A terapia de casal não deveria ser o último recurso antes do divórcio

Publicado no Minha Saúde Online, 19/03/2015

 

Frequentemente, ao receber um casal que me procura para realizar uma terapia, penso comigo mesma: “Puxa, pena não terem vindo antes, enquanto o amor ainda existia, o respeito e a vontade de estarem juntos… Agora não sei se dá para resgatar algo, infelizmente!”

Venho aqui frisar esse ponto já abordado por mim, mas que atinge grande parte dos casais por aí: a resistência em procurar ajuda de um profissional em momentos de crise; a insistência na falsa ideia de que, sozinhos, conseguem dar conta dos problemas da relação, enquanto a vida lhes mostra o contrário. O preconceito em assumir que uma terceira pessoa como “mediadora” nesses conflitos pode auxiliá-los a descobrir novas atitudes e alternativas antes não visualizadas, coloca tudo a perder: “Imagine se alguém fica sabendo que fazemos terapia de casal para continuarmos juntos? Não preciso de ninguém ‘me dizendo o que fazer’, esse negócio de psicólogo não funciona!”.

Pois é, essa fala ainda é muito comum por aí, infelizmente.

Couple looking to each other during therapy session while therapist watches

Em primeiro lugar, o psicólogo não tem a função de “dizer o que as pessoas têm que fazer”. Gosto da analogia com um passeio numa caverna: o psicólogo seria o “guia” que vai com a lanterna, ao lado do explorador, iluminando os caminhos possíveis, mostrando as encruzilhadas, focando certos perigos, mas quem escolhe por onde e para onde ir é o cliente, que vai decidir se quer mudar o percurso – quando se vê diante de um perigo – ou continuar a trilhar o mesmo caminho. Essa decisão pode ser “fatal” para ele, ou levá-lo a novos horizontes nunca antes descobertos.  Tudo depende do quanto está disposto a correr riscos.

Em outras palavras: não queremos impor nada a ninguém, apenas ajudamos as pessoas a desenvolverem novas possibilidades de olhar a vida com mais consciência, ouvindo, questionando, propondo o exercício da empatia, desatando nós que atrapalham o fluir da vida com leveza, limpando mal entendidos entre as pessoas por problemas muitas vezes simples de comunicação mal sucedida, acolhendo dores sufocadas e mal elaboradas, e acima de tudo, facilitando e permitindo o diálogo franco entre os cônjuges que nos chegam tão machucados após anos de convivência em meio a conflitos e mágoas… Tudo isso é uma conquista do próprio cliente que aprende a reconhecer suas potencialidades, utilizando seus recursos internos antes não explorados em prol da relação.

E daí vem a segunda questão: “esse negócio de psicólogo não funciona”. Claro, se existe uma resistência total a qualquer coisa que esse profissional venha a propor, a possibilidade de dar errado ou simplesmente não funcionar é grande. É fundamental que exista a abertura para o novo, para questionamentos e mudanças que se façam necessárias.
E me pergunto: por que tamanha resistência?
Imagino que a resposta seja mais simples do que possa parecer: é mais fácil criticar o outro do que olhar para dentro de si e reconhecer seus próprios erros. Sim, muitas vezes parece mais fácil, mesmo, mas a que custo? Já parou para pensar no quanto poderia se desenvolver e crescer se voltasse o olhar crítico para si e percebesse sua responsabilidade nos problemas que atingem o casal? Muitas acusações mútuas infundadas teriam fim, levando consigo os conflitos diários por pequenas coisas, assim como o clima de “disputa pelo poder” – “Eu tenho razão!”; “Você está errado!”, etc.

Mais um esclarecimento importante: psicólogo não é juiz. Ou seja, não estamos ali para julgar ninguém, para dizer o que está certo ou errado, punir ou chamar a atenção daquele “que fez a coisa errada”… Absolutamente! Nossa intenção é fazer com que ambos se ouçam e dialoguem, expondo seus sentimentos e insatisfações, para juntos encontrarmos a melhor solução para o conflito.

Se você está infeliz no casamento deve haver algum motivo. Mesmo que não saiba identificá-lo, converse com seu parceiro sobre essa sensação. Quem sabe juntos conseguem descobrir algo e resolver a questão facilmente. Ou não.
Em caso negativo, não se acanhe em buscar ajuda o quanto antes. Insatisfações e frustrações podem se tornar crônicas, e com o tempo minam por completo o amor, não tendo mais como reconstruir algo que um dia os uniu. O amor precisa ser cultivado e cuidado sempre!

Não é fácil estar ao lado de uma pessoa por anos a fio sem passar por momentos mais delicados, e não raro a vontade de ir embora e desistir do relacionamento pode parecer tentadora… E há casos onde essa é, realmente, a melhor opção. A terapia pode ajudá-los a chegar a essa conclusão de forma madura, consciente, num ambiente protegido, onde possam dialogar a respeito. Mas em nome de algo que já foi belo e os levou a querer assumir um compromisso maior um dia, não deixe que as mágoas se acumulem e sejam guardadas “embaixo do tapete”: faça uma faxina, limpe a casa e deixe a energia boa fluir novamente em sua vida!

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