Preconceito pode vir de algum aprendizado anterior

Mas é um problema cada vez mais exposto

Publicado em Arca Universal em 11/05/2012

Foto: Thinkstock

Para a psicóloga Marina Vasconcellos, o preconceito – principalmente étnico – acontecia muito mais antigamente por causa da escravidão dos negros. “Provavelmente, uma pessoa preconceituosa age desta forma, porque viu um modelo de alguém, aprende em algum momento a ser assim, mas cada vez menos isso acontece. Antigamente, nossos avós e bisavós eram muito preconceituosos, porque e negro era escravo. Mas isso já mudou.”

Porém, o preconceito fica mais evidente hoje, porque as pessoas não aceitam mais atitudes assim. “Antigamente era normal ser preconceituoso e os negros aceitavam isso, se submetiam pelo trabalho, não tinham o que fazer, mas trabalhavam revoltados por dentro, humilhados. Como hoje não é normal, quem é preconceituoso chama atenção”, explica Marina.

É claro que o preconceito vai muito além do racismo, atingindo também aquele que é diferente, portador de alguma deficiência física. “As pessoas agem contra aquilo que é distinto, do que sai dos padrões da sociedade. Quando destoa daquilo que é maioria, já julgam que é errado”, esclarece a especialista.

Para a Auxiliar de Serviços Gerais, Paula Elias, de 27 anos, o comportamento ainda está muito latente. “Eu sempre sofro preconceito porque sou gordinha. Vejo no ônibus, por exemplo, que as pessoas preferem ficar de pé a sentar em um banco vago ao meu lado, para não ficarem apertadas. Mesmo se falando mais sobre o assunto, ainda existe muito.”

Marina Vasconcellos ressalta que, como o preconceito está sendo mais exposto, ele acaba aparecendo mais. “Por isso, aparecem mais as pessoas preconceituosas, porque agora elas têm que enfrentar o que não gostam, a ponto de não conseguirem respeitar o próximo como ele é.”

É por isso que existe uma linha tênue entre o desrespeito e o julgamento. “O preconceituoso julga o que, e como a pessoa deve fazer ou não, se está certo ou errado. Mas o preconceito e o desrespeito estão ligados, porque o preconceito nasce do desrespeito ao próximo, do julgamento equivocado de valores.”

Paula diz que nunca sofreu um preconceito declarado, mas já passou por outras situações. “Nunca ninguém me falou nada, mas olham muito. Já passei por isso em algumas entrevistas de emprego, por exemplo. A pessoa vê que sou gorda e negra, diz que me retonará e não liga nem para dizer que não fui selecionada.”

Para Marina, é possível lidar com quem é diferente, sem ser preconceituoso. “Respeitar as diferenças é fundamental, em qualquer relação humana. Não se pode desejar mudar o outro. É preciso respeitar a maneira de ser do outro, convivendo com a diferença, mesmo não concordando, mas aceitando.”

Julgamento de si

Há também o preconceito de si, muito presente na sociedade, onde se pressupõe que as pessoas vão apontá-lo. “É, por exemplo, o caso do negro, que acaba pensando que as pessoas terão preconceito contra ele, sendo este o preconceituoso. Ele mesmo já chega se acusando”, detalha Marina.

Consequências

Ser um preconceituoso traz grandes implicações para a vida da pessoa. “Por ela se tornar radical, inflexível, julgando-se superior aos outros, acaba sendo chata, inconveniente, grosseira e muitas vezes desrespeitosa, ao evitar o contato com uma pessoa no ônibus, por exemplo.”

Além de ser excluída pelas outras pessoas, acaba também se afastando delas. “Porque começa a rotular, julgando, se achando superior e se separando de uma relação com quem é diferente dela.”

Saindo do preconceito

Para deixar de ser preconceituoso há dois caminhos possíveis. “Com este afastamento das pessoas, pode ser que perceba o quanto está subjulgando e busque deixar de ser assim. Também é possível que o preconceito aconteça com a própria pessoa, que sinta na pele o desprezo, ou que veja algo próximo, como por exemplo, um homem racista, mas que a filha escolhe um negro para casar. Abandona a filha ou aceita? É um caso difícil”, finaliza Marina.