À sombra do poder

Publicado no Dia-a-dia em 06/03/2011

Por amor mulheres bem-sucedidas assumem postura submissa e cheia de renúncias em casa. Foto: Andréa Iseki (Foto: Reprodução)

A voz rouca e grave a tornou conhecida mundialmente. A jovem franzina, que se casou pela primeira vez aos 12, fez-se ouvir por multidões em seus 74 anos de vida. E ganhou aplausos. Mas,  durante 15 anos, a carioca Elza Soares calou-se. Não que tenha deixado de cantar. Mas porque, nessa fase, a Cantora do Milênio – título que ganhou da BBC de Londres – casou-se com Mané Garrincha, um dos maiores nomes do futebol brasileiro. Alcoólatra e ciumento ao extremo, o Anjo das Pernas Tortas, como era conhecido, transformava-se assim que ingeria o primeiro gole de bebida e, algumas vezes, chegou a impedi-la de realizar uma de suas maiores paixões: subir soberana ao palco.

A relação dos dois foi cheia de altos e baixos. Ambos juntaram-se no auge de suas carreiras e foram protagonistas de uma história cheia de amor e lágrimas. Elza lembra que Garrincha parecia possuído quando bebia. “É muito difícil casar com um alcoólatra. Ele não tinha estrutura e eu estava lá para ajudá-lo. Sem bebida, era um anjo”, lembra.

Uma das situações que deixaram Elza mais chateada foi quando ela, belíssima em um vestido que mandara fazer para um baile que haveria no Flamengo, foi impedida de sair de casa pelo marido. Puro ciúme. Ela, por sua vez, picou o vestido em pedaços e, segundos depois, arrependeu-se. A raiva transformou-se em pena.

Muito embora conseguisse fazer ecoar a voz aos quatro cantos, dentro de casa, a palavra final era sempre de Mané Garrincha.  Mais do que amor, acredita que tenha aguentado casos tenebrosos, como Elza mesmo diz, porque sabia que o marido dependia dela. “Você aceita submissão, ignorância, aceita tudo porque tem alguém precisando de você. Mas a mulher não nasceu para ser coitada e sim, poderosa. Só o poder faz com que suporte tudo isso”, afirma.

Elza é protagonista de apenas uma das inúmeras histórias de submissão vividas por mulheres de expressão. Muitas delas conseguem angariar fãs, mas, no reduto do lar, permitem que a palavra final seja sempre a masculina. E embora mostrem-se poderosas e assertivas no âmbito profissional, curvam-se diante dos caprichos do marido. Conquistaram o mundo, mas sentem-se pequenas em casa, incapazes de conquistar um relacionamento equilibrado, seja pelo caráter autoritário do cônjuge, seja pelo sentimento de culpa por ausentarem-se do lar ou, ainda, pela impressão de que não são competentes o suficiente para corresponder às expectativas dele.

Mas o que as leva a tomar esse tipo de conduta? Como uma mulher capaz de seduzir uma nação não consegue se fazer ouvir pelo mais próximo? Por que se deixa ceder às imposições culturais e ao machismo da sociedade? O que mais surpreende em tudo isso é que, apesar do espaço que conquistaram nas últimas décadas, motivos não faltam para justificar essa submissão.

REFLEXOS DE UMA HISTÓRIA
A independência feminina começou a ganhar corpo no Brasil no século passado. O pontapé inicial foi dado em 1932, quando elas ganharam o direito de votar e, a partir deste grande passo, conseguiram galgar espaço no mercado de trabalho. Reivindicaram cidadania e amenizaram os reflexos da dominação patriarcal.

Inúmeras são aquelas que hoje ocupam cargos de chefia. Mas algumas, não sabem obter o mesmo sucesso na vida pessoal, seja com filhos, maridos ou outros parentes próximos, como pai e mãe. O nome que os especialistas dão a este problema? Falta de autoestima.
A causa pode ter aparecido na infância. Se forem analisados os históricos dessas mulheres, será fácil notar que o fato se repete: vêm de família com pais agressivos, em constante conflito, e a mulher sendo a última a fazer-se escutar. Dado este cenário, a construção do amor próprio passa a ser defeituosa e cheia de fraquezas. Mesmo que ela saiba lidar com os desafios da carreira, na hora de discutir sentimentos e relações, o resultado não é o mesmo.

“Quando a questão é lidar com o afetivo, deparam-se com a falta de estrutura emocional, que não foi devidamente construída na infância”, explica a psicóloga Marina Vasconcellos.

É o caso de uma paciente da terapeuta sexual Creusa Dias. A especialista – que ministra curso para mulheres recobrarem a autoestima, o relacionamento e a sexualidade –  lembra de uma mulher belíssima que a procurou porque não conseguia desligar-se do marido, com quem estava casada havia 15 anos. Ele, por várias vezes, a traiu. Ainda que todos a admirassem pela beleza física e pelo status que ocupava na carreira, a mulher não se via como os outros a descreviam, e ainda sentia-se culpada por aceitar a infidelidade do cônjuge.

A paciente era mãe de dois filhos pequenos, outro fator que faz com que muitas mulheres tolerem série de humilhações. “Ou ela está procurando uma forma de perdoá-lo de dentro para fora ou está procurando um caminho para dar seguimento à separação. Mas antes de qualquer decisão, tem de sentir-se forte e recobrar a autoestima”, analisa Creusa.

VICIADAS EM AMOR

No início do século passado, inúmeras eram as histórias de mulheres que aguentavam as puladas de cerca dos maridos, grosserias e até agressões físicas porque dependiam financeiramente deles. Vindo para os dias de hoje, quase 90% delas trabalham e ajudam no orçamento do lar. Ou seja, não há justificativa para se submeterem a um relacionamento doloroso.

Mesmo assim, as histórias de humilhação e agressões multiplicam-se por conta de fatores que vão além do dinheiro. Muito mais do que estabilidade financeira, as mulheres querem amar e ser amadas; encontrar um homem com quem possam dividir as contas e as delícias de um relacionamento equilibrado. Por isso, mesmo quando o príncipe encantado revela-se menos afetuoso que o esperado, é difícil abrir mão do amor que muitas vezes não é recíproco. “Mesmo ricas, belas ou talentosas, a relação com o amor é preponderante. A mulher se submete para não se desapegar do relacionamento, pois ele a estrutura emocional e psicologicamente”, explica o psiquiatra Luiz Cuschnir.
Só isso pode explicar o romance da atriz Suzana Vieira com o ex-policial Marcelo Silva. Em uma história marcada por idas e vindas, com supostos casos de traição por parte dele e escândalos que o levaram a ser expulso da corporação, ela o perdoou alegando amá-lo. O detalhe é que Suzana é uma das atrizes mais conceituadas da televisão brasileira e, no alto dos seus 68 anos, conserva beleza estonteante. Só conseguiu forças para dar um basta e expulsá-lo de casa quando descobriu mais uma de suas traições. Tempos depois, ele morreu de overdose em um motel, supostamente na companhia da tal amante. Três meses depois, Suzana circulava com outro namorado, o jovem ator Sandro Pedroso, com quem está até hoje.

O que as detentoras dessas histórias têm de aprender é que os excessos não são elementos indicados para a construção de uma trajetória satisfatória.  A fórmula para a felicidade tem de ser composta por duas variantes que têm de estar preenchidas pelo mesmo peso. O x representa a plenitude afetiva; e o y, a realização profissional. Somente assim, o resultado desta equação será o esperado: satisfação plena.

Quando as diversas faces do amor transformam a trajetória de mulheres vitoriosas em uma vida submissa e cheia de renúncias dentro de casa.(Foto: Divulgação)

HERANÇA CULTURAL

Na infância, o primeiro brinquedo que uma mulher ganha é a boneca. O que ela não sabe é que, com este inocente entretenimento, vem junto uma lista de ideias preconcebidas que poderá carregar inconscientemente para o resto da vida. Entre as quais, o preceito de que só será feliz se constituir família; se tiver marido por quem doe sua vida; se educar bem os filhos e, principalmente, tiver um casamento duradouro. São amarras que permitem que situações de subjugação mantenham-se recorrentes e se repitam diariamente.

Embora a maioria das mulheres não siga mais estes padrões, há aquelas que, mesmo sem querer, os seguem veementemente. Exemplo clássico é a princesa Diana, morta em 1997. Mesmo sendo amada por todos os ingleses e encabeçando trabalhos sociais reconhecidos mundialmente, principalmente com portadoras do vírus da Aids, dentro do  Kensington Palace, castelo onde morava, Lady Di tinha uma vida triste e humilhante.

Para manter as aparências da família real, tolerava o caso extraconjugal do príncipe Charles com a namorada de juventude, Camilla Parker Bowles, calava-se publicamente diante dos escândalos amorosos do marido estampados nas manchetes dos tabloides e buscava alento em vidros e mais vidros de antidepressivos.

Por ter tido infância marcada pela separação dos pais, que brigaram na Justiça pela guarda dela e dos irmãos, Diana cresceu determinada a formar família unida e feliz.

Aos 17 anos, conheceu Charles na festa de aniversário de 30 anos dele e, tempos depois, apaixonou-se. O que ela não sabia é que, durante todo o casamento, teria de aguentar a traição e os panos quentes da família real. Separaram-se 11 anos depois. Mas o sabor da liberdade durou pouco. Em 1997, um ano após deixar o príncipe, Lady Di morreu em acidente de carro ao lado do noivo e empresário egípcio Dodi Al-Fayed.