Mulher capacho

 Publicado no Terra em 06/03/2009

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Submissão. A palavra assusta tanto quanto invoca negação. Quem usa do artifício para manter um amor (doentio, às vezes), nega com todas as forças que esteja em segundo plano.

E a impotência para se livrar de uma relação assim e recomeçar com bases saudáveis é mais difícil do que se imagina.

Sônia Abrão recentemente lançou um livro para tratar do assunto. “Abaixo a mulher capacho”, trata daquelas mulheres que fazem qualquer coisa para não perder um “amor” e acabam pagando um preço alto por isso: o de pisar em seus próprios sentimentos. E pior, permitir que o outro faça o mesmo! Essa confusão de sentimentos gera o que ela chama de ‘síndrome da mulher capacho’, com sintomas de esmola afetiva e sofrimento como única saída.

A psicóloga e terapeuta familiar Marina Vasconcellos, diz que esse é um problema diretamente relacionado à baixa autoestima e carência, principalmente daquelas inseguras quanto ao próprio potencial. Elas ficam eternamente esperando que o outro a deixe, a qualquer momento. “O medo do abandono faz com que elas façam tudo pelo outro. É preciso agradar o companheiro em tudo e, caso ele não concorde com algum desejo ou vontade dela, isso será imediatamente deixado de lado, para evitar contrariar o amado”, analisa.

Aí, os desejos dela ficam anulados e as vontades próprias deixam de ser importantes. Segundo Marina, a infância pode ter papel crucial nesse comportamento. “A falta de incentivo, elogio e reconhecimento do potencial na infância, assim como da atenção e do olhar dos pais, deixam uma grande lacuna na autoestima”. E, como consequência, muitas mulheres passam a vida cuidando do outro na tentativa insana de dar a ele o que elas mesmas não receberam.

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O medo da solidão também é peça chave. E então, a simples ameaça de um abandono é sinônimo de desespero. Para esse tipo de mulher, a vida apenas faz sentido enquanto ela tiver alguém para cuidar – mas ela se esquece de cuidar dela mesma. “Esse tipo de mulher se alimenta de esmolas afetivas, já que elas próprias não conseguem cuidar de si”.

O mais difícil, numa relação desse tipo, é se perceber no meio da farsa e se livrar do pesadelo de estar sempre em segundo plano. “Geralmente a própria pessoa não se dá conta disso, já que para ela é normal agir assim e não conhece outra forma de se relacionar. São os outros que percebem e acabam dando toques”, analisa Marina. O triste, segundo ela, é quando no meio dessa dependência, a mulher encontrar um homem que tira o proveito da situação e acaba por reforçar o comportamento doentio.

A psicóloga ainda dá uma dica importante para as mulheres que não sabem viver longe da submissão. Segundo ela, quando um homem “saudável” emocionalmente se relaciona com alguém assim, dentro de pouco tempo se cansa. Se a mulher não se impõe, não tem opinião própria, nunca escolhe o que quer e sempre deixa que ele tome as decisões do relacionamento, a graça da relação a dois acaba.