Suicídio: uma tragédia que, em muitos casos, poderia ter sido evitada

Publicado no Minha Saúde Online em 10/10/2013

Chamaram minha atenção as mortes recentes por suicídio de dois músicos famosos. Ambos deixaram parentes, amigos e fãs completamente chocados com tal ato absolutamente inesperado, que demonstra o ápice do desespero humano, onde o indivíduo se vê sem saída e incapaz de enfrentar os problemas pelos quais esteja passando.

Um artigo de Humberto Corrêa publicado na Folha de São Paulo (10/09/13) cita números impressionantes ligados ao suicídio: em todo o mundo, a cada ano um milhão de pessoas se suicidam, sendo o Brasil responsável por cerca de 9.000 óbitos anuais – em número subestimado. Ou seja, todos os dias ao menos 25 pessoas dão cabo à própria vida em nosso país.

O problema é que praticamente 100% dessas pessoas são vítimas de algum transtorno psiquiátrico não diagnosticado ou indevidamente tratado. Daí dizer que esta é uma tragédia que poderia ser evitada caso houvesse tratamento adequado para todos, mais orientação à população a esse respeito e se as pessoas se permitissem buscar ajuda.

Aí está o ponto: o preconceito ainda é grande quando o assunto é fazer uma consulta ao psiquiatra, ou procurar a ajuda de um psicoterapeuta. A velha frase: “Não sou louco para precisar de um psicólogo” infelizmente persiste, e quando se trata do psiquiatra, então, o preconceito aumenta.

Muitas pessoas não sabem a diferença entre esses profissionais, e vale aqui uma explicação básica: o psicólogo fez o curso de graduação em Psicologia, alguma especialização depois para seguir uma linha de trabalho e atua, entre outras áreas (empresas, escolas, hospitais) em consultório, onde recebe seus clientes para psicoterapia. O trabalho visa buscar uma melhor qualidade de vida através do auto conhecimento, de questionamentos de suas atitudes e relações, facilitando o contato da pessoa com seus verdadeiros sentimentos, por meio da compreensão de sua dinâmica de funcionamento perante a vida. Qualquer pessoa que queira conhecer-se melhor, ou que esteja passando por algum problema emocional, uma dificuldade em lidar com uma situação ou pessoa, enfim, sente que algo não está bem e não consegue resolver a questão, pode fazer psicoterapia. O olhar neutro e treinado de um profissional que está fora do problema vai ajudá-lo a questionar, ponderar, entender, enfrentar, procurar soluções que antes pareciam não existir. E para tudo isso é preciso que se entre em contato com os próprios sentimentos, que algumas questões passadas sejam elaboradas para que não sigam interferindo em suas atitudes do presente.

Já o psiquiatra fez o curso de Medicina e especializou-se em Psiquiatria em sua residência médica. Provavelmente fez alguma especialização para, assim como o psicólogo, seguir uma linha de pensamento e técnica que orienta seus atendimentos. Por ser médico, pode receitar remédios. Alguns trabalham apenas medicando seus pacientes, enquanto outros também são terapeutas.

Assim, num trabalho conjunto entre psicologia e psiquiatria, podemos ajudar as pessoas mais comprometidas na busca pela saúde e melhora dos quadros psiquiátricos, trabalhando tanto o emocional quanto os sintomas físicos e mentais indesejados. É frequente o psicólogo fazer a psicoterapia e encaminhar o cliente para ser medicado com um psiquiatra de sua confiança, que fará um trabalho paralelo quando necessário. Doenças mais comuns como Depressão, Transtorno Bipolar, Pânico, Ansiedade, Síndrome do Estresse Pós Traumático, Ciúme Patológico e outras são diretamente beneficiadas por esse atendimento em equipe, que buscará solucionar não só os sintomas (com a medicação) como também as causas que levaram ao aparecimento deles (através da psicoterapia).

Agora lhe pergunto: se procuramos tratamento para diabetes, pressão alta, gastrite, dores no corpo, alterações hormonais e por aí afora, qual o preconceito em procurarmos ajuda psicológica? Por que é tão difícil admitir que não estamos bem, que a vida está pesada e não sabemos explicar o porque, que temos medo de algo que não seria para tanto, que estamos tristes e não conseguimos reagir, que temos manias estranhas e não controlamos a necessidade de mantê-las, que às vezes temos vontade de largar tudo e desistir de viver de tão pesada que está nossa carga?

Somos seres complexos e precisamos de atenção e cuidados em todas as áreas: física, mental, emocional e espiritual. Temos que olhar para o emocional assim como olhamos para o físico, e não há porque temer julgamentos de terceiros quando estamos com uma dificuldade e precisamos de ajuda.

Não raro atendo clientes que convivem com pessoas claramente comprometidas emocionalmente, mas que se recusam a buscar ajuda pelo preconceito, por falta de orientação. Vidas são afetadas e prejudicadas pela falta de tratamento adequado para quadros que seriam perfeitamente controlados, trazendo paz e harmonia ao convívio tão difícil com a pessoa doente, que não admite sofrer qualquer mal.

E não só as pessoas ao redor sofrem: a própria pessoa passa a vida sem desfrutá-la em sua plenitude por não achar que precisa de ajuda. Casamentos são desfeitos, famílias são destruídas, empregos são desperdiçados, tudo em função do estresse causado por uma doença não diagnosticada.

Por trás dos suicídios geralmente encontramos pessoas deprimidas ou bipolares que não conseguiram pedir ajuda, seja por preconceito, por orgulho ou total falta de orientação. Afinal, doenças psiquiátricas não são exatamente “visíveis” como as físicas, que aparecem em exames laboratoriais ou mesmo no corpo, sendo palpáveis e justificáveis para as pessoas. Dizer que “não está com vontade ou energia para trabalhar” pode soar como “preguiça” ou “falta de comprometimento” com as responsabilidades, quando na verdade podem ser sintomas de depressão que precisam ser tratados.

Quando se tem um trabalho e responsabilidades para serem cumpridas e honradas, como “se dar ao luxo de ficar mal”? A depressão faz com que a pessoa sinta-se sem vontade e energia para viver, tudo parece absolutamente sem graça, é um esforço acordar a cada manhã e imaginar um dia inteiro pela frente, nada é divertido ou excitante, os pensamentos são pessimistas.

Quando a pessoa está engajada em um trabalho que exige uma presença em público, por exemplo, lidando com pessoas que a admiram e esperam que esteja sempre bem, sorrindo, com pique (como é o caso dos artistas que dão shows dia após dia), muitas vezes não há tempo para cuidar de si, pois a demanda é grande e a correria diária a absorve totalmente. Como os outros entenderão se um artista famoso disser que a vida está sem graça? Todo o sucesso, fãs, aplausos, dinheiro, viagens…  nada o faz feliz? Como admitir que embora tenha tudo isso não possui paz interior, não sente prazer nas atividades, não desfruta de suas conquistas como poderia por pura falta de energia vital?

Pois assim é a depressão, e sei que muitas pessoas – não só os artistas famosos, mas qualquer um – não se permitem entrar em contato com tais sentimentos por vergonha de admiti-los, ou por não terem como investir tempo e dinheiro em um tratamento direcionado ao “emocional”, algo tão subjetivo e não palpável.

Se você se sente sem energia, desanimado, com dificuldades para dormir, encara a vida como um fardo diário, não vê graça em nada, irrita-se com facilidade, não tem vontade de se arrumar, perdeu o apetite, não quer sair da cama de manhã porque não vê motivos para isso… você provavelmente está deprimido, e precisa de tratamento. Não é nada vergonhoso admitir o fato e buscar ajuda. Existe tratamento para isso, e a vida pode deixar de ser um fardo para voltar a fazer sentido, mais leve e prazerosa em seu dia a dia.

E não dê importância ao que os outros possam pensar a seu respeito por fazer terapia. Qualquer um tem o direito de investir no auto conhecimento e na melhoria da qualidade de vida. Certamente desenvolverá seu emocional, crescerá como ser humano e ainda recomendará aos amigos que passem pela experiência!

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