8 dicas ajudam a negociar com o filho adolescente as saídas de casa

Na adolescência, a necessidade de estar entre amigos se intensifica e esse convívio é fundamental para a construção da identidade do jovem. Surge, então, a vontade de sair só com os colegas, sem a presença dos pais.

Segundo a psicanalista e doutora em educação Rose Gurski, professora do programa de pós-graduação em psicanálise do Instituto de Psicologia da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) e autora do livro “Três Ensaios sobre Juventude e Violência” (editora Escuta), essa transição precisa ser realizada com a ajuda dos pais. “É importante que os adultos possibilitem ao adolescente a apropriação de noções sobre responsabilidade, o que demanda flexibilidade e abertura do lado dos adultos. É preciso negociar com os filhos sem cair em posições permissivas demais”, afirma.

Shopping é local ideal para adolescentes começarem a sair sozinhos pela 1ª vez

Veja a seguir algumas dicas para os pais negociarem os programas dos filhos com os amigos:

 1 Permita aos poucos

Segundo a psicóloga Marina Vasconcellos, terapeuta familiar pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), não há uma idade ideal para que o jovem possa sair sem a companhia de adultos. “Depende da maturidade. Uma dica é ir soltando a corda aos poucos, para ver como ele reage”, diz. Para começar, lugares como shoppings, parques e casas de amigos são ideais.

Converse muito

Segundo o psicólogo e psicoterapeuta Antonio Carlos Amador Pereira, professor de psicologia da PUC (Pontifícia Universidade Católica) de São Paulo e autor de “O Adolescente em Desenvolvimento” (editora Harbra), é preciso conversar sobre tudo ao negociar as saídas de casa, principalmente quando se trata de um jovem que acaba de entrar na adolescência. “Os pais devem saber aonde ele irá, a que horas voltará, com quem sairá”, fala. A psicóloga Marina ressalta a necessidade de orientar o filho também sobre drogas. “É importante explicar o que elas podem causar e que ele, por ser menor de 18 anos, não pode nem mesmo beber. Antes de sair, ele precisa saber se cuidar”, afirma.

3 Negocie o horário para voltar

Segundo a psicóloga Marina, o horário de volta depende da maturidade e do tipo de programa que será feito pelo jovem e os amigos. Para o psicoterapeuta Pereira, essa negociação deve ser feita mostrando ao filho que a ideia não é controlá-lo. “Você pode dizer que só consegue dormir depois que sabe que ele chegou bem, por isso um horário precisa ser combinado”, diz.

4 Leve-o e busque-o quando necessário

Dependendo da maturidade do filho e do local aonde ele irá, uma saída para negociar o passeio é chegar ao acordo de que os pais o levarão ou o buscarão. Mas é preciso entender que o adolescente também precisa aprender a se virar sozinho. “Alguns filhos são mais medrosos. Nesse caso, os pais precisam incentivá-lo a se virar sozinho para que ele se desenvolva e aprenda a ter autonomia”, afirma a terapeuta familiar pela Unifesp.

5 Combine a comunicação pelo celular

É importante que os pais peçam aos filhos que eles respondam as mensagens e atendam o celular, mas não exagere no controle. “Não adianta os pais ficarem em cima mandando mensagem o tempo todo. No entanto, o adolescente precisa estar comunicável. Se ele for a um lugar no qual não conseguirá falar, deve-se combinar antes um horário para que ele avise se está tudo bem”, fala a psicóloga Marina.

6 Estabeleça dias para sair

Para Marina Vasconcellos, as saídas devem acontecer nos finais de semana, com algumas exceções permitidas, como o aniversário de um amigo. “Acho importante estabelecer também o acordo de não sair todos os dias do final de semana, já que os adolescentes precisam descansar para voltar à escola na segunda-feira”, diz.

7 Dê mesada

Uma boa dica para fazer o adolescente entender que as saídas de casa não podem ser frequentes é fazê-lo administrar o próprio dinheiro. “A mesada é importante para ele começar a entender quanto custa cada programa e para dar valor ao dinheiro”, diz a psicóloga Marina.

8 Avalie o retorno

Se depois de todos os acordos, o filho desrespeitar algo combinado, é preciso que haja consequências, como ficar sem poder sair por um tempo. Para a psicanalista Rose Gurski, é extremamente importante transmitir aos filhos a noção de que uma combinação deve ser levada a sério. “O adolescente precisa entender que seus atos produzem efeitos e que ele passa a ser responsável por isso”, diz.

Antes de vetar amigos do adolescente, conheça-os melhor

Você já proibiu seu filho adolescente de ser amigo de alguém?

Rita Trevisan e Simone Cunha, UOL, em 08/01/2015

Fuja da armadilha de culpar amigos do seu filho pelo que ele faz de errado. Fazer escolhas é fundamental na formação da identidade do adolescente. Parte desse processo, a escolha dos amigos pode, algumas vezes, virar ponto de conflito com os pais, quando estes não gostam do amigo do filho.

Cabe aos adultos lidar com a situação de forma racional, deixando seu gosto pessoal de lado. É natural que um ou outro amigo do jovem desperte desconfiança nos pais. No entanto, se isso acontecer, é essencial apostar em um diálogo franco.

“A forma de falar é o que importa, e isso vai depender de como foi construído o relacionamento com o filho. Se houver um amor baseado na posse, os adultos podem ter uma reação exacerbada e querer interferir na amizade. Por outro lado, se houver um amor baseado no respeito, eles saberão se posicionar de forma afetiva,
e a conversa servirá de aprendizado para os dois lados”, afirma a psicóloga Ana Paula Mallet, da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).

Para a psicopedagoga Rita de Cássia Rizzo, diretora da Escola Novo Ângulo/Novo Esquema (Nane), em São Paulo, não é papel dos pais, simplesmente, censurar as amizades do filho. “Para que o adulto sustente que não gosta do amigo do adolescente, é preciso que haja motivos verdadeiros e contundentes”, diz.

Esse tipo de avaliação exige cautela. E o primeiro passo, para não cometer injustiças, é tentar conhecer melhor a pessoa que provocou uma má impressão. “Convide o jovem para fazer um programa em família, observe-o e converse com ele. Se notar que existe mesmo uma situação de risco que pode prejudicar o seu filho, é fundamental se posicionar, usando até mesmo de sua autoridade, mas isso em uma situação extrema”, afirma Ana Paula.

Para a psicóloga da Unifesp, questões que envolvem drogas, violência e outras práticas ilegais, por exemplo, precisam ser coibidas. Por outro lado, deve haver um esforço dos pais para ignorar implicâncias pontuais.

 

“Os pais devem tomar cuidado para não se deixarem levar por considerações precoces e preconceituosas”, afirma a psicóloga Marina Vasconcellos, especializada em psicodrama terapêutico pelo Instituto Sedes Sapientiae.

 

Segundo Ana Paula, é importante não classificar o caráter do jovem pela aparência. Outro ponto importante é considerar que o filho pode fazer escolhas bem diferentes das que foram feitas por seus pais e que isso não é, necessariamente, um problema.

“Qualquer que seja a situação, é preciso ter em mente que proibir a convivência com o amigo não resolve”, diz Ana Paula. Em vez disso, os adultos devem explicar porque a convivência com aquele amigo pode prejudicar, recorrendo a fatos e evitando inferências.

Além disso, os pais podem colocar algumas regras e fazer combinados com o filho, para ajudá-lo a evitar situações de perigo. “Mas esse entendimento é um processo, não ocorre do dia para a noite. Depende de muita conversa, o que exige tempo e disposição dos adultos”, fala Ana Paula.

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Observação

De acordo com Rita, os adultos também devem evitar a armadilha de acreditar que tudo o que o filho faz de errado é por influência do amigo. “A tendência é ser sempre extremista: ou o filho é um santo ou é culpado de tudo, mas isso não condiz com a realidade. É preciso aceitar que, na adolescência, o jovem ainda está estabelecendo seus próprios limites, em especial, quando está longe da família. E isso faz parte do desenvolvimento saudável”, declara a psicopedagoga.

Rita sugere que os pais tentem enxergar os filhos como eles são, reconhecendo os pontos que precisam ser trabalhados e as qualidades. “Um pai presente consegue reconhecer essas características no filho e lida com elas de forma tranquila”, fala a psicóloga Marina.

Receber os amigos do adolescente em casa é sempre uma boa pedida. Na ocasião, aproveite para ver como ele se comporta em grupo. Sem invadir a privacidade dos jovens, apenas fique atento ao que conversam e à maneira como se tratam. “O comportamento do jovem, nessas ocasiões, pode dar pistas de como ele age quando está com a turma fora de casa”, diz.

Acompanhar a atuação dele nas redes sociais também pode ajudar. Além disso, a escola pode fornecer dados e ajudar o pai a traçar um perfil mais realista do próprio filho. “Nessas horas, é essencial manter-se imparcial, para entender, de fato, o que está acontecendo com o adolescente. Só depois dessa análise é que os pais poderão direcioná-lo da melhor forma”, afirma Ana Paula, da Unifesp.

Mas só isso não basta. A psicopedagoga reforça que é fundamental estar próximo do filho sempre que possível, acompanhando a rotina dele. “O mais importante é estar disponível, é oferecer um porto seguro, caso o filho queira ou precise conversar ou pedir ajuda. Isso é ainda melhor do que se posicionar como a autoridade, que vai apenas coibir as ações do jovem, quando algo dá errado”, diz Ana Paula.

Operação pais, ativar!

Publicado na Revista Atrevida em abril de 2013

Ficar batendo de frente com os seus pais para fazer valer a sua vontade é cansativo, desgastante e, na maioria das vezes, não dá resultado algum. melhor que isso é tentar entender os comportamentos que você mais detesta neles e aprender a resolver tudo na conversa. Tem jeito. E Atrê (Revista Atrevida) garante!

Sabe aquela hora em que a galera da escola arma “a” balada e seus pais a proíbem de ir, sem querer nem conversar? Ou então quando a sua mãe, pra lá de empolgada, resolve só não deixá-la sair com a turma como se convida para ir junto? Se você já foi personagem de uma dessas historinhas sabe que, no momento exato em que seus pais perdem a noção, dá uma vontade louca de surtar. Mas quer saber? Essa não é a coisa mais inteligente a fazer. Tentar entender os motivos que levam seus pais a agirem desse jeito, por outro lado, é um bom começo. Depois, é preciso tentar construir uma parceria com eles, algo que só se consegue com muita vontade e paciência e que (ai!) leva tempo. Mas a gente garante que, no final, vale a pena. Listamos estratégias que não só funcionam como resolvem de forma definitiva as encrencas de casa. E aí, bora tentar?

Quem deu as dicas: os psicólogos Alexandre Bez, Ana Cristina Nassif, Anne Lise Sappaticci, Elizabeth Monteiro, Marina Vasconcellos e Miguel Perosa; a psiquiatra Ivete Gattás e a psicopedagoga e orientadora familiar Georgia Vassimon.

SE ELES QUEREM QUE VOCÊ SEJA FREIRA

Não porque eles são religiosos demais, mas porque detestam a ideia de ver você beijando alguém!

Tente entender: na cabeça deles, você provavelmente é nova demais para levar uma relação adiante e seus pais querem evitar que você sofra. Outro motivo que os leva a proibir terminantemente os seus namoricos é o medo de que eles atrapalhem seus estudos e todos os outros planos que eles traçaram para a sua vida.

E mude você: faça todo o possível para mostrar que é digna da confiança deles, que aprendeu o que eles ensinaram e (importante!) cumpra com seus deveres. Além disso, deixe claro que faz questão da aprovação deles, que se importa com o que pensam e que está disposta a namorar sério e a levar o namorado em casa, para eles conhecerem. Aborde o assunto com jeitinho para não assustá-los. Fale primeiro com quem está mais calmo e companheiro e, depois, peça ajuda para uma conversa em família. No fundo, é tudo uma questão de preparar bem o terreno. Vai na fé!

SE OS SEUS PAIS DÃO MEDO

Eles são tão, tão críticos que você treme da cabeça aos pés quando precisa levar um papo, mesmo que seja sobre uma coisa besta.

Tente entender: provavelmente eles foram criados de forma rígida pelos seus avós e acabaram seguindo o mesmo modelo. O medo de que você se envolva com drogas, bebidas ou outras coisas que não são nada legais também pode justificar o modo como eles agem.

E mude você: em vez de procurar seus pais só quando precisa de alguma coisa, tente puxar assuntos do dia a dia com eles. Pode acreditar:  quanto mais vocês papearem, menor vai ser a distância entre vocês. Daí, no meio dessas conversas à toa, você pode até comentar que gostaria de se abrir mais com eles, mas que se sente insegura. Só cuidado: fale isso num momento em que estiverem bem tranquilos, escolha as palavras e não faça parecer que a culpa é toda deles. Ao contrário, fale em primeira pessoa, tipo: “eu nunca sei como começar uma conversa” ou “eu tenho medo da reação de vocês”. Mesmo que eles façam cara de quem não está dando a mínima na hora, pode ter certeza de que, depois, no travesseiro, eles vão pensar sobre isso. Outra coisa que ajuda é se interessar de verdade pelo que eles estão sentindo ou passando (em vez de ficar imaginando que só você tem problemas no mundo) e até se oferecer para ajudar, sem esperar alguém pedir. Isso vai mostrar a eles que você está madura e merece um voto de confiança. Por fim, se nada disso adiantar, peça ajuda a alguém próximo  em quem eles confiam muito para intermediar essa conversa. Pode ser um tio, um vizinho ou até a professora da escola.

SE ELES VIVEM FAZENDO VOCÊ PASSAR VERGONHA

Ter um tiquinho de vergonha dos pais, na adolescência, é comum. Portanto, você não precisa ficar se achando uma monstra só porque já quis desaparecer  quando eles quiseram dar o ar da graça no meio da galera. Isso é aceitável, principalmente se os seus pais querem ser descolados, não perdem a oportunidade de entrosar com a turma, fazem piada até com sombra e se esforçam pra usar gírias (, na maioria das vezes, usam errado!).

Tente entender: você talvez nem se preocupasse com esse jeito de ser dos seus pais. Até acharia graça. Porque no fundo você sabe o quanto eles são legais, participativos e preocupados com a sua felicidade. Tudo o que eles fazem é pra tentar diminuir a distância que existe entre vocês, simplesmente porque vocês fazem parte de gerações completamente diferentes. Então, antes de chiar, aceite que as atitudes deles são só mais uma forma de amor.

E mude você:  se chegou a ficar vermelha que nem pimenta só umas duas ou três vezes na vida pelo comportamento deles, melhor fingir que nada aconteceu e simplesmente relevar. Agora, se isso acontece toda hora e já está fazendo você ganhar apelidinhos chatos na turma, abra o jogo e fale como se sente. Seja direta e diga o que gostaria que eles não fizessem na frente da turma. Mas seja doce e gentil nesse papo, para não magoá-los. Por outro lado, nada de ficar criticando a galera de casa o tempo todo, querendo mudar o jeito deles. Pensa: você também não detesta quando fazem isso com você? Então… Tente olhar as mil qualidades que eles certamente têm e valorize o esforço que fazem por você. Na dúvida, se sua turma encher você por causa disso, delete os amigos. Os pais valem mais!

SE ELES DETESTAM SEUS AMIGOS

Eles nem conhecem sua galera, mas adoram dizer que são péssima companhia? Pior: não querem mais nem que você saia com eles!

Tente entender: por algum motivo, seus pais têm medo de que os amigos influenciem você a tomar atitudes erradas ou simplesmente temem que a turma a faça sofrer. Tudo não passa de uma preocupação (que muitas vezes até faz algum sentido) com a sua saúde, seu bem-estar e a sua felicidade.

E mude você: para acabar de vez com o problema, ou você mostra para eles que seus amigos são cabeça-feita ou mostra que, independentemente das amizades, você já sabe o que é melhor pra você. As duas coisas dão trabalho. No primeiro caso, você vai ter que pedir autorização para para levar a galera para casa, para permitir que seus pais conheçam, de verdade, esses amigos. Se os garotos e garotas forem realmente do bem, seus pais vão sacar na hora. Uma alternativa é demonstrar, nas pequenas atitudes do dia a dia, o quanto você é madura e responsável com você mesma, com as suas coisas e com a escola. Por fim, se mesmo assim seus pais continuarem implicando, vale colocar a cabeça no travesseiro e analisar se, de fato, eles não estão com razão. Se chegar a conclusão de que a sua turma não tem mesmo muito a ver com você ou que ela não respeita tanto o seu jeito de ser, os seus valores e a sua vontade, é sinal de que o melhor a fazer mesmo é pular fora.

SE OS SEUS PAIS TE CONSIDERAM UMA CRIANÇA

Eles são suuupercarinhosos e paparicam você demais. Por outro lado, querem controlar to-dos os seus passos, usam apelidinhos bregas para chamar sua atenção no meio de toda a turma e, se bobear, não deixam nem você ir até a esquina se não estiver escoltada por um adulto.

Tente entender: seus pais simplesmente não suportam a ideia de ver você sofrendo. Por isso, eles querem, de todo jeito, protegê-la e facilitar a sua vida. Amam você mais que tudo e, mesmo com o seu crescimento, ainda não perceberam que você sabe se cuidar.

E mude você: para ser vista como uma menina mais madura, você terá de assumir mais responsabilidades e, claro, provar que dá conta delas. Cumprir com os seus deveres e levar a sério os estudos, manter as suas coisas organizadas, ajudar em casa e tratar bem os seus irmãos são atitudes que vão passar aos seus pais o recadinho de que você cresceu. Se mesmo assim eles continuarem o velho discurso, explique a eles o quanto isso a incomoda e lembre-os de que, infelizmente, você não poderá contar com eles em todos os momentos da sua vida e que, por isso mesmo, precisa aprender a se virar sozinha. É certeza que eles vão considerar seus argumentos.

 

Seu filho, um cidadão

Atitudes para que as crianças virem adultos conscientes de seus direitos e deveres

Publicado na revista Cláudia em fevereiro de 2013

Por definição, um cidadão é um indivíduo com direitos civis e políticos garantidos por um Estado – ou seja, em tese, seu filho já nasceu um cidadão. Mas a teoria não basta. É preciso aprender, praticar e cultivar a cidadania.Boa parte dos valores éticos essenciais para que ele, no futuro e agora, viva bem em sociedade vem da escola. “É lá que a criança tem as primeiras experiências mais sólidas em termos de vida pública e aprender a conviver , como alguém que pertence a um lugar e um grupo”, diz Maria Teresa Égler Mantoan, professora da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de campinas (Unicamp) e coordenadora do Laboratório de Estudos e Pesquisas em Ensino e Diferença (Leped), da mesma instituição. mas as noções de respeito por si mesmo e pelo outro, a solidariedade e a tolerância para conviver bem com a diversidade também nascem em casa. Tudo começa pela postura que os pais assumem tanto nos domínios domésticos quanto na comunidade da qual fazem parte. Atitudes cotidianas até simples, como caminhar pelo bairro para conhecê-lo melhor ou puxar uma conversa crítica sobre um filme que a família acaba de ver, ajudam a formar filhos cidadãos. Consultamos especialistas e reunimos as principais.

SEJA UM BOM MODELO

Um ótimo ponto de partida é mostrar – não com palavras, mas com ações – que a família tem consciência de seus direitos e deveres e age de modo participativo na sociedade. isso inclui ir a reuniões e eventos promovidos pela escola em que os filhos estudam, não faltar a assembleias de condomínios, comparecer às urnas para eleger governantes consciente de seu voto, opinar em referenciados  e inteirar-se de questões importantes para o seu bairro, sua cidade, seu estado, seu país. Mas as atitudes do dia a dia contam, e muito. Então, atenção: do banco de trás do carro, seu filho percebe se você dá ou não passagem para pedestres, se sempre segue as regras de trânsito – ou as burla quando está com pressa, por exemplo – e se costuma parar em fila dupla ao deixá-lo na escola. E nota a gentileza e o bom senso (ou a falta desses atributos) no trato com parentes, amigos, colegas de trabalho e empregados. “Crianças e adolescentes são muito observadores. Veem tudo”, afirma a psicóloga Marina Vasconcellos, terapeuta familiar e de casais, em São Paulo. Ela ressalta que, por isso, vale comentar quando pessoas fazem algo errado.”Você pode dizer: ‘Olha só, um motorista parado bem em cima da faixa. isso não é legal.'”, sugere. O papo deve acontecer de modo natural e fluido, não parecer ensaiado ou ter ar de lição de moral. Uma das bases para formar um cidadão crítico é você mostrar quem é de verdade, suas crenças e seus princípios.

ATIVE O SENTIMENTO DE PERTENCER

cidadania tem tudo a ver com sentir-se parte integrante de um grupo e corresponsabilizar-se por ele. Primeiro a própria família. “Os pais precisam falar sobre ela e mostrar quem é esse conjunto de pessoas mais próximas, sua história e seus hábitos. Assim, a criança começa a entender como seus parentes convivem e quais são os limites que ela ocupa dentro dessa célula”, diz Maria Teresa, do Leped, da Unicamp. Quando bem trabalhado na esfera micro, o sentimento de pertencimento facilita a convivência na esfera macro – não importa aqui se estamos falando de outras crianças no parque, na turma do clube ou de colegas da escola. Segundo experts, esse sentimento de pertencer a algo, que gera comprometimento, é essencial para seu filho entender que “estar com o outro” é diferente de apenas “estar junto do outro” – pressupõe compartilhar e respeitar. De acordo com Maria Teresa, “o papel da família é central para as crianças perceberem que, fora de casa, elas também têm compromissos com o mundo que a cerca”. mais adiante, essas noções contribuirão para dar sentido à ideia de nação, na qual podemos reclamar se nossos direitos não são assegurados, mas também precisamos assumir deveres para o bem comum.

INVISTA NA PARCERIA COM A ESCOLA

Uma vez que tanto a vivência em família como as experiências no ambiente escolar são fundamentais para a construção e o fortalecimento das noções de cidadania, nada mais sensato do que buscar uma sólida parceria. “Todas as instituições sociais participam do processo educativo. Mas a escola é aquela destinada a educar de modo organizado e sistemático. É ali que são partilhados, de forma intencional e específica, os conhecimentos, as crenças e os valores de uma sociedade”, afirma Terezinha Rios, doutora em educação e colunista da revista Nova Escola Gestão Escolar, da Fundação Victor Civita. Conhecer os caminhos trilhados pela escola em que seu filho estuda requer mais do que só acompanhar comunicados e comparecer a reuniões. Peça para conhecer o projeto político-pedagógico, documento no qual são descritos objetivos e metas da instituição, bem como os meios utilizados para alcançá-los. A maioria desses projetos faz referência à formação cidadã. Depois, é preciso acompanhar o mais de perto possível o trabalho cotidiano dos educadores para ver como as propostas são colocadas em prática. “A tarefa da escola terá mais êxito se articulada à atuação de outras instituições, principalmente a família. É preciso estabelecer o diálogo.”

ABRA ESPAÇO PARA POSTURAS CRÍTICAS

Passear a pé pelo bairro, ver o que ele tem de bom e de ruim, observar a diversidade de pessoas e lugares que abriga, pensar em formas de torná-lo mais bonito e agradável. Essa é uma atividade simples, mas carregada de estímulos ao comportamento cidadão. Também dá para fazer exercícios parecidos em outra cidade ou país. “Conhecer novos povos, culturas, hábitos e culinárias diferentes é favorecer o entendimento da diversidade”, diz a psicóloga e psicanalista Blenda de oliveira, de São Paulo.  E isso é básico para desenvolver a tolerância. Sem contar que a criança e o adolescente precisam de espaços para expressar suas opiniões. Há formas simples e que funcionam de fazer isso. “Que tal assistir a um documentário, um filme de ficção ou uma peça de teatro e depois fazerem juntos um debate crítico sobre eles? Esse tipo de discussão ajuda a estimular a reflexão, importante na construção da cidadania”, afirma Luciana Maria Allan, diretora técnica do Instituto Crescer para a Cidadania, em São Paulo. O trabalho voluntário é outro eixo a explorar. Visitar uma casa de repouso ou contar uma história em uma creche são experiências que sensibilizam e mudam o olhar dos nossos filhos. Só não adianta cobrar interesse por voluntariado se essa não é uma prática valorizada pela família e incorporada a seu dia a dia. “falamos que os jovens de hoje são apáticos e não têm visão crítica do mundo. mas em que momento nós, como pais, oferecemos estratégias para que sejam cidadãos participativos? Quando convidados, eles querem participar e gostam. Ficam chocados e preocupados com a realidade ao redor e têm energia para mudar as coisas para melhor”, diz Luciana.

INCENTIVE A COLABORAÇÃO

A amizade e a convivência entre vizinhos parece diminuir conforme aumenta o tamanho das cidades e dos condomínios. O resultado é que hoje impera o individualismo em nossa sociedade. “Estamos mais isolados e infelizes”, resume Maria Teresa, da Unicamp. “Há quem tema ser solidário por medo de se dar mal e quem ache que nunca vai precisar de quem mora ao lado, torcendo para que a recíproca seja verdadeira”. Em vez de perpetuar o isolamento, os pais precisam favorecer o encontro. vale incentivar seu filho a se apresentar a novos moradores do prédio, chamando-os para brincar. Ou convidar um colega recém-chegado à escola para uma tarde de diversão. Sim, eventualmente eles entrarão em conflito. E sim, talvez eles sejam diferentes em trajetória, características, pensamentos e posses. Mas nada disso deve servir como medida de comparação ou competição, e é isso que você vai ensinar a seu pequeno. Tome sempre cuidado não só com o que fala mas com o que pensa. Sonhar que seu filhos erá um grande vencedor na vida é válido, mas nunca a qualquer custo. Pouco vale chegar lá se não houver justiça social para que o outro também tenha a chance de chegar – e é por isso que a violência urbana é um problema de todos nós.

DIGA NÃO A QUALQUER DESPERDÍCIO

Certamente, as festas de fim de ano fizeram roupas, brinquedos e aparelhos eletrônicos novos desembarcarem na sua casa. É uma oportunidade para promover uma limpeza geral nos armários e ensinar que certos acúmulos são desnecessários. Além de gratificante, o ato de doar é pedagógico. “Ensina sobre desapego e mostra que nada é insubstituível”, diz Marina. falar sobre o uso consciente de água e energia elétrica e mostrar a importância de separar o lixo também são lições essenciais. “É preciso educar os filhos para que aprendam a não desperdiçar comida, tempo, amigos, afetos, talentos e oportunidades. Sustentabilidade engloba tudo isso”, afirma Blenda. O desafio é transmitir um pacote completo de limites, valores, responsabilidades e posturas cidadãs em diferentes áreas – um pacote para ser carregado a vida inteira.

 

Como lidar com o filho que segue religião diferente da dos pais

Publicado no UOL em 05/03/2013

Antes de criticar a escolha do jovem, procure entender o que o levou a uma religião diferente da sua

Antes de criticar a escolha do jovem, procure entender o que o levou a uma religião diferente da sua

O jovem foi criado de acordo com os preceitos religiosos que os pais acreditam e praticam, mas um belo dia comunica que se interessa e está seguindo outra religião. Como lidar? Como em todas as questões relacionadas à convivência entre adultos e adolescentes, o primeiro passo é respeitar e entender a motivação por trás da mudança.

Segundo o padre Valeriano dos Santos Costa, diretor da Faculdade de Teologia da PUC de São Paulo, o melhor caminho é sempre o do diálogo e o da compreensão. “Em primeiro lugar, os pais devem tomar conhecimento de que religião se trata e quais as implicações para a vida do filho e a da família. Ao mesmo tempo, têm de se colocar no lugar do jovem para entender seus anseios. Precisam também considerar que os tempos mudaram e que os adolescentes de hoje fazem exigências que a geração dos pais não fazia. Eles querem ser ouvidos e participar de tudo. São mais críticos, embora nem sempre consistentes.”

É essencial ter bom senso ao conversar sobre o assunto. “Os pais precisam perceber que nem sempre o que foi ou é bom para eles também é adequado para o filho. Portanto, devem permitir que ele procure seu caminho espiritual. A religião pode ser um apoio, uma sustentação emocional e não deve ser simplesmente cortada por mero capricho, cisma ou intolerância dos adultos. Se está fazendo bem para o filho, não há por que reprimir”, afirma a terapeuta familiar e especialista em psicodrama Miriam Barros.

Como a adolescência é uma fase de paixões e interesses intensos, mas não raro passageiros, vale observar o comportamento do filho antes de entrar em discussões. “É importante entender a razão pela qual ele está seguindo outra religião. Às vezes, é só porque uma menina por quem está interessado faz parte dela”, diz Marina Vasconcellos, psicóloga e terapeuta familiar pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). Também pode ser pela necessidade, bastante comum na faixa etária, de pertencer a um grupo.

Seja qual for o motivo que levou o jovem a se distanciar da religião praticada pela família e a adotar outra, o pior a se fazer nesse momento é tentar proibir a prática. “A repressão é puro jogo de forças e não leva ao diálogo”, declara o padre Valeriano, da PUC de São Paulo.

Opor-se, sem fundamento, à nova religião do filho é a pior forma de lidar com a situação. “Tem de se tomar cuidado para não virar coisa pessoal, o que provocaria mais resistência do outro lado. Se isso acontecer, não importa tanto a religião, o que importa é que ela se torna argumento para contestar os pais. Só existe um meio para ajudar os outros: amor e diálogo. Nesse clima é possível dizer a verdade sem ferir”, fala o religioso.

Conciliar crenças religiosas na mesma família é possível desde que a tolerância seja praticada, de acordo com os especialistas ouvidos nesta reportagem. “É preciso se colocar no lugar do outro e, acima de tudo, evitar disputas, competições, zombarias, tirar sarro, provocações. A verdade de um pode não ser a do outro”, diz a terapeuta Miriam Barros.

Sinal de preocupação

Respeitar, no entanto, não quer dizer não observar se a nova religião afeta ou não o comportamento do adolescente e de que maneira isso acontece. “O que pode parecer fanatismo, muitas vezes, é apenas um entusiasmo natural. Desde que o jovem continue a ter uma vida familiar, escolar e social normal, não há problema”, declara a terapeuta Miriam Barros.

Há atitudes que podem ser indício de uma dedicação exagerada à crença, segundo a terapeuta Marina Vasconcellos. “Soube de um caso em que o filho, que adorava música, jogou fora todas as partituras de canções que sempre havia tocado”, fala a especialista.

Mais uma vez, é importante recorrer ao diálogo e acompanhar o jovem à igreja que ele escolheu para melhor conhecê-la. Se a comunicação estiver difícil, os pais também podem pedir que algum adulto da confiança do jovem converse com ele ou, em casos extremos, optar pela terapia em família. A repressão deve ser o último recurso. “A proibição gera revolta. É provável que, de uma forma ou outra, o filho encontre uma maneira de fazer o que deseja”, diz Miriam.

Vergonha dos pais é comum, mas nem sempre deve ser tolerada

Publicado no UOL em 09/01/2013

Tratando o filho como um bebê, os pais podem estar colaborando para que ele se afaste

Tratando o filho como um bebê, os pais podem estar colaborando para que ele se afaste

É comum ouvir os jovens pedirem aos pais para não os deixarem em frente ao portão da escola ou da festa dos amigos. O comportamento é típico da fase e tem a ver com o medo de que os adultos não se comportem adequadamente na frente da turma, o que pode torná-los motivo de chacota. “Nesse sentido, a distância que o adolescente estabelece serve apenas para evitar acontecimentos constrangedores para ambas as partes”, afirma a psicóloga Jane Felipe, professora da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul).

A vergonha da família também pode ser fruto da sensação de que os pais são inferiores aos amigos em alguns aspectos, como a condição econômica ou cultural. “À medida que o adolescente vai notando as diferenças, a partir do contato com outras realidades, ele pode começar a negar suas origens”, diz Jane.

Além disso, o desejo do jovem de se mostrar mais independente, de se afastar tanto quanto possível da imagem da criança que necessita da proteção dos adultos, pode estar motivando esse tipo de atitude.

De qualquer forma, é válido que os pais analisem se não estão dando motivo para o comportamento arredio do adolescente. “Muitos querem bancar os engraçadinhos na frente dos amigos do filho. Outros tratam o jovem como se fosse um bebê. Agindo assim, eles o deixam em uma situação realmente difícil diante da turma, sem perceber ou mesmo sem ter a menor intenção de prejudicá-lo”, fala Jane.

Pais devem permitir que os filhos adolescentes transem em casa?

Publicado no BOL em o6/04/2012

Quais regras e limites devem ser impostos para que eles não percam o respeito pelos pais?

Há quem acredite que a filha vai se casar virgem. Outros são da teoria de que “o que os olhos não veem, o coração não sente”.  Alguns, mais corajosos, defendem que os filhos(as) levem os namoradas(os) para dormir em casa, assim estarão mais seguros. Mas até o pai mais moderno costuma sentir um aperto no peito quando a filha vira para ele e diz: “já está tarde para meu namorado ir embora. Ele pode ficar em casa?”. Qual resposta deve ser dada em uma hora dessas? Quais os limites devem ser impostos? O UOL Comportamento conversou com especialistas para ajudar a resolver o dilema familiar da melhor forma possível.

Deixar ou não deixar? Eis a questão
“É importante se questionar para perceber se há espaço para que isso aconteça”, diz a psicóloga Lélia Reis, pesquisadora do grupo Sexualidade Vida (CNPq/USP). “Você pode ouvir barulhos no meio da noite e, se os relacionamentos não durarem muito tempo, terá que se acostumar com a rotatividade”. Se a resposta não estiver na ponta da língua quando o adolescente o questionar, não dê desculpas nem mude de assunto. “Se não dá conta, seja honesto”, diz Lélia. “Diga que irá pensar numa saída, mas que não se sente à vontade ainda”.

Para a psicóloga Marina Vasconcellos, especializada em psicodrama, é melhor só permitir que namorados durmam em casa quando os filhos estiverem mais perto da maioridade. “Muitos jovens estão aquém da maturidade emocional exigida para o sexo e seguem os instintos sem saber as consequências do que estão fazendo”, diz ela. “Estimular a vida sexual tão cedo não é bom”.

Se eu permitir, eles perderão o respeito por mim?
“Dificilmente. A menos que os pais sejam totalmente liberais ou não tenham educado seus filhos para os respeitarem”, diz Marina. É importante que os pais do jovem, independentemente de continuarem casados ou não, cheguem a um consenso sobre como vão lidar com a situação e passem as mesmas normas para os filhos. Se as regras forem estabelecidas com clareza, não há com o que se preocupar. “Eles só perdem o respeito se não houver limites”, diz a psicanalista e sexóloga Maria Alves de Toledo Bruns, líder do grupo de pesquisa Sexualidade e Vida. “Não dá para ter uma pessoa diferente por dia saindo do quarto do seu filho ou pegá-lo no sofá da sala com alguém”.

Devo impor regras?
Sim, sempre. “Os filhos até esperam por isso, pois sentem que estão sendo cuidados”, diz Marina Vasconcellos. “Eles encaram como uma falta de atenção quando os pais são muito permissivos”. Depois de chegar a uma conclusão com seu parceiro e estabelecer quais são os limites, dias e horários permitidos, é bom deixar claro para os filhos o que pode ou não ser feito. “É importante que os pais tenham informações sobre quem é o namorado ou a namorada, ter contato com a família e até ligar para avisar quando a pessoa for dormir em casa”, diz a psicanalista e sexóloga Maria Bruns. Para ela, a maior preocupação deve ser ao decidir até que ponto a intimidade da família deve ser compartilhada com uma pessoa de fora. “Levar alguém que encontrou na festinha ou no barzinho é muito precipitado”.

Que conversas ter?
““Você percebe a maturidade dos filhos pelas conversas”, diz Marina. “Se eles já têm idade para fazer sexo, têm idade para dialogar”. Além do papo sobre doenças sexualmente transmissíveis, gravidez, prevenção e métodos contraceptivos, outros assuntos devem ser abordados. Para Lélia Reis, é essencial também falar sobre relacionamentos e sentimentos. “Diga como lidar quando a pessoa não liga no outro dia, fale sobre inseguranças com o corpo e explique para a menina que o homem não vai achá-la fácil se ela tiver camisinha na bolsa”, diz. Os pais também devem levar o filho ao urologista e a filha ao ginecologista para acompanhar o desenvolvimento e ajudar a esclarecer questões.

Como não deixá-los constrangidos com o papo?
“Converse da maneira mais natural possível, assim eles encararão de uma maneira tranquila”, diz Marina Vasconcellos. O problema é que essa naturalidade não surge da noite para o dia. Não adianta mudar de canal cada vez que vê uma cena picante na novela ao lado do filho e, uma semana depois, vir com papo sobre camisinha. “A família cria seus próprios tabus ao longo do processo educacional”, diz a sexóloga Maria Bruns. “E o diálogo deve ocorrer antes da adolescência”. Para ela, o ideal é aproveitar oportunidades ao ver filmes, novelas ou noticiários ao lado dos filhos. Até mesmo histórias de pessoas próximas podem servir como um pretexto para comentar sobre sexo -sempre aos poucos e no tom de conversa, não de lição. “Deixe claro que o filho tem a liberdade para falar sobre isso ou não. A confiança é conquistada desde a infância, aos poucos”, conclui Lélia.

Seis erros cometidos pelos pais na educação dos filhos

Autores e especialistas listam e comentam os equívocos mais comuns dos pais no relacionamento com as crianças

Publicado no IG Delas em 02/03/2012

Preconceito racial deve ser abordado de forma clara na infância. Foto: Thinkstock/ Getty Images

Elogiar muito uma criança pode estragá-la. Para um adolescente, discutir com os pais demonstra respeito. Estas são apenas algumas afirmações contidas em “Os 10 Erros Mais Comuns na Educação de Crianças” (Editora Lua de Papel), recém-lançado no Brasil e escrito pelos americanos Po Bronson e Ashley Merryman. No livro, os autores procuram desconstruir mitos atuais a respeito da educação das crianças a partir de resultados de pesquisas sobre o desenvolvimento infantil. Conheça alguns dos discursos equivocados mais comuns dos pais citados pelo livro e confira os comentários de especialistas.

“Sempre elogio meu filho”

Incentivar e apoiar as atitudes de uma criança parece um caminho 100% seguro para garantir autoestima em alta. O problema é que o exagero pode levar a um efeito exatamente contrário. “Até os anos 70 não havia uma preocupação nítida com essa questão da autoestima dos filhos. Quando se começa a falar mais sobre isso, vem o exagero. Os pais começaram a elogiar qualquer coisa, mesmo que banal”, afirma Tania Zagury, mestre em educação e autora do livro “Filhos: manual de instruções” (Editora Record).

Tania ressalta que encorajar e parabenizar um filho deve fazer parte da rotina da família, desde que os pais percebam que as crianças realmente se esforçaram para atingir o objetivo. “Elogios excessivos e falta de encorajamento são dois extremos perigosos. O ideal é cada família encontrar o seu equilíbrio”.

 

“Deixo meu filho dormir um pouco mais tarde para ficar comigo”

De acordo com os autores do livro, pesquisas apontam que uma hora a menos de sono por dia pode significar problemas como comprometimento da capacidade intelectual, do bem-estar emocional, déficit de atenção e obesidade. Apesar de não haver ainda um consenso estabelecido pelos estudiosos, muitos defendem a ideia de danos causados pela diminuição de horas de sono para crianças e adolescentes.

“Os pais trabalham fora e acabam chegando tarde. Para compensar essa ausência permitem que seus filhos fiquem acordados até mais tarde em sua companhia. Mas isso pode ter um efeito ruim”, aponta Tania. O psicólogo clínico pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Marcelo Quirino concorda: “um sono ruim pode gerar alterações afetivas, cognitivas e sociais. O sono é fundamental para uma boa saúde”.

Livro tenta mudar mitos sobre educação de crianças. Foto: Reprodução

“Ensino a meu filho que somos todos iguais”

Qual a forma ideal de falar sobre diversidade racial com as crianças? Muitos pais acreditam que expor a criança a um ambiente multirracial, sem necessariamente apontar diferenças físicas como a cor da pele, seria o suficiente para desencorajar o preconceito e fazer com que o filho encare tudo com naturalidade. Para Po Bronson e Ashley Merryman, ficar apenas no discurso de “somos todos iguais” não é o caminho ideal. Os autores do livro defendem a abordagem mais clara do tema com diálogos exatamente sobre essas diferenças físicas e por que elas não devem ser motivo de discriminação. “O discurso de que somos todos iguais é mesmo muito superficial porque simplesmente não somos iguais. Pelo menos não fisicamente”, diz Marcelo.

Psicóloga e terapeuta familiar da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Marina Vasconcellos acredita que o importante é ensinar a respeitar as diferenças. “Dizer que somos todos iguais acaba sendo uma mentira mesmo. Outra abordagem é necessária”.

“A criança enxerga diferenças físicas. É uma questão visual. Precisamos ensinar que essas diferenças existem e nem por isso um é melhor do que o outro. A questão do preconceito deve ser trabalhada desde cedo com mais profundidade”, afirma Tania.

“Não discuto com meu filho adolescente”

Fase de bastante atrito, a adolescência é motivo de pavor para muitos pais. Alguns se sentem afrontados e outros desrespeitados diante de tantas discussões e confrontos. Mas será que os filhos também enxergam as discussões como uma forma de desrespeitar seus pais? “Tudo depende de como essa discussão acontece. Vozes exaltadas e xingamentos, por exemplo, não fazem parte de uma discussão saudável. Mas se é uma conversa respeitosa, é muito positivo para a família”, conta Marina.

Para fugir de tantos conflitos, muitos pais acabam sendo condescendentes com atitudes erradas dos filhos, como dirigir um carro sem permissão ou chegar embriagado em casa. Casos assim exigem posicionamento dos pais para o adolescente saber que eles se importam com seu bem-estar. “O adolescente pode confundir permissividade excessiva com falta de interesse mesmo. É preciso encontrar um equilíbrio. O interesse abusivo e o desinteresse total são igualmente prejudiciais”, ensina Marcelo Quirino.

Não é possível prever se criança será adulto bem sucedido. Foto: Thinkstock/ Getty Images

“Meu filho é superinteligente”

Será possível detectar hoje os grandes nomes do futuro? O livro de Po Bronson e Ashley Merryman conta que milhões de crianças competem por vagas em boas escolas nos Estados Unidos, mas que em 73% dos casos todo esse processo seletivo mostrou-se equivocado. “Não há como prever se uma criança vai ser bem sucedida, mas se ela tiver uma boa educação certamente terá mais chances”, diz Tania Zagury.

“Os pais ou os avós podem até enxergar um gênio, entretanto é o coração falando alto. Tirando o emocional de campo, crianças mais precocemente estimuladas possuem maior possibilidade de desenvolvimento intelectual”, diz Tania, observando que as diferenças individuais existem e devem ser respeitadas.

“Meu filho assiste a DVDs educativos”

É sedutor pensar nos vídeos educativos disponíveis na prateleira das lojas como ajudantes poderosos no desenvolvimento da fala do seu bebê. Um engano comum, segundo os autores de “Os 10 Erros Mais Comuns na Educação de Crianças”. O assunto é tão polêmico que foi alvo de um comunicado da Academia Americana de Pediatria condenando o uso de vídeos para crianças de até dois anos de idade.

O psicólogo Marcelo Quirino explica que o desenvolvimento da linguagem é acima de tudo afetivo. “O vídeo é passivo e não estimula a interatividade com a criança. É uma ferramenta auditiva e visual. Não substitui o afeto e o diálogo entre pais e filhos”.

Dez erros que os pais cometem e afastam os filhos adolescentes

Publicado no UOL em 26/03/2011

Na adolescência, há um afastamento natural, para que os filhos possam testar sua autonomia (Foto: Thinkstock)

A adolescência é um período complicado para pais e filhos. As relações ficam mais difíceis, as preocupações aumentam e é preciso administrar com calma essa fase cheia de experiências novas para os jovens. Para evitar o distanciamento, duas especialistas listam dez erros comuns, cometidos pelos pais, em relação aos adolescentes.

1º ERRO: não entender que os filhos cresceram

As crianças são muito ligadas aos pais. Mas, na adolescência, há um afastamento natural, para que os filhos possam testar sua independência e autonomia. E isso não significa que os jovens não gostam mais de seus pais. A psicóloga Marina Vasconcellos explica que os adultos devem entender esse momento e dar mais liberdade (claro, com limites). “Não dá para permitir tudo, mas é um erro impedir que os adolescentes tenham experiências novas, afinal, eles cresceram e precisam disso para a construção da identidade.”

2º ERRO: minimizar as descobertas

Os pais costumam dizer aos filhos que sabem perfeitamente pelo que eles estão passando, pois já viveram tudo aquilo. E, portanto, acham que podem dizer qual é o melhor caminho. Marina diz que isso é um erro. “É preciso respeitar o momento do filho, sem impor seu modo de pensar. Por mais que tenhamos ideia de como é, agora é a vez deles”, diz a psicóloga. “É impossível impedir o sofrimento dos filhos. Todos têm tristezas e dificuldades. Os jovens também.”

3º ERRO: não saber como controlá-los

Os adolescentes se consideram maduros e não gostam de dar satisfações. Mas precisam. E o ideal é fazer com que isso aconteça naturalmente, sem a necessidade de cobrar explicações. De acordo com Marina, “se os adolescentes são tratados com respeito, geralmente, retribuem da mesma maneira”, diz ela. “Pais que julgam bloqueiam os filhos, que se fecham. Em uma relação saudável, as conversas fluem normalmente. Isso inclui falar sobre que estão passando, apresentar os amigos, compartilhar as experiências”. O conselho dela é dar espaço para que o filho se abra, sem que sinta medo de ser julgado. “Quebre o clima de tensão entre vocês com bom humor.”

Não minimize as descobertas do seu filho sempre repetindo que já passou por tudo isso (Foto: Thinkstock)

4º ERRO: exagerar nas cobranças

A adolescência é uma fase de muitas cobranças. Os pais querem que os filhos tenham um bom futuro, estudem, tenham boas companhias, criem responsabilidade, não se envolvam com drogas… A sugestão de Marina é escolher a forma certa de cobrar. “Os pais devem ser afetuosos, senão não funciona. Não podem apenas cobrar. A cobrança precisa ser intercalada com carinho, diversão, momentos descontraídos e diálogos. Muita pressão cansa os dois lados: adolescentes e pais.”

5º ERRO: não saber dar liberdade

Podar demais não dá certo. “Deixe que o seu filho durma na casa dos amigos”, exemplifica Marina Vasconcellos. “Ligue para os pais do amigo, certifique-se de que é seguro e permita”. De acordo com a psicóloga, os pais têm dificuldade para saber qual é o momento certo de permitir que os filhos saiam à noite. “Aos 15 ou 16 anos, eles querem chegar mais tarde em casa. Querem ir para as baladas. Deixe-os ir, mas é importante ir buscá-los, para ver como saem dessa balada (se estão com os olhos vermelhos ou bêbados, por exemplo)”, recomenda a psicóloga. “Combine um horário condizente com a idade e a maturidade do seu filho.”

6º ERRO: demonstrar falta de confiança

Certificar-se de que o seu filho está em segurança é bem diferente de vigiá-lo. De acordo com a psicoterapeuta Cecília Zylberstajn, o filho pensa que, se o pai não confia nele, pode fazer o certo ou o errado, pois não fará diferença. “Investigar exageradamente não estimula a responsabilidade. Gera um clima de desconfiança –e as relações íntimas são baseadas na confiança”, alerta a especialista. “Diga para o seu filho que quer se assegurar de que ele estará bem e informe-se, mas não aja às escondidas.”

7º ERRO: desesperar-se nas crises

Os adolescentes dão trabalho. Mas é essencial agir com cautela. “As reações precisam ser proporcionais aos fatos”, diz Cecília. “Se o seu filho entrou em coma alcoólico é uma coisa, se chega cheirando a bebida é outra. Os pais devem hierarquizar a gravidade dos problemas”. De acordo com a psicóloga, ter uma reação desmedida (ou dar broncas muito frequentes) estimula o filho a mentir. “Para o adolescente, o problema é a bronca. Ele não pondera se suas atitudes podem ser perigosas. Por isso, converse com calma, para entender as razões que o levaram a fazer escolhas erradas. Descubra se é algo frequente e explique as consequências.”

Colocar defeito em todos os namorados dos seus filhos pode afastá-los de você. Cuidado! (Foto: Thinkstock)

8º ERRO: constranger os filhos

Na adolescência, é comum os filhos terem vergonha dos pais. Tente compreender isso. Cecília explica que os pais são munidos de informações que podem envergonhar o filho diante dos amigos. Particularidades que só os pais sabem, mas que o jovem não quer que sejam reveladas. “Os adultos precisam evitar expor a intimidade dos filhos, pois, muitas vezes, o deixam constrangido. Evite, também, estender muito as conversas com os amigos dele. “Pai e mãe não são amigos. Pais que querem ser amigos não estão sendo bons pais”, alerta Cecília. “A relação precisa ser hierárquica. Isso não significa que tenha de ser ruim. A diferença é que, com amigos, temos relações de igual para igual. Entre pais e filhos não é assim”, diferencia a psicóloga. “Os pais podem ser bacanas, compreensivos, divertidos, mas são pais.”

9º ERRO: colocar seu filho em um altar

Pare de pensar que ninguém está à altura do seu filho. É comum os pais colocarem defeitos em todos os amigos e, principalmente, nos namorados que os adolescentes têm. Cecília lembra que o excesso de julgamento faz com que os filhos se fechem. “O resultado de tantas críticas é que os filhos passam a esconder namorados e amigos dos pais. Eles perdem a vontade de apresentar pessoas com quem convivem e começam a ficar mais na rua do que dentro de casa”, alerta.

10º ERRO: fazer chantagens

Ameaçar cortar a mesada, caso o filho não obedeça, é muito comum. Assim como dizer que, enquanto ele viver às suas custas, não poderá tomar certas atitudes. “Isso é uma chantagem e não educa”, resume Cecília. “Os pais devem explicar as razões que os levam a proibir determinados comportamentos. Com ameaças, o jovem apenas obedece para não perder um benefício”. A psicóloga diz, ainda, que, agindo assim, a relação entre pais e filhos fica muito rasa. “É como beber e dirigir: quem não faz, pois sabe que é perigoso para si e para as outras pessoas, compreende o problema. Quem deixa de fazer apenas por medo da multa, não entende os riscos”, exemplifica.

Primeira menstruação não pode ser adiada

Mães procuram médicos para adiar a primeira menstruação das filhas, mas especialistas explicam porque essa atitude é equivocada

Publicado no IG Delas em 17/08/2010

A menarca é um dos últimos processos da puberdade. Mães devem conversar com as filhas sobre o que está acontecendo com o corpo delas em vez de tentar adiá-la (Foto: Getty Images)

Engana-se quem pensa que só as pré-adolescentes sofrem com a sua primeira menstruação. Os dilemas envolvendo a menarca atormentam também pais e mães, que se preocupam com a pouca idade com que as filhas entram na puberdade. Se nas gerações anteriores as meninas menstruavam entre 14 e 16 anos, hoje elas costumam menstruar entre 9 e 13 anos. A média, para ser exato, é de 12,2 anos, segundo Talita Poli, hebiatra do Hospital Santa Catarina. Também nos Estados Unidos, pesquisas recentes apontaram que as meninas entram na puberdade cada vez mais cedo – e sugeriram uma ligação entre obesidade e a chegada precoce da menstruação.

A médica especializada em adolescentes aponta algumas explicações para a antecipação da menarca, a primeira menstruação, como melhorias nutricionais e estímulos externos – acesso a informações pela internet e pela televisão, por exemplo. “Essa diminuição da idade é natural, não é motivo de preocupação. Se melhoram as condições de vida das meninas, elas se desenvolvem mais rápido e, consequentemente, amadurecem e menstruam mais rápido também”, explica Talita.

A médica Felisbela Soares de Holanda, do setor de ginecologia endócrina da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), endossa as palavras da hebiatra e completa dizendo que os pais só devem se preocupar com a primeira menstruação das filhas caso ela aconteça antes dos oito anos de idade. Nesse caso, a questão se torna patológica e é chamada de puberdade precoce. “Quando as meninas começam a desenvolver caracteres secundários, como mama e pêlos pubianos, antes dos nove anos de idade, aí fazemos exames de sangue e avaliação óssea para ver se ela sofre de puberdade precoce. Caso sofra, começamos um tratamento com medicação específica”, afirma. Esse tratamento, porém, não é recomendado para meninas que têm a primeira menstruação após os nove anos, garante a médica.

Antônio Caetano Pereira Simões, pediatra especializado em menarca e professor do departamento de pediatria da Faculdade de Medicina da Unesp (Universidade Estadual de São Paulo), concorda com a opinião da colega e explica que, ao contrário do que muitos pais pensam, retardar a menarca não vai fazer com que a menina, que não sofre de puberdade precoce, cresça mais. “O ‘estirão’ das meninas acontece antes da primeira menstruação, mas bloqueá-la não significa que haverá um novo estirão. A menarca não é um sinalizador da velocidade de crescimento, ela é um dos últimos processos da puberdade”, fala o médico.

Os três especialistas apontam em unanimidade que retardar a menstruação de uma pré-adolescente é um erro. “As mudanças pubertárias assustam, mas é errado postergá-las. O adolescente não tem maturidade para fazer essa escolha, e os pais não têm que incentivar isso. Tomar medicamentos para retardar a menstruação é o mesmo que mexer no eixo hormonal. O que uma mãe ganharia adiando uma coisa que tem que acontecer?”, questiona a hebiatra Talita. “Não é uma opção saudável usar a medicação para quem sofre com puberdade precoce em quem não sofre. Nunca se sabe como o corpo da menina vai se comportar depois que ela parar de tomar os remédios”, completa a médica.

Danos psicológicos

A psicóloga Lúcia Helena Laprano Vieira, responsável pelo acompanhamento das pacientes do Ambulatório de Ginecologia da Criança e Adolescente da Unifesp, afirma que, quando é procurada por mães que estão preocupadas com o amadurecimento das filhas, explica o processo pelo qual as meninas estão passando e tenta aconselhá-las. “A mãe precisa entender que esse é o mundo, que ela não pode ficar com medo de ver a filha crescer e, por isso, querer bloquear a menstruação. Meu conselho é que ela trate a filha de acordo com a idade que ela tem e que mostre para ela que a menstruação acontece com outras meninas também”, diz. Talita completa dizendo que é importante não se sentir diferente das amigas nesse período da vida. “A adolescência é um processo complexo e, para o adolescente, é importante ser igual ao grupo. Retardar a menstruação da menina pode fazer com que ela se sinta de fora”, explica.

Marina Vasconcellos, psicóloga pela PUC–SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), especializada em Psicodrama Terapêutico pelo Instituto Sedes Sapientiae, e terapeuta familiar e de casal pela Unifesp, aconselha as mães a enfrentaram o medo de conversar com as filhas. “Apostar em um remédio que mexe com o organismo não é a saída. O correto é falar sobre as mudanças do corpo da forma mais natural possível, com livros e imagens que estejam de acordo com a idade das adolescentes”, encerra.