Vazão aos sentimentos

Lidar com as emoções não é fácil. Mas de nada adianta mantê-las presas dentro de nós, fingindo que não nos afetam. Aprender a libertá-las é o primeiro passo para melhor conviver com os outros e consigo mesmo

Publicado na Revista Sorria

Ilustração: Lucas Biazon

De uma hora para outra, Andressa Fidelis começava a se coçar. Uma mancha aparecia aqui, outra ali, e a pele ficava toda irritada. Grávida, com os hormônios em ebulição, a professora de inglês procurou um dermatologista e se conformou com o diagnóstico: crise de urticária. Logo após o nascimento de Ana Clara, começou a se tratar com um alergista.

Acostumando-se ainda à maternidade, Andressa foi passar um tempo na casa de sua mãe. Com licença no trabalho e ajuda para cuidar do bebê, pôde relaxar. Na nova rotina, as coceiras deram trégua. “Foi aí que o médico desconfiou de que a causa fosse emocional”, diz ela.

Poucos meses antes de Ana Clara ser concebida, Andressa perdera trigêmeos no quinto mês de gestação. O trauma aumentara as expectativas e a apreensão em relação à nova gravidez. A coceira era, portanto, a face mais visível de um período de insegurança e ansiedade. “Sempre tive mania de guardar demais meus sentimentos. Aos poucos, aprendi que tudo o que não me saía pela boca acabava aflorando na pele”, diz.

“Sentimentos e emoções são reações humanas normais. Sentir tristeza ou raiva, por exemplo, não é de forma alguma ruim. Trata-se de um processo esperado e saudável”, explica a psicóloga Cecília Zylberstajn. O problema é quando tentamos aprisionar esses sentimentos dentro de nós. “A energia negativa pode ser somatizada em forma de gastrite, úlcera, depressão, problemas de pele… Essas reações são a expressão inadequada de sentimentos doloridos ou difíceis de lidar, que não conseguimos extravasar e direcionamos para nosso corpo, como uma forma de autoagressão”, completa a também psicóloga Marina Vasconcellos.

Ao descobrir isso, Andressa, hoje com 31 anos, morando em Sorocaba (SP), trocou o alergista por um terapeuta e, aos poucos, vai aprendendo a verbalizar seus sentimentos. “Minha maior válvula de escape é a terapia. Mas também recorro a grupos virtuais em que desabafo com outras mulheres. E procuro conversar mais com meu marido. Tento não ficar remoendo as coisas. Ainda é bem difícil, mas estou me policiando”, afirma.

Do mar aos resultados

Na hora de aliviar ansiedades profissionais, o surfe e a musculação sempre foram a solução ideal para Marcelo Rocha, de 37 anos. Desde os 18, ele atuava como braço direito do pai na empresa da família, uma distribuidora de ferro e aço, em São Paulo. Ajudava na compra de material, fazia operações bancárias, auxiliava na área financeira. E vivia sonhando com o dia em que teria mais autonomia.

Esse dia chegou aos 31 anos, quando Marcelo assumiu o controle da expansão da companhia. Era tudo o que ele queria. Mas, na hora de mostrar serviço, travou. “Não tinha forças para agir com atitude. Eu me sentia uma pedra”, admite.

O mar e a academia já não davam conta de atenuar a frustração. Em 2009, seguindo o conselho de uma amiga, Marcelo recorreu ao coaching executivo, um processo de acompanhamento com um especialista que estimula o espírito de liderança. Foi aí que ele percebeu: não seriam atividades paralelas que desafogariam suas angústias. Era preciso direcionar todas as forças ao próprio trabalho.

Decidido a arriscar, Marcelo captou uma tendência de mercado e dirigiu os negócios para a área de construção civil, valendo-se da expansão desse setor. Deu certo: “Compreendi que a melhor forma de extravasar as angústias era transformá-las em ação, perseguindo resultados. Hoje, é ótimo ver que as coisas fluem e que mês a mês a empresa cresce”.

Extravasar sem explodir

A paz é novidade no lar de Carolina, de 26 anos, e Bruno (nomes fictícios), de 27. Os dois moram juntos desde 2007, em Campinas (SP). Quando ela deixou a casa dos pais para dividir o teto com o namorado, não imaginava que o convívio teria tantas discussões.

As brigas não eram causadas por motivos pontuais, e sim pelo acúmulo de insatisfações. “Problemas no emprego, dificuldades financeiras, a bagunça que ele fazia em casa… Tudo isso me levava a explodir só por ver uma meia fora do lugar”, conta Carolina. Em vez de diluir as divergências e frustrações em conversas mais frequentes, o casal as represava até o limite. Quando extravasavam, era aos gritos. “A reação desproporcional acontece ao acumularmos sentimentos que não são expressos quando deveriam”, explica Cecília Zylberstajn.

No início deste ano, após horas de discussão, Carolina saiu de casa. Dias depois, o casal conversou e decidiu que, se o objetivo era ficar junto, a postura de cada um deveria mudar. Eles passariam a conversar mais e a manifestar seu desconforto antes que um dos dois estourasse.

A sábia decisão foi tomada a tempo. “Quando não extravasamos nossos sentimentos negativos, eles podem acabar se tornando um jeito de ser. O acúmulo de frustrações, raivas ou angústias mina a energia da pessoa, tornando-a amarga, triste, rancorosa ou mesmo submissa”, diz Marina Vasconcellos.

Bruno ainda não é um exemplo de organização. “Mas as coisas já ficam mais em seu devido lugar”, admite a namorada. Carol está controlando seus surtos de disciplina: “Estou mais flexível”. Aos poucos, eles vão aperfeiçoando a maneira como lidam com seus sentimentos. Um aprendizado que se estende por toda a vida.