A traição na maturidade

Terapeuta de casal propõe uma reflexão mais madura e profunda sobre a infidelidade depois dos 50

Publicado no Mais de 50 em 07/08/2012

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Quando a pessoa que trai volta atrás e resolve investir no próprio casamento, tentando descobrir o que não estava bem para modificar e seguir em frente há todo um trabalho com ambos, necessário para que isso aconteça, e o melhor mesmo é a busca por uma terapia de casal. Lá irão vasculhar a relação em busca de coisas boas que possam ser resgatadas, ao mesmo tempo em que olharão para os pontos negativos e frustrações de ambos, na tentativa de esclarecer e resolver o que não conseguiram fazer por si.

Em especial, nesse trabalho cada um olha para sua responsabilidade na saúde da relação, procurando identificar as brechas que os levaram a tal distanciamento para que “coubesse” ali outra pessoa. Sou testemunha de histórias lindas resgatadas a partir desse “susto”, dessa “quase perda” do parceiro, onde acontece um recontrato de casamento e o amor reacende com toda a intensidade, fazendo-nos acreditar que “há males que vem para o bem”… Quem traiu é perdoado – não sem um enorme sofrimento de ambos – sendo possível seguir em frente.

Mas nem sempre o final é feliz para a relação. Na maturidade já temos mais conhecimento do que desejamos, de nossas necessidades, daquilo que nos faz bem ou mal, escolhemos melhor os amigos e pessoas com quem queremos conviver, enfim, o processo natural de envelhecimento nos leva a uma sabedoria interior maior devido a toda nossa vivência adquirida e acumulada até então. Uma traição nesse momento pode estar a serviço da alma de alguém que procura a libertação.

Como disse sabiamente Nilton Bonder, autor do belíssimo livro “A Alma Imoral” (Ed.  Rocco): “Trair não quer dizer necessariamente sair de uma relação através da infidelidade. Esse tipo de traição pode ocultar profundos processos de apego e representar um ato de traição à alma.” (p. 36). Ou seja, quando permanecemos numa relação que já não nos alimenta mais, não nos satisfaz, mas achamos que temos que levar até as últimas consequências em função do que “prometemos” no ato do casamento (… e te prometo ser fiel, na saúde e na doença, amando-te e respeitando-te até que a morte nos separe…), estamos traindo a nossa alma, pois optamos pelo “correto” (para a sociedade) em detrimento do “bom” (para nosso eu), do que nos faria felizes, do que nos realizaria enquanto vínculo amoroso ideal. Muitas pessoas conseguem reconhecer os desejos mais profundos da alma na passagem pelo meio da vida, mas nem sempre conseguem lidar da melhor forma com o que isso acarreta.

Bonder afirma que “…a dor causada pela traição é produto do aprofundamento da experiência íntima. É isto que tanto machuca os traídos: ser conduzidos a profundezas da intimidade que desejam evitar.” (p. 36) Necessariamente, após uma decisão de vida desse tipo, seja pela permanência no casamento ou pela separação (independente de haver outra pessoa em vista), ambos passarão por profundos questionamentos sobre si, a relação, a vida em geral, e isso pode resultar tanto no desabrochar para uma nova vida quanto na constatação de inúmeras frustrações acumuladas e a impotência para enfrentá-las. Seja qual for a situação, o melhor a fazer é investir em um processo psicoterapêutico para que seja possível uma real elaboração de todo o conteúdo surgido.

Por fim, digo que toda e qualquer traição merece um olhar cuidadoso e a busca por seu real significado, pois um ato como este pode significar desde a busca por algo fútil e passageiro (no caso das traições puramente sexuais), até a tentativa de reconquista dos mais profundos desejos da alma encobertos.