Contradições, falta de noção de risco e desamparo econômico: o que faz as pessoas saírem de casa na quarentena

Publicado em Yahoo/Notícias ,24.04.20
Colaboração: Melissa Santos

(Felipe Beltrame/NurPhoto via Getty Images)

O distanciamento social é a principal recomendação das autoridades de saúde para evitar a propagação do novo coronavírus. No entanto, os índices de isolamento social têm apresentado queda em várias cidades e Estados, mesmo com a notícia de prorrogação da quarentena por várias autoridades locais e estaduais, como o governador João Doria que instituiu o isolamento até 10 de maio. Mas, afinal, o que tem feito com que as pessoas não respeitem essas recomendações?

De acordo com os especialistas ouvidos pelo Yahoo, são vários motivos que podem estar implicando e confundindo as pessoas sobre como lidar com essa situação. Confira, abaixo, cinco motivos do porquê isso pode estar acontecendo.

Contradições nas orientações das autoridades

Os discursos do presidente da República, do ex-ministro da Saúde, dos governadores dos Estados e de vários prefeitos diferem entre si, o que faz com que a população se sinta desamparada e resolva fazer o que acha mais prudente.

“Não dá para termos dois Papas na igreja e o mesmo serve para essa situação. Os irmãos [alguns prefeitos e governadores] mandam ficar em casa, mas o pai [presidente] diz o oposto. Quando uma recomendação é desobedecida pela instância máxima de poder, as pessoas já perdem o referencial do que seguir”, explica Gabriela Malzyner, psicóloga, psicanalista e mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP.

Ela complementa que a própria briga entre Bolsonaro e o ex-ministro da Saúde, Mandetta, também fazia com que os cidadãos escolhessem qual lado seguir, esquecendo que as recomendações são da OMS (Organização Mundial de Saúde). “É como quando um casal briga e os filhos têm que escolher se vão ficar do lado do pai ou da mãe na situação. O problema é que muita gente não vê que essas recomendações e orientações não são de um sujeito, mas sim de uma instituição, da OMS”, pondera a psicóloga.

Informações cruzadas até entre profissionais da saúde

Na opinião de Marina Vasconcellos, psicóloga, psicodramatista e terapeuta familiar pela PUC-SP, o fato dos próprios profissionais de saúde divergem entre o que é considerado, de fato, o isolamento social adequado também faz com que cada um flexibilize como acha mais adequado.

“Alguns médicos dizem que você pode praticar atividade física na rua tranquilamente se não cruzar com pessoas, enquanto outros não recomendam sair de casa de jeito nenhum. No fim, as pessoas não sabem como agir e quem obedecer”, afirma.

Falta de percepção de risco

Por ser invisível e impalpável, muitas pessoas não compreendem o risco de pegar o coronavírus. Essa falta de noção do perigo contribui para que muita gente “fure” o isolamento social.

“Essa falta de percepção de risco próximo é muito forte. Quando a pessoa perde alguém da família por essa doença, ela sabe e sente o que tá acontecendo. Tem medo! Sou infectologista e vejo gente morrendo todo dia por COVID-19! As pessoas não enxergam o real perigo que esse vírus pode infligir na população”, fala Alexandre Naime Barbosa, infectologista da SBI (Sociedade Brasileira de Infectologia) e professor da Unesp-Botucatu.

Falta de perspectiva do fim da quarentena

De acordo com Marina, o ser humano é um ser social por natureza e precisa do contanto físico até para a saúde mental. “Não nascemos para ficarmos confinado. O isolamento afeta e estressa o nosso cérebro. Ele provoca irritabilidade, mal humor, ansiedade e depressão”, afirma.

E, para piorar, não temos real perspectiva de quando essa situação terá fim. “Imagina entrar em um avião e não saber por quanto tempo vai voar. As primeiras horas são tranquilas, mas depois você fica agitado porque falta a perspectiva de quanto tempo você ainda tem na aeronave. É o que temos no isolamento! E o fato de não sabermos quando ele terá um fim faz com que algumas pessoas afrouxem as orientações de isolamento”, explica Gabriela.

Desamparo econômico 

Muitas famílias – principalmente de autônomos e empreendedores—estão sem seu sustento mensal e esse desespero pelo desamparo econômico também leva as pessoas a quebrarem o isolamento.

“Claro que as vidas são o mais importante, mas também temos que olhar para a questão econômica que é realmente preocupante. Tem gente que está passando fome e que encontra um jeito de sair de casa para trabalhar porque precisa ganhar dinheiro. Há muitos negócios falindo e muitas empresas não pagando os funcionários”, destaca Marina.

“As pessoas se angustiam com a falta de recursos dentro das casas e não há confiança de que o Estado vai dar conta de suprir essas necessidades básicas, o que faz tenha esse cenário de desamparo”, finaliza Gabriela.

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