Duras na queda

Elas têm pulso firme e não temem defender as suas opiniões; são mulheres linha-dura nas vidas pessoal e profissional, mas não deixam de ser queridas pelos que estão à sua volta

Publicado na Revista da Hora, em 04/03/2012

Em 1979, Margaret Thatcher, 86 anos, elegeu-se primeira-ministra do Reino Unido. Tornou-se ícone por ser a primeira mulher a assumir o posto, no qual permaneceu por mais de uma década. Em uma área como a política, dominada por homens, Thatcher se destacou por ser linha dura, administrando o país com rédeas curtas, adotando uma postura muitas vezes inflexível e ríspida e enfrentando os seus opositores com coragem.

Não à toa ganhou a alcunha de “Dama de Ferro”, título adotado pelo filme que relembra parte de sua história e foi lançado no início deste ano, rendendo a Meryl Streep, que interpreta Thatcher, o Oscar de melhor atriz.

Mulheres fortes como ela estão por todos os lugares. No comando de grandes empresas ou da própria casa, elas se destacam sem perder a feminilidade característica em um mundo que, muitas vezes, ainda vê o homem como líder natural.

No próximo dia 8, comemora-se o Dia da Mulher, e a Revista da Hora foi atrás de histórias de figuras que conduzem as suas vidas com garra e coragem.

Generais 

Por trás do jeito tímido e da cara de menina de Cecilia Guedes, 29 anos, esconde-se uma mulher cheia de fibra. A arquiteta não nega que adora mandar e credita a postura firme à mãe, que, segundo ela, também tem o gênio forte. “Há quem não curta mandar, mas eu gosto bastante. Sinto-me bem. Apesar da timidez, sempre acabo no comando. É assim desde o colégio”, conta. “Nunca fui chefe, mas, se me derem liberdade no trabalho, falo mesmo. Na faculdade, eu coordenava as atividades em grupo, dizendo o que cada um ia fazer e acompanhando o que todos realizavam”, relembra.

A autoridade se reflete até no namorado, o chef Rubens Ferreira, 35 anos. Cecilia dá palpite em tudo o que ele faz. Apesar do gosto por cozinhar, ele come pouco, o que a preocupa. “Tenho de brigar para que ele se alimente direito. Ele me pergunta: ‘Eu posso comer isso?’; ‘Posso fazer aquilo?’, mas nem sempre me obedece”, revela, relembrando que já teve até de colocar comida no prato do companheiro. “Mas, às vezes, procuro controlar esse meu instinto. Assumo quando passo dos limites e estou errada ”, pondera.

Desde que se entende por gente, a publicitária Thais Mendes, 35 anos, resolve os seus rumos com firmeza. “Meu dia a dia exige decisões rápidas e que, muitas vezes, envolvem interesses de outras pessoas, tanto na vida pessoal quanto na profissional. Então, em alguns momentos, preciso me impor”, avalia.

Chamada de general pela família, Thais é mãe de uma menina de oito anos, a quem educa com rigidez. “As pessoas, em alguns momentos, acham que sou rígida até demais. Imponho rotina, limites e cobro bastante. Acho que isso é resultado de ter sido criada de uma forma mais livre”, explica. “Talvez seja justamente por isso que eu tenha me tornado uma pessoa firme. Tive de aprender a me impor muito cedo.”

No trabalho, entretanto, Thais busca controlar as atitudes. “Acho que lapidei um pouco o estilo. Já fui mais estourada, hoje procuro manter o pulso firme, mas de forma moderada.”

Assim como Thais, a empresária Sônia Regina Hess de Souza, 56 anos, presidente do grupo do ramo têxtil Dudalina, é chamada de general. Mas por seus funcionários. Ela, que comanda a empresa criada pela mãe, defende que o pulso firme vem, em especial, da coragem de enfrentar o que aparece e de tomar grandes decisões. “Eu não posso levar a empresa de forma estabanada, tratando cada um de forma diferente. Os meus 1.700 colaboradores são iguais. Ninguém é mais importante do que ninguém.”

Claudete Aparecida Coimbra Lira e Silva é professora de história; ela não abre mão de seguir uma postura firme, mas sem rispidez, com seus alunos e é respeitada por eles. (Foto:Léo Pinheiro/Folhapress)

É dando o exemplo que considera correto que ela busca passar o que acredita aos funcionários. “Preciso estar sempre me policiando para que as minhas vontades pessoais, coisas que não têm nada a ver com o negócio, não interfiram nele.”

Sônia confessa, porém, que, de vez em quando, sonha em ser um pouco mais relaxada, menos linha-dura com ela mesma. “Muitas vezes me questiono se é importante ser tão corajosa. Às vezes, queria tanto passar um dia inteiro fazendo massagem, batendo perna, almoçando com as amigas durante a semana, coisas que nunca fiz na vida”, lista. “Mas são opções. E eu optei por ser a presidente da empresa. A coragem está em escolher o seu caminho.”

Liderança feminina

Edson Capone, psiquiatra e professor da faculdade de medicina da Unesp (Universidade Estadual Paulista), enxerga essa rigidez de algumas mulheres como uma característica natural. “Não é que elas sejam mais fortes ou menos afetivas. Isso é um atributo de personalidade. O que leva uma mulher a ser rígida é a genética —quando ela nasce com esse temperamento— ou a influência da educação que tem e do convívio com os outros”, explica. “Uma mulher que seja filha de uma mãe muito rígida pode ser assim também ou, por aversão a esse estilo, mais relaxada”, completa Capone.

Essa segurança pode ser utilizada positivamente na vida profissional, dizem os especialistas. “No homem ou na mulher, é um traço bom para a liderança. Costuma indicar um perfil mais agressivo, de dominação. E a mulher ainda associa isso ao seu lado feminino, com um olhar atento às relações pessoais”, avalia Maria Claudia Lordello, psicóloga e sexóloga da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).

Delegada titular da 5ª seccional – Leste, em São Paulo, Elisabete Sato, 54 anos, tem 700 funcionários —de todas as carreiras policiai — para dirigir. Há 35 anos na Polícia Civil, ela diz que, além de cobrar os outros, cobra muito de si mesma. “Não é fácil comandar todos esses policiais e estabelecer objetivos e metas em termos de gestão, como o que fazer para que a comunidade para a qual você trabalha se sinta segura”, fala. “É preciso muita dedicação e disciplina. Ainda vivemos em uma sociedade machista. As mulheres na polícia são minoria. Então, conquistar o respeito dos superiores homens, das colegas mulheres, das pessoas que trabalham com você, não é tão fácil. Mas, quando você adquire essa respeitabilidade, tudo evolui”, considera.

Até 2006, Elisabete brinca que estava casada com a polícia —em 2007, ela se casou mesmo, com o companheiro com quem vive até hoje. A delegada adotou uma postura controlada, que diz ter desde a adolescência, para chegar aonde chegou. “Sou muito crítica comigo e com os outros. Não posso vir trabalhar de minissaia ou com decote. Você tem de saber se portar, defender os seus pontos de vista, mostrar que tem conhecimento do que está falando. Tudo isso faz parte da conquista”, defende. “E eu me privo de muitas coisas. Não vou ao boteco tomar uma cerveja, isso é horrível para uma delegada. É claro que saio com o meu marido, posso ir assistir a um jogo em um bar, mas  ninguém vai me ver trançando as pernas por aí. A postura na vida privada contribui na profissional.”

Em casa, com o marido, Elisabete revela que toma cuidado para não se impor demais. Aos risos, ela afirma como ele reage quando ela é dura: “Ele diz: ‘Poxa, delegada você é no trabalho’. Se não tentar amenizar a postura, não dá para ficar casada. Mas sou uma pessoa tranquila, com bom astral”.

Sônia Regina Hess de Souza afirma que, de brincadeira, é chamada de general. (Foto: Reprodução)

A delegada Elisabete Sato diz que é preciso disciplina para crescer na profissão. (Foto: Reprodução)

Buscar um equilíbrio na hora de se dirigir aos outros, para não passar de autoridade a autoritário, é o conselho de Marina Vasconcellos, psicóloga especialista em psicodrama terapêutico. “Ser firme não significa ser antipático. É possível ter autoridade sem ser autoritário. Não é mandar por mandar. Quando vemos no outroa competência, passamos a confiar, a admirar, e sabemos que se trata de alguém inteligente.”

Ter cuidado na maneira como leva a vida pessoal também é importante, segundo Heloisa Schauff, psicoterapeuta especialista em terapia de casal e família. “É claro que, às vezes, você precisa ser firme. Mas existem casos de maridos que chegam a falar para as mulheres que, ali, elas não são chefes. Às vezes, elas chegam em casa tão pilhadas que acabam dizendo que algo é assim ou assado, como se estivessem cobrando o subordinado”, fala. “Não se pode confundir. Existe o momento de ser firme, mas não dá para tiranizar o outro nem achar que você não pode mostrar um lado mais sensível. Faz parte da assertividade ter compreensão.”

 Professora de história, Claudete Aparecida Coimbra Lira e Silva, 45 anos, usa seu pulso firme, herdado da mãe, com os alunos, mas sem perder o carinho deles. “À medida em que eles vão me conhecendo, adaptam-se ao meu jeito. Essa postura me ajuda no sentido de fazer com que os meus alunos aprendam, desenvolvam-se, tenham senso de cidadania e saibam que, no ambiente escolar, existem regras de comportamento como em todos os outros lugares”, defende. “Acho que não consigo passar isso a 100% da turma, mas, pelo menos, deixo claro a minha posição. Vejo em alguns alunos que encontro depois essa atitude de respeito”, acrescenta.

Orientar 40 pessoas —em sua maioria, homens— quase todos os dias é a tarefa de Marie-France Henry, 55 anos, proprietária do restaurante La Casserole. Sem perder a doçura feminina, ela apresenta as suas ideias ao grupo e o direciona com determinação. “Não concebo trabalhar em um ambiente em que se tenha um distanciamento muito grande entre as pessoas. Acho que as lideranças são reconhecidas quando são legítimas”, opina. “No meu restaurante, os funcionários me reconhecem enquanto autoridade, sabem que estou lá para mostrar direção, sabem que, se eu estou apontando esse caminho, não adianta eles dizerem que é outro. O que se discute é como vamos trilhar esse caminho juntos”, assegura.

Mãe de dois filhos já adultos, ela conta que, em casa, é necessário ponderar. “É uma convivência diferente de um ambiente profissional. Nas relações pessoais, é preciso ter a sabedoria de poder escolher os momentos de ser mais firme ou mais flexível.” Já diria Che Guevara (1928-1967): “É preciso endurecer, sem perder a ternura, jamais”.

Damas de ferro

Personalidades que têm o pulso firme na vida real

Graça Foster 

Número 1 da Petrobras, a engenheira entrou na estatal como estagiária, em 1978. Chegou à presidência no mês passado, indicada por Dilma, coma fama de que tem pulso firme para conduzir o trabalho.

Dilma Rousseff

A primeira mulher a ser eleita presidente do Brasil tem o temperamento forte e se mostra firme na hora de tomar decisões, como afastar ministros envolvidos em casos de corrupção. Dilma foi considerada a terceira mulher mais poderosa do mundo em ranking divulgado pela revista “Forbes”, no ano passado.

Martha Rocha 

Chefe da Polícia Civil do Rio, ela foi a primeira mulher a ocupar o cargo. Rígida em suas atitudes, Martha comandou as investigações do sequestro ao ônibus 174,em2000, que chegou ao fimcoma morte de um refém e do sequestrador. Na época, indiciou um comandante do Bope (Batalhão deOperações Especiais) que participou da operação.

Marluce Dias 

Ex-toda-poderosa da Globo, ela chegou, nos anos 1990, a responder pelas principais áreas da empresa, como a própria TV Globo e a Globosat, além do portal Globo.com. Afastou-se em 2002 para se tratar de um câncer e, em 2007, desligou-se da empresa.

Angela Merkel 

Em 2005, ela se tornou a primeira chanceler da Alemanha. Desde então, tem liderado com pulso firme a economia do país. Ela lidera a lista das mulheres mais poderosas da revista “Forbes”.

Na ficção, elas também mostramseu lado mais rígido

Griselda, em “Fina Estampa” 

A protagonista da atual novela das nove, vivida por Lilia Cabral, não leva desaforo para casa e cuida dos filhos com o pulso firme. Quando Antenor (Caio Castro) tentou enganar a família da namorada, passando-se por um rapaz rico, ela o desmascarou e ainda lhe deu uma surra na frente de todos.

Kate Armstrong, em “Sem Reservas”

O filme mostra Catherine Zeta-Jones na pele de uma chef disciplinada, que comanda a sua cozinha de maneira perfeccionista, assim como a sua vida. Ela só tem de rever os seus conceitos quando precisa cuidar da sobrinha, Zoe (Abigail Breslin), uma menina de apenas nove anos de idade.

Miranda, em “Grey’s Anatomy”

Um dos destaques da série americana, a médica, papel de Chandra Wilson, chega a ser apelidada de nazista, de tão dura que é com seus alunos, de quem tenta tirar o melhor.

Maria do Carmo, em “Senhora do Destino” (2004)

Antes de se tornar uma empresária bem-sucedida, a personagem nordestina interpretada por Susana Vieira teve de reconstruir a vida no Rio sozinha, após ser abandonada pelo marido, e lidar com o sequestro de sua filha recémnascida, Lindalva, a quem nunca desistiu de procurar.