“Marmanjos” que ainda vivem com os pais

Publicado no Terra em 14/04/2010

Foto: Reprodução

Alguns anos atrás, os adolescentes não viam a hora de completar a maioridade e de ter independência, inclusive para adquirir sua própria casa. Agora, pelo contrário, os filhos estão ficando cada vez mais tempo na barra da saia dos pais.

Por que será?

“As pessoas casam cada vez mais tarde, diferente de antigamente. Antes, perto dos 20 anos, as mulheres já estavam casadas, e os homens um pouco além disso. Consequentemente, ficam em casa para estudar, e investem mais em sua carreira com o dinheiro que gastariam para se bancar numa casa sozinhos”,responde a psicóloga e terapeuta familiar Marina Vasconcellos.

A compra de um imóvel hoje é muito valorizada. E não gastando com aluguéis e condomínio, assim como todo o resto que morar sozinho demanda, facilita guardar dinheiro para adquirir o primeiro apartamento. Além do que há vantagens em ter casa, comida e roupa lavada sem se preocupar com isso após um dia inteiro de trabalho.

Márcio Pires, 26 anos, mora com os pais e tem namorada. Ele é um bom exemplo de “marmanjo” que não pensa em sair de casa tão cedo. “É cômodo, não pago aluguel e posso guardar esse dinheiro. Tenho a vantagem dos meus pais me darem total liberdade, por isso não tenho vontade de ter meu canto. Tenho meu espaço em casa. Só saio de casa para casar mesmo”, afirma.

Já Renato Soares, 29 anos, deseja sair de casa, mas ainda não tem condições financeiras para isso. “Meus pais não me sustentam, mas me dão teto, é fato. Eu ajudo nas despesas da casa e também nas tarefas. Minha mãe não trabalha, mas também não abuso. Gostaria de ter meu canto sim. Mas hoje não tenho como bancar um apartamento sozinho”, lamenta.

Embora alguns pais orientem seus filhos a serem independentes, outros os enxergam como bebês que não devem sair de casa. “Muitas vezes os pais passam a proteger tanto seus pequenos, dando tantas coisas, que não colaboram para que esses cresçam e/ou sintam que podem se sustentar sozinhos e que possuem recursos internos para viverem e se desenvolverem sozinhos”, observa a terapeuta comportamental Denise Pará Diniz.

Alexandre Cunha, 25 anos, aproveita essa proteção para continuar vivendo com o pai e a mãe. “Meus pais são aposentados. Estão em casa o dia todo. Fico com eles também como companhia, nem me imagino deixando os dois sozinhos. E claro que aproveito o comodismo. Minha mãe cobra um pouco que saia de casa, mas eu nem penso. Dá muito trabalho”, brinca.

Mas morar com os familiares também tem suas desvantagens, como cita Marina: “Ter que seguir as regras da casa dos pais, que muitas vezes não são do agrado dos filhos, os quais gostariam de ter mais liberdade de horário assim como mais privacidade para receber amigos e namorado (a) em casa; quando os gênios não batem, os conflitos são constantes e desgastantes para a relação pais-filhos, e nesse sentido a distância aproxima as pessoas, pois não há o peso da convivência diária. Em muitos casos, a falta de espaço ideal para acomodar as coisas pessoais, já que existem irmãos dividindo o quarto; impossibilidade de arrumar as coisas ou decorar o quarto de acordo com o gosto pessoal, pois há outros na casa e é necessário respeitar o gosto da maioria, ou, dos donos da casa”.

Mas será que existe uma idade certa para que um adulto tenha seu próprio lar? “Somente os próprios filhos podem saber o momento de sair de casa. Devem contar com diálogos com os pais, aonde esses podem transmitir suas trajetórias e experiências de vida ao irem morar sozinhos, bem como em quanto fica terem que assumir a própria casa, carro, MBA, lazer e criar filhos”, ensina Denise.

Silvio Pires, 48 anos, lamenta ter saído de casa cedo demais e não quer que seu filho repita a experiência. “Saí de casa com 18 anos e aos 20 já era pai de dois filhos. Foi muito complicado, corrido. Tive que crescer na marra. Hoje, se meu filho não quiser, digo que não precisa mesmo sair de casa. Pelo menos pode aproveitar mais, não se preocupar com coisas que eu tive que me preocupar desde muito cedo. Não acho que ele será um adulto pior por causa disso”, afirma.

Anamaria Shimitz, 28 anos, pensa diferente. “Eu saí de casa aos 23, para morar fora do Brasil. Quando voltei, não aguentei ficar na barra da saia da minha mãe. Parece que quando a gente conhece o mundo, não quer mais voltar pra casa, fica tudo pequeno. Não me arrependo de morar sozinha. Mas acho que seria bem mais tranquilo – principalmente financeiramente – ficar na casa dos meus pais. Hoje, trabalho para pagar minhas contas. Não sobra nada. Apenas minha liberdade. Essa, não tem preço. Digo para as minhas amigas que ter um canto custa mesmo. Mas vale, muito”, comemora.

Ter filhos “marmanjos” em casa pode irritar alguns homens e mulheres, por isso é importante estabelecer normas básicas para evitar conflitos. “É preciso deixar as regras de convivência muito claras, para se evitar atritos desnecessários. Uma certa dose de flexibilidade é necessária para que a harmonia possa prevalecer. Os pais não podem olhar os filhos como eternas ‘crianças’, impondo-lhes tantas regras e exigindo certas atitudes que não condizem mais com a idade deles. O respeito deve existir sempre, assim como a cumplicidade e a disponibilidade para o diálogo”, sugere Marina.

E os filhos devem, desde cedo, planejar seu futuro, ter perspectivas, como aconselha Denise. “Se quiserem ficar na casa dos pais perguntem a si mesmos se estão ali porque são adultos com projetos de futuro e necessitam ficar por ali mais tempo para atingir suas metas. Ou, tentem perceber se estão ali porque entendem que não podem andar por suas próprias pernas”, diz.

“Se chegarem à conclusão que não sabem o que querem e que vão ficando por estarem acomodados, necessitando de proteção, se encontrarem, lembrem-se que todos nós, por mais que estejamos inseguros, temos muitos recursos próprios internos e externos que podemos acionar para cada vez mais nos sentirmos independentes e realizados! Encontrem-se, corram atrás de seus sonhos por conta própria, mesmo que fiquem morando com seus pais”, completa a especialista.