Divórcios crescem 161,4% em dez anos; saiba como escapar das estatísticas

 Perder o medo de encarar os problemas no início pode evitar o fim do casamento.

Publicado no Portal  R7/Entretenimento/Mulher, em 6/12/2015.

Especialista dá dicas para você salvar seu casamento e evitar uma separação dolorosa.

— Os números não contam uma história de dez anos. A primeira coisa que a gente observa é que mudou muito a facilidade de se fazer um divórcio consensual, mas não acho que tem mais gente se separando por causa disso. A meu ver, as pessoas têm vários motivos para se separar, mas se divorciam para poder se casar de novo.

Especialista em direito de família, a advogada Priscila Fonseca, do escritório Priscila M. P. Corrêa da Fonseca, também pondera que o aumento do número absoluto de divórcios no País se deve também ao crescimento populacional, que é um fator objetivo.

— Em primeiro lugar, o motivo mais simples de todos é o aumento da população adulta. O Brasil está envelhecendo, este é um fator a ser levado em conta. E também ficou mais fácil obter divórcio. Um casal sem filhos menores pode fazer extrajudicialmente, e mesmo acionando o poder judiciário, em um dia você faz uma separação consensual.

A advogada acredita que, atualmente, as pessoas são, por um lado, mais intolerantes, — o que dificulta a convivência —, e, por outro lado, mais liberais, não prezando por um único e exclusivo relacionamento ao longo da vida. “As mídias sociais, os sites e aplicativos de relacionamento têm grande influência nessa mudança comportamental, principalmente pelo fato de aproximar pessoas, facilitando o contato”, explica.

Marina Vasconcellos, terapeuta familiar e de casais pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), também avalia que as redes sociais têm atrapalhado um bocado os relacionamentos.

— Tem muita gente resgatando pessoas do passado, namoradinhos de infância, e se ela estiver em um momento de fragilidade, pode embarcar na fantasia, que é uma idealização de uma história adolescente. São histórias que já passaram, que deveriam continuar no passado.

Expor as insatisfações logo no início pode ajudar a evitar o divórcio.

Há, ainda, de uma maneira geral, pouca disponibilidade dos casais em investirem na relação que possuem. E acham mais fácil terminar. De acordo com a terapeuta Lídia Aratangy, se a pessoa não puder olhar para dentro, o novo vai seguir igual ao velho.

— Reinvestir a cada nova relação gera um desgaste emocional danado. A separação tem de se dar por causa do que acontece entre os dois, se aquela relação ficou intolerável. Quem faz uma separação porque acredita que vai achar um príncipe em cada esquina vai se arrebentar. É preciso ver o que dentro do casamento está te afastando, e não algo de fora que está te atraindo.

Para a terapeuta Marina Vasconcelos, é preciso que as pessoas percam o medo de encarar os problemas, e criar coragem de falar de suas insatisfações, de preferência assim que os atritos começam a aparecer.

— Se os casais fizessem isso no início dos conflitos, não acabaria em divórcio. Poderiam deixar de ter preconceito com terapia de casal, perceber que nem tudo é possível resolver internamente, sem ajuda. Um casal que atendi, com dois anos de casados, esteve aqui dizendo exatamente que eles não querem que estrague. Quando se amam e desejam achar o rumo certo, dá para resolver.

Tema em ‘Salve Jorge’, festa do divórcio é tendência no Brasil

A empresária Meg Souza gostou tanto de celebrar o divórcio que já fez três festas com este objetivo
(Foto: Divulgação)

Entrar na igreja de véu e grinalda, toda vestida de branco, é o sonho de grande parte das mulheres que imagina envelhecer ao lado do seu príncipe encantado. O “final feliz”, para muita gente, representa a união eterna, ainda que a separação seja por muitas vezes algo inevitável. Embora a palavra “divórcio” esteja frequentemente associada a um período turbulento, há quem faça desse limão azedo uma bela e doce limonada e transforme as lágrimas em celebração, com uma inusitada festa de divórcio.

O tema já é comum em outros países, especialmente nos Estados Unidos, mas agora vem à tona por meio da personagem Bianca, vivida por Cleo Pires na nova novela global Salve Jorge, que protagoniza uma luxuosa festa para comemorar a sua separação, com direito a vestido branco e presença do ex.

Tatiana Bandeira, que é consultora e dona da empresa Personal Wedding, já aderiu ao novo nicho de mercado e realizou algumas festas com esta temática, como a da advogada Valeria Calente, 43, e a da empresária Meg Sousa, 31. “O perfil de mulher que busca esse tipo de festa é de uma mulher mais moderna, mais antenada e mente aberta, porque de certa forma você vai estar se expondo”, pontua.

Do ponto de vista da infraestrutura e organização, a festa se assemelha a uma de casamento, conforme explica Tatiana. A diferença é a temática – o famoso “bem casado” passa a ser “bem separado”, o bolo geralmente faz alguma piada com a noiva sozinha ou o noivo indo embora; e as lembrancinhas rementem à vida de solteira e badalação.

Embora a maioria dos convidados ainda estranhe receber um convite deste tipo de festa, Tatiana garante que a intenção de quem marca presença é justamente apoiar. “Por mais que seja tranquila a separação, existe a dor. E as pessoas ficam felizes em ver que a fase ruim passou. Para mim o casamento é uma união, é sagrado. Mas neste tipo de festa  não se celebra necessariamente o divórcio, e sim, o recomeço”, observa.

Pompa e circunstância 
Meg gostou tanto da ideia de comemorar o divórcio que já fez três edições da mesma festa. Cerca de um ano depois de dar fim a uma união de quatro anos, decidiu fazer algo grandioso para marcar a solteirice, algo como um “casamento ao contrário”. A festa, que era à fantasia, reuniu cerca de 400 pessoas. “Entrei com um vestido de noiva, branco, com velcro. Quando tirei, estava com um corpete com uma saia até o joelho. Cheguei com dois gogo-bois”.

A celebração também foi feita no mês de maio, que é o mês das noivas. “A festa foi melhor do que o meu casamento, por isso fiz três edições”, diverte-se. Para se preparar para o grande momento, fez o “Dia da Descasada”, com direito à toda a produção que um “Dia da Noiva” oferece.

A segunda edição foi batizada como “Bodas de Papel Rasgado”, em oposição às Bodas de Papel que os casais comemoram com um ano de união. Dessa vez, ela se vestiu de viúva negra e chegou em uma Limousine, acompanhada por três violinistas que tocavam música eletrônica ao vivo. “A sociedade já impõe que o divórcio tem que ser triste, que alguém tem que sair machucado. Então é melhor sair numa boa do que sair triste chorando”.

Na terceira festa, contou com a organização da consultora Tatiana, e a parceria deu tão certo que, agora, estão investindo neste novo nicho de mercado depois de serem solicitadas por recém-divorciadas. As celebrações tiveram direito a atrações como drag queens, bailarinas com serpentes, ilusionistas, DJs, buffet e lembrancinhas divertidas, como o “Kit Ressaca”, que trazia um pós-drinque e um chiclete.

Para quem quer ter ideia de preço, Meg conta que o valor estimado em cada uma de duas festas foi de R$ 40 a R$ 45 mil. Mas tudo depende do quanto a pessoa está disposta a gastar e, assim como o casamento, existem alternativas para baratear este custo.

Rito de passagem
A advogada Valeria foi casada por 13 anos, depois de namorar por sete. Mãe de dois filhos, ela decidiu fazer uma festa para marcar uma nova etapa da vida. “Quando falamos que estamos divorciadas, as pessoas acham estamos morrendo. Essa é uma forma de comunicar que está tudo bem”, afirmou.

A festa aconteceu cerca de 15 dias depois da separação. “Eu sempre fui muito fã dos rituais de passagem, então para mim foi muito importante. Foi uma declaração de alforria”, afirmou. Ela enfrentou o estranhamento inicial das pessoas e a reprovação da família do ex. “Não o convidei, mas depois ele ficou sabendo e ficou bem bravo. Como o divórcio foi uma coisa que eu amadureci muito antes de decidir, eu só queria mostrar que estava bem, não era para provocá-lo”, conta.

Apesar do desconforto inicial, Valéria diz que não ficou nenhum tipo de rancor e até mesmo os filhos aceitaram a ideia com bom humor. Para quem pensa no assunto, ela recomenda prudência. “Justamente para que não fique com cara de vingança, de revanche, para que seja uma coisa elegante, como foi a minha”.

A psicóloga e terapeuta familiar Marina Vasconcellos alerta para a ressaca moral que pode vir acompanhada deste tipo de festa. “Quando há filhos na história, para eles pode ficar uma imagem ruim, de que os pais estão felizes de se livrar um do outro”.

Na opinião da profissional, o ideal é que ambos cheguem a um acordo sobre o assunto. “Se o divórcio foi amigável, de repente pode ser um ritual, como é o casamento. Agora, se a intenção for dizer ‘estou livre’, acho que fica uma coisa muito agressiva”, opinou. Marina explica que os ritos são usados justamente para marcar fases da vida, como sinônimo de um novo status na sociedade. “Geralmente eles celebram uma coisa boa, significa que a pessoa está passando para outro nível”.

A “festeira” Meg também concorda que a celebração não é recomendada quando a situação entre o casal não está bem resolvida, ou como forma de provocação. “Mas quem termina amigavelmente tem que celebrar, afinal, a gente comemora tudo o que é bom na vida”, pontua. E apesar da tripla alegria trazida pelas festas de divórcio, Meg ainda sonha com outro tipo de final feliz. “Casei na igreja, imaginei que ia ficar velhinha ao lado dele, gostei de estar casada e saí do casamento muito mais mulher. E ainda quero casar de novo e ser feliz para sempre”.