Saiba como preservar as relações fraternas mais sinceras

Amizade de 17 anos de Selma e Márcia “contaminou” suas famílias: hoje, maridos e filhos também viraram melhores amigos. (Foto: Guilherme Baffi)

Até amanhã, inúmeros poemas e canções sobre amizade devem pipocar em seus e-mails e redes sociais. Talvez, também apareça uma mensagem de autoria bem conhecida. Não existe consenso sobre o Dia do Amigo no Brasil. Porém, o 20 de julho tem sido instituído por lei, ainda que timidamente, em estados e municípios.

Acredita-se que a iniciativa teria começado com o médico argentino Enrique Ernesto Febbraro, que, em 1969, enviou cerca de quatro mil cartas a diversos países com o intuito de celebrar a data. Ele considerava a chegada do homem à lua um feito capaz de demonstrar que se o homem se unisse a seus semelhantes não haveria objetivos impossíveis.

Independentemente da época do ano, especialistas defendem que é preciso cultivar as amizades assim como os relacionamentos amorosos. Segundo a psicóloga e psicodramatista Marina Vasconcellos, de São Paulo, os mesmos valores que tornam um romance duradouro, como respeito, confiança, cumplicidade, carinho e admiração, aplicam-se às relações fraternais.

“As amizades devem ser alimentadas. Mesmo que uma pessoa quase nunca veja a outra, é preciso demonstrar interesse por ela”, afirma. Para Marina, a principal diferença entre os dois tipos de relacionamento é a convivência. Enquanto no primeiro caso pequenas divergências podem provocar conflitos no cotidiano, no segundo as pessoas são mais abertas e fazem menos cobranças.

“Não existe julgamento, porque se aceitam as diferenças”, afirma. Marina explica que é comum que se escolham amigos para determinadas situações. Há companhias perfeitas para um bate-papo ameno no boteco ou para uma balada. E também para contar os segredos mais cabeludos.

Há os que permanecem lado a lado por décadas (às vezes, diariamente). E também os que se afastam, devido à distância ou por estarem em fases diferentes da vida (como o casamento e a chegada dos filhos).“Amigos são como um trem. Tem quem desça nas primeiras estações, quem siga por um trecho maior da viagem ou quem nunca o abandone”, compara ela.

Novos padrões

Embora acredite que o sentimento permaneça o mesmo, a profissional destaca que a forma de se investir nos amigos mudou nos últimos anos. Entre os motivos estariam o “boom” tecnológico e a falta de tempo, por conta da rotina frenética nas grandes cidades.

Se antigamente as pessoas se dispunham a visitar os mais chegados sem precisar ter hora marcada para tomar um café e jogar conversa fora, atualmente o bom e velho olho no olho foi substituído pelo uso de celulares e de computadores.

“As pessoas passam horas conectadas e acham o máximo ter milhares de contatos na internet. Mas, para quantos deles se pode ligar de madrugada? Amigos verdadeiros são para contar nos dedos”, aponta. A psicóloga clínica Luciana Nazar Ramoneda, de Rio Preto, defende que as ferramentas virtuais podem ser úteis para fortalecer as relações reais já existentes, mas não têm o mesmo peso do contato físico.

“Hoje, as pessoas se comportam de forma egoísta, perderam a afetividade. Quando gostamos de alguém, devemos encontrar maneiras de nos fazer presentes, independentemente dos compromissos com o trabalho e a família. Podem ser coisas simples, como mandar um torpedo ou uma mensagem no Facebook.”

Na opinião de Luciana, não existem limites para se compor um círculo de amigos. Seu tamanho e importância são delimitados pela disponibilidade afetiva de cada um. “A amizade é entrega, é estar junto. Depende da vontade de compartilhar. Por isso mesmo, é necessário demonstrar gratidão por quem se dispõe a nos amar”, diz.

O conceito de amizade fraterna é bastante subjetivo. Cada um é capaz de perceber o grau de envolvimento e de intimidade com seus escolhidos. “Os amigos verdadeiros são aqueles com quem você se sente à vontade para falar sobre tudo. Quem ouve, oferece colo, puxa a orelha e não reclama da ausência”, completa Marina.

A data, então, pode servir de pretexto para demonstrar o quanto alguém é especial e lhe faz falta. Só não vale enviar recados impessoais para todo mundo. Feliz Dia do Amigo!

Amigos para a vida toda

O protético Mateus Garcia Fernandes e o comerciante Pedro Henrique dos Santos Neves se conhecem há três anos. E são melhores amigos. Os dois se encontram quase todos os dias. Quando um está ausente, eles se falam por telefone. A parceria e a confiança são tamanhas que um tem a chave da casa do outro. “O Pedro também tem o controle remoto do meu portão e dorme em casa quando precisa”, afirma Mateus.

Pedro conta que eles se divertem e discutem, conversam e competem, mas não dispensam a companhia um do outro. “Somos como irmãos, um confia muito no outro. Nossa amizade é gratuita, sem cobranças e não tem interesse. Sei que posso contar sobre meus problemas, minhas alegrias e confiar de forma tranquila”, afirma Pedro.

A cartorária Melissa Soleman e a professora e fisioterapeuta Angélica Giardini confirmam o que a maioria das pesquisas comportamentais comprova: que as relações de amizade formadas na infância exercem enorme influência na vida das pessoas. Com quase 20 anos de parceria, as duas afirmam que a amizade é para elas uma espécie de porto-seguro, de proteção contra a tristeza. “Sempre estivemos por perto, seja na alegria, seja na hora dos problemas”, afirma Melissa.

Na opinião de Angélica, amigo é de fato o irmão que não se escolhe. “É algo precioso. Apesar de sermos completamente opostas, respeitamos nossas individualidades. Mas também nos apoiamos, nos defendemos”, diz. Para a professora, neste mundo atual, em que há muito interesse por trás de tudo, ter uma amizade verdadeira é um prêmio. “A Melissa é especial, tenho muita sorte de tê-la encontrado.”

A comerciária Selma Sueli Ferrassoli Mantovan e a presidente do Sindicato dos Empregados no Comércio de Rio Preto (Sincomerciário), Márcia Caldas Fernandes, têm uma antiga e ótima convivência. Há 17 anos elas são companheiras de conversas, passeios, viagens e emprego. As duas trabalham na mesma empresa e se tratam como irmãs. “Tenho mais contato com ela do que com minhas irmãs.

Posso desabafar, contar segredos e também me divertir. Passar um Ano Novo ou Dia das Mães longe dela não tem o mesmo significado.” Para Márcia, a amizade delas criou uma união entre as famílias das duas. “Nossos filhos e maridos são amigos. E quando minha mãe era viva, tinha a Selma como filha.” E diz ainda: “Ela sempre fala uma palavra de carinho ou de incentivo na hora que mais preciso.”