Seu filho, um cidadão

Atitudes para que as crianças virem adultos conscientes de seus direitos e deveres

Publicado na revista Cláudia em fevereiro de 2013

Por definição, um cidadão é um indivíduo com direitos civis e políticos garantidos por um Estado – ou seja, em tese, seu filho já nasceu um cidadão. Mas a teoria não basta. É preciso aprender, praticar e cultivar a cidadania.Boa parte dos valores éticos essenciais para que ele, no futuro e agora, viva bem em sociedade vem da escola. “É lá que a criança tem as primeiras experiências mais sólidas em termos de vida pública e aprender a conviver , como alguém que pertence a um lugar e um grupo”, diz Maria Teresa Égler Mantoan, professora da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de campinas (Unicamp) e coordenadora do Laboratório de Estudos e Pesquisas em Ensino e Diferença (Leped), da mesma instituição. mas as noções de respeito por si mesmo e pelo outro, a solidariedade e a tolerância para conviver bem com a diversidade também nascem em casa. Tudo começa pela postura que os pais assumem tanto nos domínios domésticos quanto na comunidade da qual fazem parte. Atitudes cotidianas até simples, como caminhar pelo bairro para conhecê-lo melhor ou puxar uma conversa crítica sobre um filme que a família acaba de ver, ajudam a formar filhos cidadãos. Consultamos especialistas e reunimos as principais.

SEJA UM BOM MODELO

Um ótimo ponto de partida é mostrar – não com palavras, mas com ações – que a família tem consciência de seus direitos e deveres e age de modo participativo na sociedade. isso inclui ir a reuniões e eventos promovidos pela escola em que os filhos estudam, não faltar a assembleias de condomínios, comparecer às urnas para eleger governantes consciente de seu voto, opinar em referenciados  e inteirar-se de questões importantes para o seu bairro, sua cidade, seu estado, seu país. Mas as atitudes do dia a dia contam, e muito. Então, atenção: do banco de trás do carro, seu filho percebe se você dá ou não passagem para pedestres, se sempre segue as regras de trânsito – ou as burla quando está com pressa, por exemplo – e se costuma parar em fila dupla ao deixá-lo na escola. E nota a gentileza e o bom senso (ou a falta desses atributos) no trato com parentes, amigos, colegas de trabalho e empregados. “Crianças e adolescentes são muito observadores. Veem tudo”, afirma a psicóloga Marina Vasconcellos, terapeuta familiar e de casais, em São Paulo. Ela ressalta que, por isso, vale comentar quando pessoas fazem algo errado.”Você pode dizer: ‘Olha só, um motorista parado bem em cima da faixa. isso não é legal.'”, sugere. O papo deve acontecer de modo natural e fluido, não parecer ensaiado ou ter ar de lição de moral. Uma das bases para formar um cidadão crítico é você mostrar quem é de verdade, suas crenças e seus princípios.

ATIVE O SENTIMENTO DE PERTENCER

cidadania tem tudo a ver com sentir-se parte integrante de um grupo e corresponsabilizar-se por ele. Primeiro a própria família. “Os pais precisam falar sobre ela e mostrar quem é esse conjunto de pessoas mais próximas, sua história e seus hábitos. Assim, a criança começa a entender como seus parentes convivem e quais são os limites que ela ocupa dentro dessa célula”, diz Maria Teresa, do Leped, da Unicamp. Quando bem trabalhado na esfera micro, o sentimento de pertencimento facilita a convivência na esfera macro – não importa aqui se estamos falando de outras crianças no parque, na turma do clube ou de colegas da escola. Segundo experts, esse sentimento de pertencer a algo, que gera comprometimento, é essencial para seu filho entender que “estar com o outro” é diferente de apenas “estar junto do outro” – pressupõe compartilhar e respeitar. De acordo com Maria Teresa, “o papel da família é central para as crianças perceberem que, fora de casa, elas também têm compromissos com o mundo que a cerca”. mais adiante, essas noções contribuirão para dar sentido à ideia de nação, na qual podemos reclamar se nossos direitos não são assegurados, mas também precisamos assumir deveres para o bem comum.

INVISTA NA PARCERIA COM A ESCOLA

Uma vez que tanto a vivência em família como as experiências no ambiente escolar são fundamentais para a construção e o fortalecimento das noções de cidadania, nada mais sensato do que buscar uma sólida parceria. “Todas as instituições sociais participam do processo educativo. Mas a escola é aquela destinada a educar de modo organizado e sistemático. É ali que são partilhados, de forma intencional e específica, os conhecimentos, as crenças e os valores de uma sociedade”, afirma Terezinha Rios, doutora em educação e colunista da revista Nova Escola Gestão Escolar, da Fundação Victor Civita. Conhecer os caminhos trilhados pela escola em que seu filho estuda requer mais do que só acompanhar comunicados e comparecer a reuniões. Peça para conhecer o projeto político-pedagógico, documento no qual são descritos objetivos e metas da instituição, bem como os meios utilizados para alcançá-los. A maioria desses projetos faz referência à formação cidadã. Depois, é preciso acompanhar o mais de perto possível o trabalho cotidiano dos educadores para ver como as propostas são colocadas em prática. “A tarefa da escola terá mais êxito se articulada à atuação de outras instituições, principalmente a família. É preciso estabelecer o diálogo.”

ABRA ESPAÇO PARA POSTURAS CRÍTICAS

Passear a pé pelo bairro, ver o que ele tem de bom e de ruim, observar a diversidade de pessoas e lugares que abriga, pensar em formas de torná-lo mais bonito e agradável. Essa é uma atividade simples, mas carregada de estímulos ao comportamento cidadão. Também dá para fazer exercícios parecidos em outra cidade ou país. “Conhecer novos povos, culturas, hábitos e culinárias diferentes é favorecer o entendimento da diversidade”, diz a psicóloga e psicanalista Blenda de oliveira, de São Paulo.  E isso é básico para desenvolver a tolerância. Sem contar que a criança e o adolescente precisam de espaços para expressar suas opiniões. Há formas simples e que funcionam de fazer isso. “Que tal assistir a um documentário, um filme de ficção ou uma peça de teatro e depois fazerem juntos um debate crítico sobre eles? Esse tipo de discussão ajuda a estimular a reflexão, importante na construção da cidadania”, afirma Luciana Maria Allan, diretora técnica do Instituto Crescer para a Cidadania, em São Paulo. O trabalho voluntário é outro eixo a explorar. Visitar uma casa de repouso ou contar uma história em uma creche são experiências que sensibilizam e mudam o olhar dos nossos filhos. Só não adianta cobrar interesse por voluntariado se essa não é uma prática valorizada pela família e incorporada a seu dia a dia. “falamos que os jovens de hoje são apáticos e não têm visão crítica do mundo. mas em que momento nós, como pais, oferecemos estratégias para que sejam cidadãos participativos? Quando convidados, eles querem participar e gostam. Ficam chocados e preocupados com a realidade ao redor e têm energia para mudar as coisas para melhor”, diz Luciana.

INCENTIVE A COLABORAÇÃO

A amizade e a convivência entre vizinhos parece diminuir conforme aumenta o tamanho das cidades e dos condomínios. O resultado é que hoje impera o individualismo em nossa sociedade. “Estamos mais isolados e infelizes”, resume Maria Teresa, da Unicamp. “Há quem tema ser solidário por medo de se dar mal e quem ache que nunca vai precisar de quem mora ao lado, torcendo para que a recíproca seja verdadeira”. Em vez de perpetuar o isolamento, os pais precisam favorecer o encontro. vale incentivar seu filho a se apresentar a novos moradores do prédio, chamando-os para brincar. Ou convidar um colega recém-chegado à escola para uma tarde de diversão. Sim, eventualmente eles entrarão em conflito. E sim, talvez eles sejam diferentes em trajetória, características, pensamentos e posses. Mas nada disso deve servir como medida de comparação ou competição, e é isso que você vai ensinar a seu pequeno. Tome sempre cuidado não só com o que fala mas com o que pensa. Sonhar que seu filhos erá um grande vencedor na vida é válido, mas nunca a qualquer custo. Pouco vale chegar lá se não houver justiça social para que o outro também tenha a chance de chegar – e é por isso que a violência urbana é um problema de todos nós.

DIGA NÃO A QUALQUER DESPERDÍCIO

Certamente, as festas de fim de ano fizeram roupas, brinquedos e aparelhos eletrônicos novos desembarcarem na sua casa. É uma oportunidade para promover uma limpeza geral nos armários e ensinar que certos acúmulos são desnecessários. Além de gratificante, o ato de doar é pedagógico. “Ensina sobre desapego e mostra que nada é insubstituível”, diz Marina. falar sobre o uso consciente de água e energia elétrica e mostrar a importância de separar o lixo também são lições essenciais. “É preciso educar os filhos para que aprendam a não desperdiçar comida, tempo, amigos, afetos, talentos e oportunidades. Sustentabilidade engloba tudo isso”, afirma Blenda. O desafio é transmitir um pacote completo de limites, valores, responsabilidades e posturas cidadãs em diferentes áreas – um pacote para ser carregado a vida inteira.