Tecnologia móvel marca a Era do Relacionamento

Acesso às redes sociais, através do celular, é a tendência do momento

Publicado no O Estado do RJ em 28/12/2010

Foto: Reprodução

Tecnologias móveis com fácil acesso à internet configuram um novo comportamento cada vez mais dependente de redes sociais. Pesquisa do IBOPE Mídia mostra que 20% dos internautas entrevistados em 11 regiões do país estão trocando de celular ou mudaram planos de telefonia para acessar sites de relacionamento de forma prática em qualquer lugar.

Segundo a pesquisa, o Orkut tem 91% da preferência do brasileiro, que passa pelo menos uma hora por dia em redes sociais. A publicitária Ana Mendes, por exemplo, já trocou de celular para ficar mais tempo conectada. “Eu comprei um celular mais moderno para justamente acessar o Orkut, porque eu gosto de entrar de hora em hora, e fico muito tempo na rua”, explica.

A gerente de Inteligência de Mercado do IBOPE Mídia, Juliana Sawaia, ressalta que, cada vez mais, as pessoas querem mobilidade e agilidade nas comunicações. “Aí entram os dispositivos móveis, os tablets, os aparelhos com Wi-Fi e 3G, que permitem a rápida conexão à internet em qualquer momento. Graças a isso, é possível intensificar e multiplicar relacionamentos”, afirma. Para o consultor especialista em Redes Sociais e Geração Y, Sidnei Oliveira, a integração virtual móvel caracteriza o que podemos chamar de ´Era do Relacionamento´. “Todos querem e precisam se relacionar. Creio que o impacto das novas tecnologias móveis na vida dos internautas se compara à chegada da eletricidade”, analisa.

A popularização dos modelos tipo smartphones e tablets, com acesso a um custo viável às redes sociais e à muita inovação, se incorpora de forma cada vez mais profunda no cotidiano. “O maior diferencial destes aparelhos é a portabilidade e a linguagem intuitiva, facilitada pela interface de “toque na tela”. Este princípio está levando o conceito de computação pessoal a um nível absolutamente novo, permitindo a conexão em qualquer lugar, em qualquer hora e de qualquer forma”, avalia Sidnei.

Para o acesso a jogos e navegação na internet, Sidnei explica que os modelos tipo tablets (Ipad, Galaxy) são mais confortáveis. Para interação entre as pessoas, os smartphones são mais apropriados por conta da portabilidade. O Ipad, por exemplo, é mais voltado para multimídia, já o Galaxy é também smartphone, com tela maior. “Todos possuem diferenciais estéticos, de preço e de performance, a escolha dependerá das prioridades individuais”, acrescenta. O adolescente João Dias já escolheu o presente de Natal. “Quero um Galaxy. Eu vivo nas redes sociais, postando tudo que faço e penso. Com um celular que facilita o meu acesso, vai ser muito melhor”, conta.

O advogado Marcos Monteiro relata que tem mais amigos no Orkut e no Facebook do que fora da rede. “Estou sempre conhecendo pessoas novas, mas raramente marco um encontro. Prefiro que as relações com quem eu conheço na internet não passem disso”, diz. Apesar de exemplos como esse, a especialista em Serviços de Informação e coordenadora da Biblioteca Virtual do Governo de São Paulo, Regina Fazioli, não considera a internet como uma forma impessoal de se relacionar. “O olho no olho é importante, mas relacionamentos podem muito bem ser cultivados virtualmente. Grandes relações são construídas e destruídas eletronicamente, bem como alegrias e sofrimentos ganham a mesma magnitude do que acontece por trás de um monitor”, defende Regina.

O administrador Pedro Duarte concorda. “Conheci minha namorada em uma das comunidades virtuais que temos em comum. Mandei um recado e ela me respondeu, amadurecemos um contato on-line diário. Teclar com ela era uma emoção enorme. Às vezes, até por timidez, pessoalmente o diálogo pode não fluir tão bem. Só depois de muito tempo marcamos um encontro. Estamos há três anos juntos e acabamos de marcar a data do nosso casamento”, comemora.

Equilíbrio no acesso à rede

Características brasileiras, a sociabilidade e a competitividade podem ser bastante exploradas nas redes de socialização. Todos querem ter o maior número de amigos e as comunidades mais acessadas. “As mídias sociais são hoje a maneira mais rápida de se conhecer pessoas. A partir dos perfis dos usuários é possível descobrir muitas informações sobre qualquer um que esteja conectado, seja pelas comunidades das quais participe, seja através do álbum de fotos ou de quem siga no Twitter”, destaca a gerente Juliana Sawaia.

Porém, tanta exposição deve ser controlada. A psicóloga e terapeuta familiar, Marina Vasconcellos, lembra que a partir do momento em que abrimos nossa vida para a internet, qualquer pessoa no mundo pode nos ´seguir´, saber o que fazemos e quem são nossos amigos. “É preciso dosar o que pode tornar-se público e o que faz parte da privacidade de cada um. O tempo excessivo dedicado a isso é outro problema. A maior parte das pessoas acabam nunca conseguindo se desconectar. A toda hora e lugar, o celular é acessado, como se a pessoa fosse perder algo muito importante que estivesse acontecendo naquele instante”, argumenta.

Para Marina, apesar da fantástica possibilidade de se resgatar amizades perdidas e adquirir novas, a constante expectativa do que está por chegar via internet e a ânsia por novidades pode acabar atrapalhando as relações pessoais. Outro ponto que preocupa é a infidelidade virtual. “A infidelidade provoca a quebra da confiança. Por mais que seja apenas virtual, significa que você está tendo com um estranho aquilo que deveria conseguir com o parceiro”, considera.

A jornalista Amanda Barbeita confidencia que descobriu que o ex-namorado possuía, em segredo, uma segunda página de bate-papo instantâneo. “Ele esqueceu o MSN pirata aberto, e eu me deparei com uma lista de contatos formada só por mulheres, com quem ele deveria conversar diariamente, escondido de mim. Terminei o namoro, pois perdi a confiança”, lamenta.

Em relação ao potencial de ruptura provocado pelas novas tecnologias, legisladores, por não terem referenciais conhecidos, relutam ou erram em desenvolver regras e leis. Segundo lembra o especialista Sidnei Oliveira, o exemplo mais recente é o caso do Wikileaks que já está se tornando um marco no novo conceito sobre transparência e crime virtual. O site publica informações confidenciais de fontes anônimas sobre assuntos polêmicos. A gerente Juliana Sawaia também alerta sobre o perigo de perfis falsos que podem levar pessoas ingênuas a cair em armadilhas. “Além dos hackers, há quem se utiliza das redes sociais para o ciberstalking (perseguição digital) e o ciberbullying (intimidação virtual)”, afirma.

Juliana ainda reforça que a conexão virtual, ao mesmo tempo que parece unir, pode afastar. “As pessoas não tem mais tempo de se encontrar pessoalmente, pois há muito o que fazer na internet. Embora consigam interagir mais, internautas se ocupam com infinitas informações, gastam muito tempo checando o Twitter, as atualizações dos perfis dos amigos, atualizando os próprios perfis, etc”, diz.

Tanta pressa por resultados acaba reduzindo a qualidade das relações à superficialidade e à impaciência, originando a chamada ´Síndrome da Ampulheta´. A especialista Regina Fazioli explica que um movimento contrário à síndrome é o ´Slow Life´, que defende uma vida mais calma e lenta. “Seria o caso de uma mudança cultural, quem sabe um dia cheguemos a esse ideal!”, completa.