Imperfeito perfeito

Publicado no Dia-a-dia em 07/03/2010

Desde pequena, a gente escuta que em algum lugar do mundo há um príncipe encantado que chegará montado em um cavalo branco, carregando lindas rosas-vermelhas e fazendo juras de amor eterno. O príncipe é dotado de beleza inquestionável e de qualidades que fazem qualquer mulher perder o fôlego. Tudo bem. Crescemos e descobrimos que o cavalo é pangaré e que o belo está ocupado demais para passar na floricultura. Bem, o romantismo perde um pouco da força, mas é possível ter ao lado um homem que nos abra a porta do carro e nos leve para jantar todos os sábados. No começo da relação, da sedução, da conquista, pode até ser que isso ocorra. Aliás, costuma ocorrer. Mas depois… o encanto quebra e descobrimos que os sonhos acalentados na infância e adolescência eram pura ficção, contos da carochinha. Porque homem perfeito, convenhamos, não existe. Mas, mesmo com suas imperfeições, não abrimos mão dele, embora no fundo, no fundo, ainda acalentemos o desejo do príncipe encantado. Pelo menos em sonho, ele é demais.

A reportagem da Dia-a-Dia Revista conversou com muitas mulheres, desde as mais simples até as celebridades, em busca do estereótipo do homem ideal, o Apolo das mentes femininas. Não precisamos gastar muito tempo para chegar à unanimidade nas respostas. Não, homem perfeito não existe. Mas o que ficou claro é que nem por isso nós, mulheres,
deixamos de idealizar nosso príncipe. E isso não vem de hoje. Mesmo as que se dizem céticas, descrentes no amor e na perfeição masculina, deixam transparecer no brilho dos olhos como o imaginam.

É deste brilho, do riso de canto de boca, que saíram as mais variadas ideias do que seria o homem ideal. Especialistas dizem que o estereótipo que conseguimos levantar nada mais
é do que um perfil implantado pela própria sociedade. Nunca o ditado ‘ninguém é perfeito’ caiu tão bem a um assunto que dá muito o que falar. O importante é que saibamos que o critério fica a cargo de cada uma e que podemos sonhar, sim, com o Thiago Lacerda. Mas, ao acordar e nos depararmos com o que temos em casa, resta a chance de valorizar e saber que cada relacionamento tem um quê de especial e – por que não? – perfeito. Basta prender a olhar para o lado.

Juntando os pedaços

Imagine a cena: você vai a um restaurante e, no bar, com uma taça de champanhe na mão, visualiza de batepronto um homem lindo. As pernas tremem e você não consegue desviar a
visão desse deus grego. Tudo pelo simples fato de ele ter olhos azuis à la Fábio Assunção, rosto delicado igual ao de Rodrigo Santoro e boca carnuda estilo Cauã Reymond. Os cabelos bagunçados parecem com os de Brad Pitt. O corpo, que dá para avaliar as horas
que passa em uma academia, é desenhado como o do jogador David Beckham. E o charme ah! o charme – é o mesmo de Richard Gere quando sobe a escada rolante, com uma rosa-vermelha na mão, no filme Dança Comigo? Logo, você pensa: seria este o homem da minha vida?

Calma. Esse ser descrito nas linhas acima não existe. O resultado trata-se da junção de características apontadas pelas mulheres entrevistadas. Embora elas tenham dito não acreditar que seja real, não titubearam em descrever como seria. E como sonhar não custa
nada, apresentamos um esboço do homem perfeito.

Mas esse modelo de parceiro nem sempre foi o ideal. Até o fim dos anos 1960, as mulheres buscavam alguém que tivesse semelhança com a figura paterna porque eram dependentes
total e financeiramente do homem.

Tais comportamentos e decisões deviam-se ao fato de a mulher desejar um homem que complementasse o universo de consolidação familiar. “Não trabalhava, vivia única e exclusivamente para o lar. Então, era mais do que comum que o seu modelo de homem fosse semelhante ao do próprio pai: provedor e protetor”, explica a psicóloga e terapeuta familiar Marina Vasconcellos.

A explicação encaixa-se bem à história da pedagoga Vera Regina de Moraes Santiago, 54 anos, que há 34 casou-se com o homem que julgava ideal para ter como companheiro. E a promessa feita no altar da Igreja Santa Terezinha, em São Paulo, permanece, apesar dos
obstáculos enfrentados. “Naquela época, não havia conscientização do que era melhor ou
pior, como hoje. Tive apenas um único namorado e foi justamente com ele que casei. Não me arrependo da escolha”, revela Vera.

Psiquiatra do Hospital das Clínicas de São Paulo, Luiz Cuschnir diz que a mudança de comportamento foi após o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945, quando a mulher passou a se sentir mais à vontade para romper os costumes; cuidou mais das tarefas domésticas, familiares e profissionais.

A evolução feminina aparece mesmo que a mulher tenha sido criada sob valores tradicionais, como aconteceu com Daniela Santiago, 32 anos, filha de Vera, que se separou depois de um ano de casada e hoje opta por ser solteira. “Sou muito seletiva, quero ter
ao meu lado alguém que atenda todas as minhas expectativas. Quero alguém que seja companheiro, trabalhador, ambicioso, e que saiba respeitar o meu espaço, a minha
individualidade”, diz a jovem.

Escritora Renato Rode casou-se por três vezes (Foto: Reprodução)

Ideal e Valores

É engraçado analisar como a percepção feminina muda de acordo com o número de anos vividos. Quando se é jovem, talvez pela pouca bagagem de decepções amorosas, a esperança de encontrar a chamada alma-gêmea é recorrente. Quando a conversa é com mulheres mais velhas, o quadro muda. “Não existe homem perfeito porque eles mentem muito. Como sou viúva, vejo que os que aparecem na minha vida são só para se encostar”, afirma, aos risos, a aposentada Maria Aparecida Carvalho Vasconcellos, 61, de Santo André.

O psicanalista José Ângelo Gaiarsa concorda com a entrevistada. “Não existe homem perfeito, categoricamente”, enfatiza. O especialista atribui essa realidade ao instinto masculino, que é de conquista acima de todas as coisas, inclusive fidelidade. Para explicar,
toma como exemplo os animais que, para perpetuarem a espécie, competem para fecundar a fêmea. “O homem é exibido, competitivo e meio pornográfico”, acrescenta.

Psicóloga da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), Ana Paula Mallet Lima diz que o principal erro das mulheres contemporâneas é primar pelo aspecto visual do pretendente. “As pessoas se esquecem de que a beleza é só aparência. O perfeito é aquele que se ajusta a você no todo. E não há padrão preestabelecido.” Hoje existe uma busca estereotipada, o que impede a mulher de enxergar além de um abdômen bem definido.

Foi esse conceito preconcebido que fez a escritora Renata Maria Rode, 33 anos, casar-se por três vezes. Da experiência, resultou o livro Separada e Daí?, em que mostra como aprendeu a enxergar o homem perfeito. Ela acredita que elevou muito o grau de exigência.
“Em dois casamentos, descobri que não dá para querer perfeição. Às vezes, o cara é estável economicamente, mas não é nada carinhoso. Ou ele é carinhoso demais e tem problemas que acabam interferindo na vida a dois. Não dá para ter tudo ao mesmo tempo.” Após fazer terapia, Renata conseguiu perceber a quantidade de pretendentes que dispensou por conta
de fatores irrelevantes.

OUTROS PROBLEMAS

Reclamação frequente das mulheres é o tratamento que os homens lhes dispensam com o passar do tempo. Muitas se queixam de que eles não gostam dos passeios no shopping, não
reparam no corte de cabelo ou na saia comprada em promoção. O problema é que nem nós, mulheres, nos esforçamos para entendê-los.

“Uma coisa que atrapalha muito a relação é que as mulheres se frustram e não mostram para o parceiro claramente o que esperam dele”, diz a psicóloga Ana Cristina Canosa,
integrante da Sociedade Brasileira de Estudos em Sexualidade Humana.

O importante é saber que não adianta casar com um homem e acreditar que vai conseguir moldá-lo à sua maneira ao longo do casamento.

Irretocáveis, pero no mucho
Clark Gable – Em sua biografia, Clark Gable: Estrela Atormentada, o autor David Bret conta que o galã era garoto de programa antes de E o vento levou… e que sofria de halitose, para o desespero de suas parceiras de cena.

Brad Pitt – Nas filmagens de Sr. e Sra Smith, engatou o romance com a bela Angelina Jolie, embora ainda fosse casado com Jeniffer Aniston.

Hugh Grant – Enquanto namorava com Liz Hurley, foi flagrado fazendo sexo em público com uma prostituta. Na ocasião, foi preso e teve de pagar fiança por atentado ao pudor.

Tom Cruise – Além de ser extremamente vaidoso, revistas norte-americanas já cansaram de publicar matérias insinuando que há um suposto acordo entre Cruise e sua mulher, Katie Holmes, para manter um casamento de aparências. Ele controla todos os passos da atriz.

George Clooney – Já admitiu ser um mau marido e que gosta mesmo é da condição de solteiro. Além disso, para ele a vida profissional é muito mais importante que a sentimental, um verdadeiro workaholic.

David Beckham – Embora seja metrossexual de carteirinha, Beckham tem mau hálito – resultado dos tabletinhos de óleo de peixe que toma diariamente para ganhar energia. Detalhe: ele é o garotopropaganda do produto.

Dado Dolabella – Foi acusado pela exnamorada Luana Piovani de ter agredido a camareira dela. Ele afirmou ser mentira, mas a Justiça o condenou a ficar longe da atriz. Um tapinha, para ele, não dói.

Keanu Reeves – Diversos jornais e revistas publicaram a suposta homossexualidade
do ator. Embora ele tenha negado, disse uma frase para a revista Gay Out que deixou sua opção sexual no ar: “Eu não sou gay. Mas nunca se sabe…”

O cafajeste Gustavo (Marcelo Airoldi), de "Viver a Vida" (Foto: Reprodução)

Na lábia do cafajeste?

Os critérios de escolha do parceiro ‘para o resto da vida’ estão mais rigorosos, com certeza. Diferente do status paterno, a busca agora é de um companheiro, alguém que divida os afazeres domésticos, que ajude a cuidar dos filhos, compartilhe sonhos e dificilmente faça algo que desagrade muito, como traição, por exemplo.

Existe um mito, no entanto, de que mesmo encontrando companheiros que preencham todos os requisitos acima, a mulher não resiste à tentação de um cafajeste. Das mulheres que foram questionadas sobre isso, quase todas torceram o nariz e disseram preferir o perfil romântico, fiel.

O psiquiatra Luiz Cuschnir faz um alerta: cafajeste não é o mesmo que sedutor. “Quando minhas pacientes falam sobre os cafajestes, referem-se a um homem mentiroso, que as engana e ao mesmo tempo seduz. O sedutor nem sempre mente. O entendimento
de que ele promete fidelidade e amor eterno, muitas vezes, é dado por elas mesmas, por um imaginário.” É por isso que as mulheres, mesmo preferindo os mais certinhos, não deixam
de olhar quando um tipo desses passa por elas na rua.

A psicóloga Ana Paula Mallet Lima afirma que a mulher só cai na lábia do malandro quando tem formação desestruturada e se identifica com ele nesse quesito. “E também quando o homem com o qual vive torna-se um cara dependente, ou quando ela desconfia
de alguma coisa e o bandidão passa a ser interessante por ser safo, alguém que se articulou na vida”, explica.

Marcello Aeroldi, ator que interpreta o cafajeste Gustavo, da novela Viver a Vida, da Rede Globo, diz que a figura do malandro sobrevive nos folhetins porque é aceita com carinho pelo público, inclusive se for engraçado como o seu personagem. Mas, para ele, a situação muda na vida real. “Talvez por ser meio proibido, transgressor, ousado, desperte nas mulheres interesse. Mas nem todas gostam de um cafajeste.”

Ele garante que segue a linha do homem de uma mulher só, visto que está com a mesma pessoa há 11 anos, entre namoro e casamento. Segundo o ator, embora seja utópica, a procura pelo parceiro perfeito é algo natural do ser humano. “É melhor viver correndo
atrás do que é impossível. Isso estimula o dia a dia. Essa busca pela perfeição faz parte da natureza humana.”

O eterno príncipe Ronnie Von (Foto: Reprodução)

Os príncipes encantados

Considerado o príncipe dos anos 1960, Ronnie Von diz não ser encantado. O fato de ser casado com Cristina por 24 anos, escolher as roupas que ela usa, deixar bilhetes carinhosos, saber muito bem como gerenciar uma casa e ainda ser avesso à traição, para ele não é virtude, mas obrigação. “A situação mais bonita de um casal é a conquista, e isso os homens não podem deixar morrer. São coisas tão simples que não custaria nada inseri-las na rotina do casamento.”

Já na realeza contemporânea, o ator Alexandre Borges tem posto de rei e é um dos principais motivos de suspiro das que sonham com um homem perfeito. A receita de sucesso é simples: “Reconheço minhas falhas. Procuro amenizar os efeitos das minhas
imperfeições para que não reflitam no meu comportamento nem no relacionamento”, revela o artista, casado há mais de 15 anos com a atriz Julia Lemmertz.