianças de até dois anos de idade.

O psicólogo Marcelo Quirino explica que o desenvolvimento da linguagem é acima de tudo afetivo. “O vídeo é passivo e não estimula a interatividade com a criança. É uma ferramenta auditiva e visual. Não substitui o afeto e o diálogo entre pais e filhos”.

A criança e sua individualidade

Desde cedo, a criança percebe seu jeito de ser e como se encaixa no grupo em que vive, respeitando a si e ao próximo com um papel muito importante da família nesse processo

Publicado no Arca Universal em 12/10/2010

Foto: Reprodução

Fala-se muito sobre as novas gerações que despontam. As crianças de hoje estão mais informadas, influem mais no meio em que vivem e têm noção mais cedo de quais são seus direitos. Por outro lado, também há uma carência de limites, gerando conflitos quando elas encaram a “vida lá fora” após o primeiro contato social: o seio familiar. No meio disso tudo, aprendem a viver em grupo, mas também entendem como elas são como indivíduo, desenvolvendo preferências.

Como levar em conta, ao educar os filhos, que eles tanto respeitem as regras à sua volta quanto respeitem a si mesmos, não cedendo tão facilmente às pressões externas? Começar respeitando a individualidade da criança dentro de casa já é um passo bastante significativo e com reflexos para toda a vida, segundo a psicóloga Marina Vasconcellos, terapeuta familiar e de casais em São Paulo.

Em entrevista ao Arca Universal, Marina explora mais o assunto:

Em que idade a criança começa a mostrar sinais de individualidade?

Não há uma idade ao certo. Varia de criança para criança. Desde muito cedo ela começa a mostrar egocentrismo. Quer tudo para ela, tudo tem que girar em torno dela. Enfim, ela é o centro do mundo e pronto. Mas o egocentrismo nessa época é normal, não deve ser confundido com a personalidade da criança. Eis que ela entra na escola e começa a conviver com um mundo maior que o da família somente. Aí sim, a personalidade começa a aparecer: umas dividem as coisas com facilidade, outras têm mais dificuldade. Muito disso vem de casa, da criação. Ter irmãos, ou não, influencia bastante. E esse processo de “soltar” a criança deve acontecer mesmo, é necessário para que comece a entender como ela é longe da família e passe a ter consciência de si mesma como indivíduo. Vai começar a criar seu próprio mundo, a frequentar alguns lugares sem os pais. Geralmente, mães muito grudadas aos filhos geram pessoas que terão certa dificuldade mais tarde para entender e fazer parte da vida em sociedade. Entendendo quem ela é, a criança também começa a entender como ela faz parte de um todo, como se relaciona com o todo. Também começa a adquirir autonomia, responsabilidade.

Qual deve ser a posição dos pais e parentes perante essa individualidade?

Primeiro devem entender que embora a criança tenha genes do pai e da mãe, ela é um ser único. Cada filho é único. Na verdade, não adianta impor um jeito, a criança não tem que ser como você esperava. Impor à força gera conflitos que podem acompanhar a pessoa pelo resto da vida. Em suma, ela tem um jeito de ser e mudar isso não é producente.

Quais as diferenças entre individualidade e personalidade?

Com a individualidade, a criança começa a perceber o seu mundo, desenvolve o seu jeito de ser. Ela não pode ficar o tempo todo com o adulto a seu lado ditando tudo, senão corre o risco de virar uma mera cópia. Ela tem que entender como ela é quando não está com alguém por perto. A personalidade é a estrutura própria que ela forma, a partir do meio em que foi criada, que resulta dele. Isso influencia bastante, e daí vem se a criança é mais expansiva ou mais tímida, por exemplo. Mas a personalidade pode sofrer alterações com o tempo, embora o mote básico não mude.

Embora a criança tenha personalidade própria, faz parte de um grupo social: a família. Depois, integrará outros (escola, clube, igreja, amigos). Como ela deve ser educada para ao mesmo tempo preservar sua individualidade e se integrar a esses grupos?

A educação que os pais oferecem e os valores que eles passam são muito importantes para toda a vida. Isso a ajuda na formação do jeito de ser. Ela receberá influências de fora, claro, mas tendo noção de sua individualidade, pode receber até mesmo más influências da “turma”, que as rejeita. Respeitada em casa, ela desenvolve o seu ego, sua estrutura, e é mais forte para ter um filtro em relação ao que recebe de fora. Passa por cima daquelas coisas que geralmente provocam desvios de personalidade. Na adolescência, ela estará com a individualidade em desenvolvimento, testará várias coisas e, com o tempo, dispensará o que não tem a ver com ela. É preciso respeitar essa fase para que ela perceba sua individualidade, descubra como é.

Estamos na semana do Dia das Crianças. Como presentear uma criança levando em conta a individualidade dela?

Acontece muito o caso de “eu pedi uma boneca e meu pai me deu uma bola” em pacientes meus. Atenção: uma criança não é um “mini-você”. Ela é um indivíduo e tem preferências. Parece algo simples e até fútil, mas alguém cresce com certos complexos quando isso acontece. Um deles é aquela sensação de que seu gosto não era respeitado, que ela não era ouvida. Quando a criança tem seus 6, 7 anos, já não dá tão certo aquele negócio de comprar roupas sem ela estar junto. Ela passa a querer certas cores, certos tipos. Gostaria que a cor da parede do quarto fosse essa e não aquela. Desenvolve seu gosto. Se ela simplesmente recebe o que é imposto, isso gera frustrações que leva para a vida toda.

Mas temos que pensar em outras coisas também. Uma delas é que é bom perguntar o que a criança quer de presente, mas com limites. Ela deve saber que pode ter determinada coisa, mas deve entender que não vai ter tudo o que quer só porque quer. Outra coisa é que o Dia da Criança se tornou algo puramente comercial. Virou aquilo de “presente e pronto”. Deveria ser um dia, mesmo tendo o presente, que também tivesse algo como levar as crianças ao parque, ficar junto com ela e ir a eventos especiais que existem em vários lugares. Mas todo mundo só compra um presente e pronto.

Quais as diferenças das crianças de outrora (em alguns casos elas nem tinham o direito da presença à mesa nos jantares de família) para as de hoje?

Passamos de um extremo ao outro, o que é perigoso. Antes elas simplesmente não eram ouvidas e hoje são ouvidas demais, a ponto de virarem pequenos tiranos que mandam na família. Há um “psicologismo” pregando que não se repreenda as crianças. Claro que elas têm mais noção de individualidade, de seus direitos, mas pai tem que ser pai e mãe tem que ser mãe, há uma hierarquia familiar que precisa ser respeitada. Se antes havia limites demais, agora há limites “de menos”. E até “limite tem limite”: ele precisa existir, sem excesso ou escassez, para que a criança desenvolva o respeito pelo próximo e entenda como suas ações refletem no meio em que vive, positiva ou negativamente.

Hoje, é muito comum a criança fazer algo na escola, receber uma repreensão dos professores e os pais já irem com tudo para cima dos educadores para defender os filhos. Não procuram nem mesmo saber como a situação real aconteceu, se o filho realmente aprontou algo e se foi devidamente repreendido. Acham que se eles não chamam a atenção do filho ninguém mais vai chamar. É preciso fazê-los entender os limites. Isso pode muito bem ser feito, mas com afeto, com bom senso.

Birra, a arte da manipulação

Publicado no terra em 14/08/2009

Foto: Reprodução

Sentar no chão e espernear, chorar incessantemente, berrar, xingar, bater, chutar e tentar de qualquer forma conseguir o que quer. Esse é o comportamento de muitas crianças que se utilizam da birra como arma para manipularem os pais.

Se você sofre com isso, saiba que não é a única.

Cada vez que uma criança ouve um não, se não está acostumada, vai tentar contornar a situação – desencadeando desagradáveis situações e levando os pais ao desespero. “Não se deve dar crédito ao que o filho pede usando a birra como instrumento de conquista. Deve-se deixar bem claro que, enquanto ele estiver agindo assim, não conseguirá nada, apenas prorrogará uma situação desagradável para todos”, afirma a psicóloga e terapeuta familiar Marina Vasconcellos, de São Paulo.

Para os pais, a parte mais difícil de controlar uma crise de birra é ter que dizer não. E isso, normalmente, causa mais revolta e dor de cabeça. Para não prolongar a situação, os pais acabam cedendo à vontade dos filhos, passando o controle às mãos da criança. “Quando o ‘não’ tem que ser dito, é preciso bancar. As birras certamente devem ser cortadas e não incentivadas. Os filhos precisam saber que quem tem a autoridade e a palavra final são os pais, e não eles. Portanto, se a intenção é cortar as birras, o melhor a fazer é realmente não se deixar levar por elas”, alerta a profissional.

Para sair dessa enrascada, Marina propõe uma pequena solução: trocas. Se você der alguma coisa em troca do silêncio e da obediência da criança ela percebe que sempre que tiver que fazer um escândalo para conseguir algo, sairá perdendo de alguma outra forma. “O filho não pode sair da situação achando que venceu os pais, pois isso o alimentaria a continuar com seu comportamento birrento. Ele deve sentir que quando faz isso, perde algo”, ressalta.

Para explicar que essas atitudes não são bem vistas, a psicóloga indica o diálogo. Ter uma conversa franca, deixando claro quem manda, dando exemplos e ensinando a elas que não é assim que se consegue algo é uma boa pedida.

Agora, quando a situação sai do controle e os pais não acham alternativa, o castigo pode funcionar. “Se ela não entende apenas com o diálogo, o castigo vai forçá-la a perceber que aquele comportamento não é bem vindo e traz consequências ruins. A criança deve, desde cedo, sentir e assumir a responsabilidade pelos atos que pratica, e o castigo é um meio de fazê-la dar-se conta disso”, finaliza a terapeuta.

Cursar duas faculdades ao mesmo tempo exige organização

Publicado no Terra em 27/04/2011

Stefan Bender, 25 anos, estuda Agronomia e Gestão Ambiental (Foto: Reprodução)

Se cursar uma faculdade exige tempo e dedicação, quando dois cursos de graduação fazem parte da rotina a organização é a palavra-chave para conseguir conciliar as tarefas. A psicóloga Marina Vasconcellos alerta que a faculdade demanda além das aulas, um tempo em casa para colocar as leituras em dia e realizar trabalhos. “Nem sempre fazer dois cursos significa fazer os dois bem feitos. É importante pensar em uma formação qualificada”, afirma.

“Acho bem estressante, mas acredito que vale a pena”, conta Stefan Bender, 25 anos, que estuda Agronomia e Gestão Ambiental. O gaúcho até pensou em fazer Jogos Digitais, mas não passou no vestibular. Foi quando decidiu seguir a profissão do pai, que é agrônomo. Bender acredita que uma visão mais ampla da profissão vale o cansaço de alguns anos.

O paulista Bernardo Machado, 26 anos, também pensa assim. Ele se divide entre os cursos de Direito e Filosofia, além do estágio. “Saio de casa às 6h para ter aula às 7h30min e chego em casa quase 23h”, conta. E nem são os primeiros cursos de Machado – ele já é formado em Relações Internacionais.

A vontade de estudar Direito veio depois do curso, quando quis se especializar em Direito Internacional. “A pós-graduação exigia conhecimentos que eu não tinha. Então, resolvi fazer logo a faculdade inteira”, afirma. Já a curiosidade pela Filosofia veio cursando Direito, quando Machado se interessou pelo assunto durante uma disciplina do currículo.

Os cursos são complementares, diz o estudante. “Algumas interpretações do Direito recaem sobre questões filosóficas, como justiça, ética e organização do Estado”, afirma. Ainda assim, ele conta que a sua escolha causa estranhamento nos colegas. “Os de Direito acham que os filósofos são muito ‘viajantes’, só falam em tese, enquanto que os de Filosofia acham que advogado só quer roubar dinheiro”, brinca.

Para o diretor nacional de Educação da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH), Luiz Edmundo Rosa, a rotina de Machado reflete as necessidades atuais do mercado. “Vivemos na era da convergência. O ser humano está pensando em soluções integradas”, afirma. Como os universitários não podem organizar o seu próprio currículo, com disciplinas de cursos diversos, a solução é fazer mais de uma graduação. “É o preço que pagamos por causa da rigidez curricular no Brasil”, diz Rosa.

Nem mesmo quando o curso é a distância a carga diminui. O estudante de Jornalismo maranhense Raylson Lima, 19 anos, faz o curso técnico de Agropecuária a distância. “As aulas são em sábados e domingos alternados, mas precisamos participar de fóruns na web e acessar alguns materiais”, explica. Já o Jornalismo exige constante atualização do que está acontecendo no País e no mundo.

A solução para conciliar tudo é priorizar provas e trabalhos que valem a nota. As escolhas de Lima ainda causam estranhamento nos amigos e familiares. “Eles não entendem o motivo de cursar os dois, mas pretendo trabalhar com a agropecuária dentro do jornalismo”, planeja.

Algumas universidades, entretanto, já facilitam a graduação multidisciplinar. A Fundação Getulio Vargas (FGV), por exemplo, oferece desde 2010 a possibilidade de se formar em Direito e em Economia como dupla graduação. Dessa maneira, em vez dos cinco anos exigidos para concluir a primeira e outros quatro anos para a segunda, o aluno pode concluir as duas em sete anos e meio.

Cada faculdade da FGV disponibiliza cinco vagas para os alunos matriculados a partir do 7º semestre de ambos cursos. Os candidatos passam por um processo seletivo: enquanto que os de Direito fazem uma prova de Ciências Exatas, os de Economia fazem outra com produção e interpretação de texto. Os cursos de Administração e Direito já disponibilizavam esse recurso desde 2008, e os universitários podem concluir ambos em sete anos.

 

Meu filho não quer ir à faculdade, e agora?

Apoio, compreensão e honestidade dos pais são fundamentais quando o jovem se sente indeciso diante do vestibular

Publicado  no IG Delas em 19/08/2010

Com o fim do segundo grau, é comum ver adolescentes completamente alucinados com as primeiras dúvidas da vida adulta que surgem: vestibular, carreira, sonho, futuro e sucesso profissional. Imaginar um futuro coerente aos 17 ou 18 anos não é tarefa fácil para ninguém. Escolher o que se vai fazer para o resto da vida quando se teve quase nenhuma responsabilidade até então pode ser um dilema e tanto – tanto para filhos como para os pais. “Os adolescentes de hoje são muito menos maduros que antigamente, e é natural que os adultos fiquem tensos com as suas decisões. Os pais esperam que seus filhos vão para faculdade e, por isso, fazem uma pressão na hora da escolha”, afirma a psicóloga Heloisa Schauff, especialista em terapia de casal e família.

Para o adolescente, não se intimidar com essa pressão dos pais para fazer faculdade pode ser bem difícil. Em um mundo cada vez mais competitivo, no qual às vezes um diploma apenas não basta, escolher trilhar o próprio caminho fora do mundo acadêmico requer coragem e decisão. Não é todo mundo que pode optar por tirar um tempo para viajar o mundo, fazer cursos livres ou dedicar-se à música, por exemplo. Porém, há quem bata no peito, banque os sonhos e consiga convencer os pais, com muita conversa, de que parar os estudos por um tempo talvez seja a melhor saída.

Dez anos depois do fim do segundo grau - e já proprietário de um estúdio - José Neto ingressou na faculdade de Música (Foto: Mauricio Contreras/ Fotoarena)

José Martins Neto, 28 anos, foi um adolescente que, por não gostar de estudar, acabou largando a faculdade após cursar os primeiros seis meses. “Eu sempre fui um péssimo aluno, foi muito difícil terminar a escola, e, quando terminei, não queria continuar estudando. Cheguei a entrar em Rádio e TV porque rolava uma pressão da escola e dos meus pais, mas eu não achava que tinha que ir para a faculdade”, conta.

Ele revela que sua verdadeira paixão é a música e que, após o primeiro semestre cursando algo que detestou, decidiu largar tudo para virar baterista. “Falei com os meus pais e decidi fazer um curso em um conservatório. Foi complicado convencer meu pai especialmente, mas, por mais que ele não tenha achado a minha decisão ótima, acabou me apoiando”, explica. O resultado é que, algum tempo depois, José acabou montando um estúdio com um amigo e cavou seu próprio espaço no mundo da música. “Demorou para a gente dar certo, investimos tempo, dinheiro e tivemos que ter paciência. Mas hoje vivo de música, toco e trabalho com gravação e produção”.

E, passados dez anos do fim do colegial, ele finalmente decidiu cursar uma faculdade. De música, claro. “Bateu vontade, senti que estava defasado em teoria musical. Não acho que devia ter feito isso logo que saí da escola, não tinha maturidade e provavelmente não iria aguentar”, afirma.

O carioca Rodrigo de Sousa Deodoro, 24 anos, também optou por não fazer faculdade logo após terminar o segundo grau. Acostumado a trabalhar desde os 15 anos, ele conta que não tinha dinheiro para pagar os estudos e não conseguia se decidir por um curso. “Eu não tinha parado para pensar sobre isso. Comecei a trabalhar cedo e sempre pulei de um emprego para o outro. Depois de um tempo, vi que estava me virando bem sem fazer faculdade. Na verdade, até agora, esse esquema tem funcionado bem para mim”, diz.

Rodrigo conseguiu driblar a pressão dos pais e continuar no mercado de trabalho. “Meus pais não fizeram faculdade e, até certo ponto, tive liberdade para escolher por mim mesmo o que fazer da minha vida. Porém, é claro que rolava aquela vontade de ter o filho conquistando uma coisa que eles não tiveram a oportunidade de conquistar”, afirma.

Apoio moral

A psicóloga Marina Vasconcellos, especializada em terapia familiar e de casal pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), defende iniciativas como as de José e Rodrigo. “Com 17 ou 18 anos, a maioria dos adolescentes não tem maturidade para decidir o que vai fazer para o resto da vida. Seria muito bom se todos tivessem a oportunidade de, após a escola, tirar um tempo para viajar e se conhecer melhor”, fala.

A psicóloga recomenda que os pais não pressionem os filhos na hora da escolha do curso e, especialmente, não tomem a decisão por eles. “O melhor caminho no momento da dúvida do adolescente é, com calma, mostrar tudo o que ele pode aprender dali para a frente e apoiá-lo a conhecer profissões. Faculdade não é tudo, existem cursos técnicos bons, por exemplo. A pressão não gera bons resultados”.

Ao não ingressar em um curso superior logo depois do colegial, no entanto, não quer dizer que seu filho vá ficar em casa de papo para o ar. Heloísa fala sobre a opção de trabalhar enquanto o adolescente não sabe o que quer cursar na faculdade. “É uma alternativa bárbara, porque ele descobre cedo o que são regras e, já inserido no mundo do trabalho, conhece os rumos que pode tomar. A escolha da profissão acontece muito cedo, com o adolescente quase sempre muito protegido pelos pais. Por causa disso, muitos acabam fazendo faculdades das quais não gostam”, afirma.

E se seu filho já entrou em um curso, mas dá sinais de que pode ter feito a escolha errada, relaxe – e o apoie. A psicóloga orienta os pais a deixarem os filhos à vontade para mudar de profissão caso eles percebam que fizeram a opção errada. “O papel dos pais é orientar e questionar, mas respeitando o momento de dúvida. Não dá para obrigar um filho a fazer um curso que ele não quer”.

Livro propõe aplicação de modelos econômicos na criação dos filhos

Publicado em Folha.com 17/05/2011

Se você disser que aplica teorias econômicas na criação de seus filhos, vão pensar que: a) você só pensa em dinheiro; b) você só está preocupado com o futuro financeiro de seus herdeiros; c) você é um visionário; d) você é um monstro.

O economista australiano Joshua Gans pode não se encaixar em nenhuma das alternativas acima, mas ele afirma que usar o pensamento econômico para criar os filhos é uma forma inteligente de resolver conflitos, além de gerar benefícios aos pais e às crianças.

“Tem gente contra o sistema de incentivos”, diz economista

Adriano Vizoni/Folhapress

Não se trata de grana. Deixando de lado questões claramente econômicas, como calcular preços de fraldas ou mensalidades escolares, ele aplicou, com seus três filhos, estratégias originalmente usadas em negociações político-financeiras para resolver desde questões prosaicas (ensinar a usar o penico) até altruístas (o que fazer para que os filhos se tornem pessoas independentes).

BENEFÍCIOS

As tentativas de ser um bom economista e um bom pai (alguns sucessos, muitos fracassos) já renderam a Gans benefícios de curto e médio prazo.

Ele começou imediatamente a usar os exemplos domésticos para ilustrar suas lições de teoria econômica a alunos de MBA. Fez sucesso. As histórias da vida real deixaram as aulas mais animadas, os alunos mais interessados e os conceitos mais claros.

Gans então criou uma “marca” para essa sua proposta educativa. “Parentonomics”, que junta pais (“parents”) com economia (“economics”) e remete ao modelo dos “Freakonomics” “”outro termo de sucesso e nome de um livro que já vendeu mais de 4 milhões de exemplares.

Em “Freakonomics”, o economista norte-americano Steven Levitt mostra como aplicar princípios econômicos a situações da vida cotidiana, além de colocar em dúvida verdades preestabelecidas sobre temas tão variados e polêmicos quanto corrupção e aborto.

Não é preciso ser um especialista em mercado de futuros para descobrir que, no médio prazo, as aplicações de Gans também renderam um livro.

Hoje, os filhos do economista estão com 12, dez e seis anos. Resta saber se os benefícios de longo prazo, que são os que realmente importam, virão. Ou se faz sentido pensar em “educação de resultados” ou nos “lucros embutidos” das atitudes que tomamos em relação às crianças.

O economista Bernardo Guimarães, autor de “Economia Sem Truques” (ed. Campus-Elsevier), diz que para educar filhos é preciso duas coisas: definir objetivos e o que é preciso fazer para alcançá-los. “A economia ajuda muito pouco no primeiro quesito, mas pode ser um excelente instrumento na segunda parte da questão.”

As grandes ferramentas oferecidas por Gans são os incentivos e as negociações. Mas a maioria dos pais e das mães já vive fazendo isso, mesmo que eles não entendam nada de economia.

“Muitas das coisas que educadores falam podem ser traduzidas por termos usados na economia. O que a teoria econômica te dá é um arcabouço para pensar nessas coisas, tentar entender por que algumas escolhas são feitas e as reações que provocam”, diz Guimarães.

Marcos Fernandes, professor da Escola de Economia da FGV (Fundação Getúlio Vargas) de São Paulo, afirma que é possível tirar lições das estratégias usadas em empresas ou relações internacionais para usar na educação.

MENOR CUSTO

“É politicamente incorreto dizer isso, mas você pode usar modelos [econômicos] para criar os seus filhos com o menor custo para ambas as partes”, diz Fernandes.

O modelo proposto por Gans é a teoria dos jogos, estudo das interações estratégicas para a tomada de decisões que tragam menos custos e mais benefícios aos envolvidos.

Segundo Fernandes, essa teoria funciona com os filhos e pode ajudar os pais a encontrar um caminho entre as duas estratégias educacionais debatidas hoje: a autoritária e a igualitária.

O professor da FGV é pai de um garoto de 16 e de uma menina de 11 anos. “Aprendi a não deixar meu lado emocional me dominar na hora de educá-los, para pode aplicar a teoria dos jogos nas negociações que faço com eles.”

Para o autor de “Parentonomics”, é o fator emocional que atrapalha a tomada de decisões eficientes na educação dos filhos.

Ele tenta convencer os pais sobre a sua teoria mostrando as recompensas colhidas a partir dessa maneira de agir (os tais dos incentivos).

Por exemplo: o custo emocional de deixar um bebê chorar por algum tempo no berço, porque ele não quer dormir, pode ser eliminado se você o pegar imediatamente no colo. O custo futuro dessa atitude é que será cada vez mais difícil acostumá-lo a dormir sozinho. Nada que “Super Nanny” e qualquer mãe de bom-senso não endossariam.

“Pensar nos benefícios a longo prazo ajuda a separar a parte emocional e recuperar o bom-senso. E o sono perdido”, diz Gans.

Da manga do economista também saem estratégias para conseguir que os filhos adotem hábitos desejados (por exemplo, comer verduras) em troca de incentivos bem dosados (comer doces), sem inflacionar a oferta de guloseimas.

A importância dos incentivos não é novidade para educadores, mas, ao contrário do que acontece nas negociações econômicas, não é a base do negócio.

“Na criação dos filhos, a base é o afeto, o reconhecimento da criança, o acolhimento. As recompensas e punições vêm a partir e por causa disso”, diz a psicóloga e terapeuta de família Marina Vasconcellos, da Unifesp.

*

PEDAGOGIA DE RESULTADOS
Como a teoria econômica é aplicada na educação dos filhos

EQUILÍBRIO COMPETITIVO

O que é
Se não há confiança, não há cooperação, e cada parte usa as respostas ou reações da outra para buscar o melhor resultado

Como se aplica
O bebê quer atenção e chora quando é colocado para dormir. Os gritos são uma oferta: “Eu paro de gritar se vocês me derem atenção”

JOGOS COM REPETIÇÃO

O que é
A mesma interação estratégica se repete ao longo do tempo

Como se aplica
O bebê no berço quer atenção, mas os pais percebem que o custo desse tipo de choro para a criança (a exaustão) implica que ela só vai continuar chorando enquanto tiver motivos para achar que vai funcionar

NEGOCIAÇÃO

O que é
Oferecer benefícios à outra parte que compensem algum custo que ela terá

Como se aplica
Os pais sinalizam que deixarão a criança comer algumas “bobagens” em troca de uma alimentação saudável na maior parte do tempo

EQUILÍBRIO COOPERATIVO

O que é
As pessoas se juntam para atingir o objetivo de forma a aumentar os benefícios para todos

Como se aplica
A negociação ‘verduras x doces’ leva a um equilíbrio cooperativo: a situação é boa para a criança, porque ela se alimenta bem e tem direito a suas guloseimas, e é boa para os pais, porque evita desgaste e eles conseguem garantir uma alimentação adequada

INCENTIVOS

O que é
Não são necessariamente monetários, mas as motivações suficientes para as pessoas fazerem algo que, aparentemente, não lhes trará nenhum benefício imediato

Como se aplica
Para um bebê, não há vantagem em trocar a fralda pelo penico, mas ele pode achar a troca interessante se receber aprovação carinhosa dos pais sempre que usar o banheiro

Cinco fatos sobre irmãos

Entenda como o relacionamento entre irmãos, seja ele bom ou ruim, influencia na formação da personalidade das crianças

Publicado no iG Delas em 05/11/2011

 

Pesquisas realizadas nos últimos anos evidenciaram o que caracteriza e revela a dinâmica entre aqueles que são e têm irmãos, além dos genes em comum. Se os seus filhos vivem se atormentando, saiba que até as briguinhas entre eles têm efeitos positivos: o conflito entre irmãos amplia as habilidades sociais e ajuda no desenvolvimento emocional.

 

Jeffrey Kluger é autor de “The Siblings Effect: Brothers, Sisters and the Bonds that Define Us” (“O efeito dos irmãos: irmãos, irmãs e os vínculos que nos definem”, em tradução literal). De acordo com o jornal norte-americano The New York Times, o livro inova ao propor o relacionamento entre irmãos como um fator primário para a formação da personalidade de todos aqueles obrigados a dividir algumas coisas na vida em família – do último pedaço de bolo de chocolate ao brinquedo preferido. Antes, os principais focos das pesquisas sobre os fatores determinantes da personalidade giravam em torno dos pais, do DNA e de fatores socioeconômicos.

“Nossos cônjuges chegam comparativamente tarde em nossas vidas; nossos pais eventualmente nos deixam. Nossos irmãos podem ser as únicas pessoas que realmente se qualificam como parceiros para a vida”, escreveu Kluger. Por isso, separamos cinco fatos sobre a experiência de ter irmãos. Conheça-os abaixo e saiba o que especialistas dizem a respeito.

1. Manter um relacionamento próximo com os irmãos faz bem à saúde

Uma pesquisa da Universidade de Harvard com homens na terceira idade constatou que, dentre os 173 participantes, ter tido uma proximidade com os irmãos na época de faculdade estava intensamente ligado à boa saúde emocional.

De acordo com Ivete Gattás, psiquiatra da infância e adolescência da Unifesp, ter relações de confiança e segurança no início da vida e na fase adulta é mesmo um fator de proteção para possíveis transtornos mentais. Mas isso não precisa acontecer somente entre irmãos. “Pode ser com um amigo muito íntimo ou um parente, desde que haja uma relação estreita”, diz.

Para a psicóloga Marina Vasconcellos, especialista em terapia familiar e de casal, um irmão pode servir para dividir tudo o que for necessário: de conquistas a problemas. “Em determinada fase da vida, os filhos precisam cuidar dos pais. Se você não tem irmãos, acaba ficando tudo em cima de uma pessoa só”, diz. No futuro, o apoio de um irmão também pode tornar a perda dos pais menos dura. Há coisas, afinal, que só os irmãos podem entender – e, por terem vivido tanto juntos, podem compartilhar a mesma dor.

 

2. Irmãos mais velhos são tão influentes quanto os pais

Segundo a pesquisadora Laurie Krammer, professora de Estudos Aplicados da Família da Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, os irmãos menores podem sofrer uma influência considerável dos mais velhos que, em muitos casos, têm um papel de “agentes da socialização”. São eles, portanto, que irão influenciar o comportamento do pequeno nas situações fora de casa, como na escola ou com os amigos.

Para Ivete Gattás, os mais velhos realmente irão servir de modelo para os mais novos quando os pais não estão. Por outro lado, para Marina Vasconcellos, tudo depende de como eles se dão. “Se um irmão mais novo vai a uma festa com o mais velho, eles podem tanto ser cúmplices um do outro como podem ir a contragosto”, comenta.

3. Irmãos são antídoto para a solidão

Após manter contato com 395 famílias com mais de um filho, a professora e pesquisadora Laura Padilla-Walker, da Universidade Brigham Young, em Utah, constatou que ser próximo a um irmão ou irmã, além de promover generosidade e gentileza nas atitudes de uma criança, pode também servir de proteção para sentimentos como medo e solidão durante a adolescência. As meninas, especificamente, possuem um papel mais forte nesta hora, por tenderem a ser mais comunicativas que os meninos.

Ivete Gattás faz uma ressalva e alerta os pais que, às vezes, alimentam a competição e a rivalidade entre os filhos, mesmo sem querer, destruindo este laço e o apoio possível. “Essa relação irá depender da personalidade de cada um e de como os pais organizam a relação entre os filhos”, diz.

 

4. A rivalidade e as brigas entre irmãos podem ter, sim, pontos positivos

Um estudo da Universidade de Cambridge, nos Estados Unidos, examinou durante cinco anos o desenvolvimento cognitivo e social de 140 crianças entre dois e seis anos. As descobertas foram parar no livro “Social Understading and Social Lives” (“Compreensão social e vidas sociais”, na tradução literal), da pesquisadora Claire Hughes, do centro de pesquisas familiares da mesma Universidade. O que mais chamou foi o quanto ter irmãos pode ter um efeito positivo no desenvolvimento de uma criança, mesmo se a relação entre eles não for tão cordial.

“Na visão tradicional, ter um irmão ou irmã leva uma criança a competir pela atenção e amor dos pais. No entanto, nossas evidências sugerem que a compreensão social das crianças pode acontecer mais rapidamente por causa da interação com os irmãos”, afirma Claire no site da Universidade. Quando a convivência entre irmãos leva à aquisição de repertório sobre como lidar com conflitos e fazer acordos, ela pode ser bastante construtiva.

Segundo a pesquisa, mesmo quando a rivalidade entre as crianças se manifestava em provocações frequentes, constatou-se que os mais novos passaram a ter uma maior compreensão social ao longo dos anos e se tornaram capazes de conversar sobre seus sentimentos quase de igual para igual com os mais velhos.

 

5. A ordem de nascimento pode influenciar a personalidade

O psicólogo Kevin Leman afirmou, no livro “The Birth Order Book” (“Livro da Ordem de Nascimento”, na tradução literal), que a ordem de chegada na família afeta a personalidade de uma pessoa que tenha irmãos – e até mesmo as que não têm. Mas de acordo com Marina Vasconcellos, tudo dependerá dos pais e da expectativa que colocam no filho desde que nasceu.

Segundo Ivete Gattás, a influência pode simplesmente surgir pelo fato de cada irmão nascer em diferentes épocas emocionais ou econômicas dos pais. “Não acredito que tenha tanto a ver com a ordem, mas sim, com como os pais estão naquele momento. Quando se tem um primeiro filho, há muita expectativa e insegurança. Quando chega o segundo, você está mais tranquilo”.

A especialista acredita que há mais especulação do que ciência ao redor dessa premissa, mas o comportamento dos pais diante de um ou outro filho pode naturalmente colaborar para que um seja mais independente e o outro, mais exigente consigo mesmo.

 

Como a internet mudou a maternidade

Mães encontram na web soluções para problemas cotidianos, dicas para cuidar dos filhos e companhia para os momentos de solidão

Publicado no iG São Paulo em 15/10/2011

 

Quantas vezes você acessa a internet por dia? Consegue imaginar seu cotidiano sem procurar por respostas nos mecanismos de busca, fazer compras online e visitar ocasionalmente – ou compulsivamente – as redes sociais? A internet mudou radicalmente a vida dos 2,095 bilhões de pessoas que tem acesso a ela, de acordo com dados do Internet World Stats, mas um grupo social parece especialmente afetado pelas possibilidades da web: o das mães.

Ser mãe, hoje, é uma experiência bem diferente daquela vivida pelas mulheres há meros dez anos. Uma pesquisa conduzida pelo Google em parceria com o site especializado “BabyCenter.com”, em março deste ano, revelou que o simples fato de ter um filho faz dobrar o número de buscas feitas na web por uma mulher. Por ser um período de muitas dúvidas e incertezas, as novas mães buscam na rede por soluções.

“Tudo o que a mulher precisa saber ela digita no Google e encontra. Você tem muito apoio, muita informação para ajudar”, explica a terapeuta familiar Marina Vasconcellos. Além disso, Marina destaca que a web pode ser essencial na solução de um dos maiores problemas de quando se tem um filho: a solidão. “Você fica o dia inteiro em casa, cuidando do bebê, mas tem a possibilidade de conversar com milhares de pessoas”, diz.

“As grávidas entram na internet em busca de informação e conforto”, resume Luciana Ruffo, psicóloga do Núcleo de Pesquisa da Psicologia e Internet da PUC São Paulo. Ao encontrar virtualmente outras pessoas vivendo o mesmo momento, elas se sentem acolhidas.

 

Trocando em miúdos

 

É de casa que a jornalista Roberta Lippi, 35 anos e mãe de Luísa e Rafaela, escreve no Mamatraca. O site foi criado há um mês, mirando o público materno. “A ideia é discutir questões reais. A gente traz nossas próprias informações e também de outras mães e especialistas”, esclarece.

Projetos como este são comuns nos Estados Unidos. Existe uma série de redes sociais voltadas especialmente para as mães, e eles são ainda mais específicos: mulheres grávidas, mães que trabalham e mães executivas são alguns dos públicos que têm seu próprio site para socialização. Só o “SocialMom.com”, por exemplo, contabiliza mais de 35 mil membros.

No Brasil, o mais próximo que se tem disso é o e-familynet, no ar há 11 anos. “O e-family conectou mulheres de toda a parte do mundo que estavam passando pela mesma situação, tendo as mesmas dúvidas, mesmas esperanças”, explica Paula R., administradora dos fóruns do site. “Muitas chegam desesperadas em busca do esclarecimento de uma dúvida que, muitas vezes, nem podem compartilhar com familiares ou amigas”. Segundo Paula, o site tem cerca de 400 mil membros inscritos.

Foi justamente em busca de informação e compreensão que a confeiteira Tylza Rodrigues, de 34 anos, fez um perfil na rede social em 2008, quando ficou grávida. “Nunca tinha cuidado de uma criança, tinha muitas dúvidas”, revela. Como a família parecia sempre muito ocupada e sem tempo para conversas mais aprofundadas, Tylza recorreu à internet, onde encontrou mulheres passando pela mesma situação.

Nos fóruns, onde se discutem todos os assuntos que possam interessar às grávidas e novas mães, Tylza encontrou novas amigas. “A gente se afasta muito das amizades quando engravida. O e-family acabou suprindo essa falta”, diz. Dois anos depois de se relacionar online com outras grávidas que estavam no mesmo estágio da gestação, o grupo resolveu se encontrar no Rio de Janeiro. “Foi muito divertido, éramos muito amigas, mas nunca tínhamos nos visto pessoalmente”.

Para Marina, o fenômeno desta aproximação é explicada pela troca que a rede possibilita. “Uma aprende com a experiência da outra e todas crescem juntas”. Roberta concorda: “Com a troca de experiências, você forma melhores opiniões”. Hoje, as mães fazem escolhas sobre a educação e criação dos filhos baseadas em pontos de vista e conteúdos muito além dos costumes da família ou do último best seller sobre o tema.

 

Encurtando distâncias

 

A atriz Danielle Farenzi, 38, pouco entendia de computador e tecnologia quando ficou grávida de seu único filho, Pedro, em 2004. Foi justamente a gravidez que a fez se interessar pelo assunto. “Eu tinha muito tempo livre e meu marido, na época, era louco por tecnologia. Ele me deu a ideia de fazer um blog sobre o assunto”, diz.

Com o blog Gestacional, que deixou de ser atualizado pouco antes de o bebê completar dois meses de idade, Danielle pôde “fazer uma caricatura escrita” da gestação, como gosta de dizer. Mas a internet se provaria ainda mais útil em outras situações. “Chegou a uma altura, durante a gravidez, que eu me sentia grande demais para sair de casa, aquilo era o meu mundo”. Por isso, a artista passou a trabalhar da sala de estar. “Quando tinha que fazer alguma locução ou dublagem, eu podia fazer isso do meu próprio computador”, relata.

Quando o casal se separou, a web serviu como uma maneira de se conectar com o pai da criança, músico que viajava constantemente. “É uma janela que aproxima a gente”, diz Danielle. Pelo Skype, Danielle e Pedro podiam ver como estava o pai, independentemente de onde ele estivesse: Manaus, Paris ou Moscou.

 

Moderação

 

“Às vezes passo muito tempo no computador, olhando meus perfis no Orkut e no Facebook, e acabo não dando atenção para a minha filha”. A fala de Tylza ilustra um dos principais efeitos colaterais da internet: a imersão total no universo virtual.

“O computador é ótimo para passar o tempo, mas não pode esquecer que o contato pessoal é primordial e tem que ser vivenciado”, explica Denise Diniz, psicóloga e coordenadora do Núcleo de Qualidade de Vida da Universidade Federal do Estado de São Paulo (UNIFESP). Ao observar que está passando a maior parte do seu dia online, cuidado. Talvez seja melhor procurar ajuda profissional. “Entrar na internet não pode ser compulsório”, finaliza ela.

 

Fase do xixi na cama tem idade certa para acabar

Se o problema persiste após os sete anos, é preciso identificar as causas

Publicado em 1/12/2009 no www.minhavida.com.br

 

 

Ops! A criança fez xixi na cama de novo. Para quem tem filhos pequenos, trocar os lençóis molhados, colocar o colchão no sol e ficar atento aos passos do pequeno são atitudes que fazem parte da rotina durante o período de adaptação entre o adeus as fraudas e o uso do banheiro.

O problema é que muitas crianças quando já estão grandinhas sofrem com a enurese noturna, mais popularmente conhecida como “xixi na cama”. Às vezes, o problema é tão marcante, que a criança chega aos 10 ou 11 anos com o problema. “A criança não sabe dizer o que sente, por isso, seu corpo fala por ela. No caso das crianças que permanecem com o problema após os cinco anos, é preciso investigar se as causas são emocionais ou físicas”, explica a psicóloga Marina Vasconcellos.

A vasopressina, também conhecida como argipressina ou hormônio antidiurético é responsável pelo controle da vontade de urinar. Em algumas crianças, os níveis deste hormônio, que deveriam aumentar, diminuem, e ela não consegue segurar o xixi. “Isso também pode estar associado a outros problemas físicos e emocionais, por isso, é importante averiguar as verdadeiras causas do problema”, explica o pediatra do Hospital Albert Einstein, Jorge Huberman.

A dona de casa Maria José, 42 anos, lembra bem dos tempos em que sua filha, Clara, hoje com 26 anos, fazia xixi na cama, acordava, virava o colchão e voltava a dormir. “Ela já tinha uns 10 anos e continuava com o problema. Um dia procuramos ajuda psicológica e descobrimos que ela tinha medo da coleguinha que faleceu e, por isso, não conseguia parar”, diz Maria.

Xixi na cama tem idade certa 
É normal que a criança faça xixi na cama até os cinco anos de idade, afinal, ela ainda não tem a capacidade de controlar a urina durante à noite. Porém, quando a situação continua a acontecer após esta idade, a melhor coisa a fazer é identificar as causas do problema. “Podem ser diversos fatores. Primeiro, é preciso investigar se há alguma causa física, como incontinência urinária, problemas na bexiga ou outros, e então, partir para as possíveis motivações psicológicas”, continua Marina.

De acordo com o pediatra Jorge Huberman, a idade do “xixi na cama” pode variar entre 5 e7 anos, dependendo da frequência com que a criança urina na cama. “Às vezes, a criança tem entre 6 e 7 anos e um dia ou outro solta um pouco de urina no colchão. Isso não significa que ela tenha o problema, ela apenas passou por um processo que é natural em qualquer ser humano”, continua o pediatra.

Pode ser sinal de que alguma coisa no organismo vai mal
Segundo o pediatra Jorge Huberman, deve-se levar em consideração os seguintes fatores:

– Hereditariedade: o fator hereditário é um dado importante, pois crianças com um dos pais enuréticos (que tiveram esse problema na infância) têm 40% de chance de serem enuréticas. “Se ambos forem enuréticos, as chances aumentam para 77%. A torneirinha aberta de noite também está relacionada a fatores emocionais ligados ao estresse, tais como mudança de lar, separação dos pais, nascimento de irmão, entre outros”, explica o pediatra.

– Perda involuntária de urina durante o dia. “Os pais devem ficar atentos e perceber se o filho solta a urina involuntariamente e se sente dor ou se há sangramento na hora de urinar durante o dia. Isso pode ser um indicativo de que a criança tem ou terá enurese noturna ou alguma disfunção no organismo que desencadeia o xixi na cama”, explica Jorge. “A criança não faz isso por maldade ou birra. É um problema que pode estar associado a um quadro clínico mais grave, como uma infecção urinária”, continua o pediatra.

-Disfunções na bexiga. “Quando a bexiga não suporta a quantidade de líquido ingerida, a tendência é fazer xixi fora de hora?, explica o médico. ?Um dos tratamentos sugeridos para enurese noturna é exatamente o uso de um hormônio chamado oxibutinina, que relaxa a bexiga aumentando seu tamanho”, continua.

-Problemas neurológicos. “Nestes casos mais sérios, só uma visita ao médico poderá dimensionar o problema”, alerta.

E se for o lado emocional?

Marina Vasconcellos explica que o fato da criança fazer xixi na cama pode sinalizar algumas situações pelas quais ela está passando. “Ela pode estar se sentindo amedrontada, triste ou até rejeitada. É bom conversar para saber”, explica a psicóloga.

Algumas das razões emocionais para o problema, segundo ela, são:

Pressão na escola ou pela rotina estressante para a idade. Os adultos muitas vezes não percebem que a rotina imposta por eles às crianças é estressante e vai muito além do que os pequenos podem suportar, com isso, as crianças reagem de diversas formas e uma delas é fazer xixi na cama.

Medo de algo. Nesta fase, é mais do que normal as crianças ficarem impressionadas com histórias ou ações dos coleguinhas. Tudo ganha uma dimensão maior do que realmente tem. Por isso, é bom conversar na escola e ver o que é está acontecendo. Um acompanhamento com o terapeuta pode ajudar.

-Tristeza pela separação dos pais. É a causa mais comum. Os pais, muitas vezes, deixam transparecer os problemas conjugais e a criança se sente culpada ou dividida, daí o xixi para chamar a atenção ou como forma de extravasar a angustia.

– Chegada do irmãozinho. Neste caso, é natural que a criança regrida para chamar a atenção dos pais, mas o quadro não pode demorar a passar, senão deixa de ser natural para ser um problema.

Sem constrangimentos
O certo é evitar que o problema se transfira para a vida social da criança. Deixar o pequeno exposto às gozações de adultos e crianças é um erro. “Caso ela queira ir dormir na casa de algum coleguinha, explique aos pais dele para evitar constrangimentos”, sugere Marina.

 

Bexiga sob controle

Marina Vasconcellos explica que é possível tomar alguns cuidados para evitar ou ao menos amenizar o problema:

– Não tomar líquidos pelo menos duas horas antes de dormir

– Evitar chocolate e café à noite, pois, eles estimulam a contração da bexiga, segundo o pediatra Jorge Huberman.

– Elogiar quando a criança consegue ficar uma noite sem fazer xixi. “Os estímulos ajudam a reforçar na criança o desejo de parar e, embora não seja algo premeditado, ela consegue se condicionar a segurar a urina”, diz Marina. “Repreender a criança como se ela fizesse de propósito só faz com que ela se sinta ainda mais culpada, agravando a situação”, continua.

– Ludoterapia: a modalidade de terapia é bem recomendada e tem mostrado grandes efeitos. “A criança brinca com o terapeuta e durante a brincadeira, que é planejada e analisada pelo profissional, conta seus traumas e receios. Os desenhos também podem revelar as causas do problema”, explica a psicóloga.

– Uso de medicamentos que interferem no funcionamento da bexiga e do aparelho urinário, caso seja necessário. “Existem tratamentos à base de hormônios que ajudam a regular a bexiga, como é o caso do oxibutinina e do desmopressina, que alteram o tamanho da bexiga”, finaliza o pediatra.

 

Longe de ser educativo, tapinha causa dor física e emocional

Além de machucar, as palmadas em crianças podem gerar adultos agressivos

Publicado em 21/10/2009 no www.minhavida.com.br

 

 

O tapinha está enraizado em nossa cultura, é o que provou a pesquisa Datafolha divulgada nesta segunda-feira (26) . De acordo com os dados levantados, 54% dos brasileiros são contrários ao projeto de lei que veta palmadas, beliscões e castigos físicos em crianças.

Dos 10.905 entrevistados, apenas 36% se mostraram favoráveis à proposta do presidente Lula. Isso porque a maioria dos brasileiros (72%) já apanhou dos pais, já bateu nos filhos e pensa que o método não faz mal nenhum e é um auxílio na hora de educar a criança. O resultado da pesquisa vai contra a ideia defendida pelo governo e por ONG’s de que “conversar é sempre melhor que bater”.

Entendendo o projeto
O presidente Lula assinou na última semana um projeto de lei para proibir a prática de castigos físicos em crianças e adolescentes. A resolução foi feita em comemoração aos vinte anos do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que já instituía punição contra “maus tratos”, mas não especificava os tipos de castigo que não podem ser usados por pais, mães e responsáveis.

Se a lei for aprovada, tapas, beliscões, puxões de orelha e outros tipos de castigos físicos poderão ser denunciados por pessoas que convivem com a família, como vizinhos e parentes, ao conselho tutelar. E as punições são as mesmas já previstas no ECA para pais e cuidadores, que vão desde encaminhamento a tratamentos psicológicos até advertência e possível perda da guarda.

Com isso, o governo deseja acabar com a banalização da violência dentro de casa, onde palmadas podem evoluir para surras, queimaduras, fraturas e até ameaças de morte. A medida é polêmica, mas vem ao encontro das tendências mundiais, já que atualmente mais de 25 países, entre eles Suíça, Áustria e Alemanha, apresentam políticas que visam coibir essa prática. Na América do Sul, apenas o Uruguai e a Venezuela adotaram lei semelhante.

Bater nunca é solução

Os especialistas em educação infantil já condenam há muito tempo, mas o famoso tapinha ainda é usado como método de ensino por pais que acreditam que esta seja uma maneira eficiente de impor respeito e educar.

O problema são os prejuízos físicos e afetivos que a atitude provoca aos pimpolhos. “O que é um tapinha para um adulto, não é para uma criança, bater nunca é a solução”, explica a psicóloga Maria Amélia Azevedo, que conduziu um estudo pelo Instituto de psicologia da USP, em conjunto com a psicóloga Viviane Nogueira de Azevedo Guerra , relatando os efeitos negativos do tapinha e explicam que seu uso é uma questão cultural.

A pesquisa, que originou o livro Mania de Bater – A Punição Corporal Doméstica de Crianças e Adolescentes no Brasil concluiu que das 894 crianças entrevistadas, mais da metade revelou ter levado ao menos um tapinha em casa e, na maioria dos casos, foram as mães as responsáveis pela palmada. “As crianças sentem dor física e psicológica. Muitas das crianças avaliadas se mostraram revoltadas com os pais que, para elas, tinham se esquecido de que já foram crianças um dia”, explica Viviane de Azevedo.

 

Tapinha dói sim
A dor sentida pela criança quando ela leva uma palmada não é apenas física. As palmadas costumam ferir os sentimentos da meninada, que não entende a razão de ter apanhado. Para elas, o que fica da lição é a violência como forma de punição.

“A criança não deve ser punida fisicamente. Deve ser educada. Se ela cresce sendo repreendida com violência, vai ser violenta também. Educação é antes de tudo, repetição”, explica a terapeuta de casal e família  Marina Vasconcellos. “Os pais ficam chocados quando chegam reclamações da escola sobre o comportamento agressivo dos filhos, mas basta ver que a reação é um dos efeitos da violência do tapinha usado por eles para educar.”

A secretária Juliana Martins, mãe de Beatriz, 6 anos, conta que nunca havia dado palmadas na filha por achar que não era uma boa forma de educar, porém, um dia, de cabeça quente, a secretária deu um tapinha em Bia, que reagiu chorando muito. Desesperada por achar que tinha machucado a filha, Juliana perguntou o que houve, e a menina disse que doía mais no coração. “Nunca mais encostei um dedo nela. Até hoje me lembro dela falando com lágrimas nos olhos. Depois disso, percebi que conversar é sempre a melhor opção”, conta a mãe.

Postura firme
Marina Vasconcellos explica que, muitas vezes, voz e postura firmes são suficientes para repreender os pimpolhos e que apontar os motivos da bronca é fundamental para que o processo de educação seja efetivo. “Não adianta colocar de castigo ou gritar. Se você não mostra o erro, nada irá funcionar, além do mais, a criança aprende o que é ensinado a ela. Se ensinar conversa, ela aprenderá conversa. Se ensinar com tapas, pode receber tapas em troca um dia”, alerta a terapeuta.

Além disso, os pimpolhos podem encarar a punição à base de tapas como um caminho para confrontar os pais e, o método, que tinha como objetivo educar, acaba provocando o efeito contrário: “Como o tapa nunca vem seguido de explicações, desperta birra na criança, que vai cometer o mesmo erro para ver até onde os pais aguentam. Vira uma espécie de desafio”, explica Marina. “Uma boa opção para o problema é nunca sair do eixo, assim, seus filhos não vão te testar, porque sabem que você perde o equilíbrio diante das travessuras deles”, continua.

De acordo com a idade
Conversar com uma criança de dois anos não é a mesma coisa do que conversar com uma de 6 anos. Crianças muito pequenas entendem que estão sendo repreendidas, mas não conseguem perceber os motivos da bronca, por isso, Marina recomenda a paciência e a mudança de hábitos dos pais. “Tente mostrar por meio de atitudes o que está tentando explicar com palavras. Se ela não deve brincar na tomada, tire-a de lá e diga que não pode. Se ela bagunçou o brinquedo, tire-o dela e mostre onde ele deve ser colocado. Elas aprendem pela memória visual e pela repetição, falar não vai adiantar”, explica a terapeuta.

 

Linguagem do afeto é ensinada com atitudes e não com violência

O amor entre pais e filhos se dá na base da construção. São carinhos, brincadeiras, cuidados e até broncas que alimentam estes laços de afetividade. Quando a criança recebe palmadas como punição, aprende que dar palmadas também é bom e começa a construir laços agressivos.

“Se os pais batem, ela aprende que bater é legal. Se os pais punem com violência, ela vai sempre achar que desejos devem ser punidos e pode se tornar um adulto reprimido e até tímido”, explica a terapeuta.

 

Hábito que se repete
Sabe aquele velho ditado “Os filhos são espelhos dos pais?” Segundo a terapeuta de casal e família, Marina Vasconcellos, quando uma criança cresce levando palmadas, pode usar o mesmo método com seus filhos no futuro, gerando um círculo vicioso: “A criança pode até achar ruim quando leva a palmada, mas quando ela cresce passa a achar natural, afinal, seus pais não iriam fazer nada de mal contra ela e, dessa forma, acaba repassando estes valores para os filhos. É pura repetição”, finaliza Marina.

 

Alternativas

– Demonstre. Se a criança for pequena, tire dela o objeto ou a afaste da situação perigosa dizendo que não pode. Ela irá entender que não pode fazer aquilo.

– Mostre a sua autoridade. Pulso firme e voz ativa podem ajudar na hora de educar sem causar danos emocionais e físicos. “A criança já se intimida com o tom de voz”, diz a  terapeuta.

– Converse sempre. “Quando compreendemos nossos erros, evitamos sua repetição. Uma criança que deixa de fazer algo por repressão, mas não por um ato educativo, não aprende, apenas acumula reforços negativos e revolta”, continua a especialista.

– Jogos educativos e brincadeiras podem ajudar a educar sem precisar apelar para o tapinha. Segundo Marina Vasconcellos, os jogos são grandes aliados da educação didática. Com eles, os pais podem ensinar limites e explicar erros brincando.

 

Carnaval dos pequenos foliões pede supervisão dos adultos

A escolha da fantasia e até das brincadeiras garantem uma festa segura para as crianças

Publicado no yahoo.minhavida.com.br

 

 

No carnaval, há espaço para públicos de todas as idades curtirem a folia. Seja viajando, em micaretas ou nas festas, as crianças e pré-adolescentes também entram no ritmo da diversão. Muitas festas atendem esta faixa etária, mas os cuidados dos pais não podem ser deixados de lado. Uma das grandes dúvidas que surge é a decisão de deixar os filhos irem sozinhos aos bailes.

De acordo com a psicóloga Marina Vasconcellos, as crianças não devem frequentar as festas de carnaval sem o acompanhamento de um adulto, que se responsabilize por elas. O motivo é a preocupação com a segurança, além do consumo de bebidas alcoólicas, energéticos e drogas. “Em vez de proibir o consumo sem dar explicações, os pais devem explicar aos filhos quais são as consequências do vício e os perigos causados por estas substâncias”, explica Marina. “Mas a medida só eficaz se o jovem já tiver idade para compreender o que está sendo dito”.

Fantasia tem idade
Muitos bailes de carnaval costumam ser à fantasia. E a escolha da roupa dos pequenos pede atenção dos adultos. A fantasia infantil ideal é aquela que não expõem demais o corpo da criança e nem tem uma conotação adulta. “Sensualizar a criança é desnecessário e prejudicial, porque ela nem tem consciência do que é isso.

As fantasias realmente infantis dão conta da diversão sem oferecer riscos ao comportamento futuro”, diz Marina. O limite de idade das festas também deve ser observado: crianças de cinco anos não devem, por exemplo, estarem na mesma festa que pré-adolescentes, sem que adultos responsáveis estejam presentes.

 

 

Sem excessos
Além disso, a audição infantil é bastante sensível e pode sair prejudicada se houver exposição inadequada ao som alto. “O ideal é que a criança faça intervalos longe do barulho durante a festa”, explica o pediatra Renato Lopes de Souza.

A exposição excessiva a volumes elevados pode trazer consequências graves como a perda parcial da audição, zumbidos momentâneos ou irreversíveis ou perda auditiva lenta ocasionada por ruídos. “Ficar perto da caixa de som ou levar um tapa no ouvido pode causar traumas e, em casos extremos, levar a perda da audição.”

Já para aqueles que se expõem ao barulho, mas em uma intensidade não tão grave, o risco é de sofrer com a chamada Perda de Audição Induzida por Ruído (PAIR), em que há uma perda contínua e lenta”, explica o otorrinolaringologista Luciano Neves, da Unifesp . Outra possibilidade, segundo Luciano, é o tão conhecido zumbido no ouvido, que de acordo com o tempo de exposição e a intensidade do barulho, pode ser irreversível.

A reposição de líquidos deve também ser frequente, bem como a alimentação (que precisa ser leve, sem alimentos gordurosos). Nas festas em locais abertos, o protetor solar deve ser convidado especial e, reaplicado, no mínimo, a cada três horas. O ideal é que a criança não seja exposta de maneira alguma no horário das 10h30 às 14h30, período em que o sol é intenso.

Brincadeiras e brinquedos
Algumas brincadeiras típicas também devem ser alvo de atenção. Nas festinhas, é comum serem oferecidas as maquiagens faciais artísticas com desenhos de personagens e bichos, que atraem os pequenos. Não custa perguntar ao maquiador se o produto é apropriado e antialérgico e, caso a criança apresente qualquer sinal de sensibilidade, o rosto deve ser lavado imediatamente com água e sabonete neutro. Brinquedos como sprays de espuma, não podem ficar próximos às crianças muito pequenas, que podem ingerir a substância acidentalmente. Outro alerta vai para o ato de jogar confete e serpentina na boca um dos outros. São produtos que contêm tinta e podem ser tóxicos, além de sufocarem.

Nenhum cuidado deve ser descartado. São pequenas atitudes que garantem aos pais e filhos um carnaval com diversão e segurança. Parece exagero, mas identificar a criança com um crachá – que tenha nome, endereço, telefone de contato e tipo sanguíneo (se os pais souberem) – pode significar uma preocupação a menos para os pais. Estar atento a automóveis e aproximação de estranhos é fundamental.

Birras infantis

Como agir quando as crianças fazem manhas e se jogam no chão?

Publicado por Lia Lehr no site Chrisflores.net

Imagine a cena. Você está andando pelo shopping e vê uma criança se atirar ao chão e começar a chorar. Automaticamente você olha para a mãe da criança e pensa: ‘coitada, que vergonha essa mulher está passando’. Como você ainda não tem filhos e não conhece aquela família, segue andando e deixa o problema dos outros para trás, correto?

Agora pense em outra situação. Você tem um filho e vai com ele ao shopping. Passam em frente a uma loja de brinquedos e ele insiste em levar um brinquedo, mas você diz não. É o suficiente para a criança se rebelar. Ela se joga no chão, chora, esperneia, grita, se debate. As pessoas passam e olham estarrecidas. Você não sabe onde enfiar a cara. Você ainda tentar argumentar, pede para a criança parar com a cena, mas ela não obedece. O que fazer?

Alguns pais, para evitar todo o constrangimento em público, acabam cedendo e atendendo ao apelo emocional da criança.

“Os pais não podem se deixar levar, não podem ceder, nem entrar no jogo da criança. Tem que conter e falar firme. Se ela não parar, tem que pegar a criança no colo, tirá-la dali, mesmo esperneando, levar para o banheiro ou outro lugar mais tranqüilo e dizer: ‘para quieto’”, ensina Marina Vasconcellos, psicóloga, terapeuta de casal e família.

A especialista conta que a criança pode começar a fazer birra por volta dos 2 anos e que pode se estender até o 6. A criança age desta maneira para chamar a atenção dos pais. “é como se ela dissesse ‘eu quero a sua atenção’. Os pais tem que explicar que ela não é o centro do universo e deixar claro que ela não vai conseguir o que quer só porque está fazendo birra”.

Punições

E se mesmo assim não adiantar e a criança continuar fazendo escândalo em público? A terapeuta aconselha os pais a aplicarem a técnica do “1, 2, 3”.

“Diga à criança que vai contar até três e que se mesmo assim ela não parar, irá apanhar ali mesmo. E fique claro: palmada educativa não é espancamento, não é uma surra. É uma palmada só e avisada. Com isso, a criança pensará que tem escolha de continuar ou não fazendo birra. A criança sabe que as ações tem conseqüências e que haverá uma justiça”, diz Marina.

A psicóloga diz que a técnica costuma dar certo e que, antes mesmo de contar até três, a criança para com as manhas.

Outra atitude que os pais costumam tomar neste tipo de caso é dizer à criança que ela ficará de castigo quando chegar em casa. Nesse caso, não adianta.

“O castigo tem que ter a ver com a coisa errada que a criança fez. Por exemplo, se ela quebrou um brinquedo de propósito, não adianta colocá-la para ‘pensar’. Tem que proibi-la de brincar porque ela não soube cuidar. Também não adianta dar sempre o mesmo castigo. A criança tem que sentir a conseqüência do erro”, finaliza a psicóloga.

Agitado ou hiperativo?

Seu filho não para quieto de jeito nenhum? Conheça as diferenças entre uma criança arteira e outra com transtorno de comportamento

Publicado por Lia Lehr no site Chrisflores.net

Algumas crianças são bem quietinhas e dão pouco trabalho aos pais.  Em compensação, outras são bastante agitadas. Às vezes, fazem tantas travessuras, que os pais se questionam se estão diante de uma criança hiperativa. Como saber então se o filho sofre algum distúrbio ou se é apenas uma criança mais elétrica?

“O hiperativo não consegue parar com nada. Não consegue ficar atento mais do que 20 minutos e tem dificuldade em se concentrar em qualquer coisa. A criança hiperativa dispersa, não se concentra e ainda atrapalha os outros”, diz Marina Vasconcellos, psicóloga, terapeuta de casal e família.

Marina conta que o problema costuma ser notado quando a criança começa a freqüentar a escola. “Quando ela não para quieta levanta-se e mexe com todo mundo, está sempre mexendo braços e pernas, é que começa a chamar a atenção dos professores por ser tão irriquieta”. Segundo a especialista, esta é a principal diferença entre a criança hiperativa e a agitada, que faz bagunça, mas não atrapalha a rotina de ninguém.

A psicóloga lembra ainda que, é mais comum os meninos serem agitados do que as meninas.

“Até por uma questão de educação e brincadeiras, já que eles são mais estimulados. Enquanto as meninas são estimuladas com brincadeiras de casinha e princesas, os meninos são incentivados a brincar de luta, por exemplo”, explica Marina.

 

Transtorno de déficit de atenção com hiperatividade

A hiperatividade também pode estar associada ao déficit de atenção. “São diagnósticos diferentes, mas parecidos em alguns sintomas. O paciente com déficit de atenção é desorganizado, bagunceiro, desatento. É aquele sujeito que esparrama tudo, é preguiçoso e tem dificuldade em fazer as coisas porque não consegue se concentrar, mas não necessariamente é agitado como o hiperativo, que não para quieto”, explica a psicóloga Marina.

O diagnóstico para a hiperatividade e o déficit de atenção é muito sutil e realizado através de um exame neuropsicológico. O tratamento para os pacientes que sofrem de déficit de atenção costuma ser feito com remédios. Para as crianças hiperativas, recomenda-se a prática constante de esportes. “A criança tem que por para fora o excesso de energia. Ela precisa descarregar toda essa energia que tem acumulada dentro dela. Além disso, são crianças muito criativas e é importante os pais darem condições para elas focarem a energia nesse sentido”, recomenda a especialista.