A resistência em procurar ajuda tem forte ligação com o medo da mudança

Por que as pessoas têm tanto medo de encarar o que as aflige e buscar a saúde como um todo?

Publicado no site Minha Saúde online, 18/11/2015.

É enorme o número de pessoas que permanece em sofrimento emocional grande parte da vida, sem procurar ajuda para seus problemas psicológicos. Estes, por sua vez, encontram uma forma de se manifestar através de sintomas físicos, trazendo à tona as chamadas “doenças psicossomáticas”, já que “o corpo fala” de alguma maneira, insistindo em nos mostrar que algo não está bem conosco e precisa ser devidamente olhado, cuidado.

Há uma gama vasta de literatura abordando essa questão do corpo que reflete o sofrimento psíquico, inclusive fazendo a ligação dos sintomas e o órgão afetado com o que pode significar na vida da pessoa, analisando a função daquele órgão e o tratamento adequado à sua recuperação. É incrível como temos o poder de “criar” certas doenças inconscientemente, por pura incapacidade de “olharmos para dentro” e identificarmos nossas necessidades emocionais.

Trabalhando com pessoas e acolhendo seus sofrimentos e angústias há tantos anos, não é raro me sentir “aflita” ou mesmo “impotente” quando percebo que conhecidos meus, sejam parentes, amigos ou pessoas ligadas a eles recusam-se a olhar para suas questões e trabalhá-las adequadamente, podendo claramente atingir melhor qualidade de vida se o fizessem. Há uma recusa aberta e consciente da necessidade de ajuda, mesmo vendo-se em situações onde qualquer um que olhe de fora percebe sua condição emocional precária.

E aí eu pergunto: por que as pessoas têm tanto medo de encarar o que as aflige e buscar a saúde como um todo? Por que ainda nos dias de hoje a psicoterapia é vista com preconceito, como algo que deve ser mantido em segredo por muitos que a procuram, por medo do julgamento alheio? Por que olhar para suas fragilidades e falhas e procurar melhorá-las deve ser motivo de vergonha para alguém? Não seria o contrário?

Há aqueles que tentam “encobrir” o problema de um parente para não assumi-lo como um paciente psiquiátrico, por exemplo. Isso é mais comum do que se imagina por aí: depressivos, bipolares, borderlines, psicopatas… Quantos não são “acobertados” pelos parentes para que sua doença ou transtorno não sejam denunciados aos conhecidos, e por consequência não recebem o tratamento adequado para sua melhora, prejudicando a própria vida e a dos que convivem com ele? Afinal, o que falariam dele?

E de si próprio: como assumir que se tem um filho com transtorno de personalidade psicopata? Aonde foi que eu errei? Como reconhecer que minha mãe sofre com bipolaridade e necessita de remédios fortes e psicoterapia para conseguir viver em equilíbrio? Como aceitar que meu pai perdeu seu emprego por estar deprimido profundamente? Como reconhecer que minha mania de comprar trata-se de uma compulsão e preciso me esforçar para tratá-la? O que meu companheiro acharia de mim se soubesse que meu ciúme exagerado trata-se de uma doença, precisando muitas vezes de medicamento juntamente com a psicoterapia? E por aí vai uma longa lista de possibilidades de doenças que infelizmente não são tratadas, algumas vezes por falta de orientação, mas outras (e a maioria delas) por medo de enfrentar o “difícil” caminho do tratamento psicológico e o que ele significa: olhar para dentro de si e enfrentar os “demônios” internos. Mal sabem essas pessoas o quanto isso é libertador e nem tão difícil quanto parece, proporcionando outra qualidade de vida, onde não é preciso sofrer para fugir eternamente de algo que não se sabe o que é.

Durante o processo terapêutico descobrimos nossas fragilidades, defeitos, encaramos os pontos fracos que nem sempre são agradáveis aos nossos olhos.

Quem gosta de reconhecer seu lado possessivo, invejoso, sua vontade de vingança, sua preguiça, a falta de vontade e empenho para investir em sua saúde, a tendência a se deprimir perante problemas que nem são tão graves assim? Para o terapeuta podemos falar tudo: nossas intimidades mais profundas, nossos defeitos mais vergonhosos, pois ele não está ali para julgar, e sim para ouvir, acolher, questionar e procurar juntamente com o cliente o melhor meio de resolver seus conflitos, buscando a sabedoria interna de cada um.

Porém, em alguns casos somos convidados por nós mesmos a promover mudanças intensas em nossas vidas, pois internamente percebemos que já não dá para continuar do jeito de sempre, o que pode “espantar” muita gente da terapia nessa hora. As pessoas estão acostumadas a viver no conflito, a carregar consigo certo jeito de funcionar, e têm medo de encarar mudanças que acarretariam outro modo de se posicionar nas relações, na vida em geral. Mesmo sendo para melhor, o desconhecido assusta. Arriscar nem sempre é fácil e dá trabalho: exige que deixemos a zona de conforto.

Apostar em sua capacidade de posicionar-se de outra maneira perante as situações pode ser assustador demais para pessoas inseguras, com baixa auto estima, temerosas do julgamento dos outros.

Uma pena. Muitas pessoas poderiam ser mais felizes e não o são por acharem que não precisam de ajuda para isso. Fica aqui uma frase de Carl G. Jung para aqueles que têm receio de experimentar a psicoterapia por preconceito ou medo: “Quem olha para fora sonha, quem olha para dentro desperta”.

Comente, debata, entre em contato

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s