Meu filho não quer ir à faculdade, e agora?

Apoio, compreensão e honestidade dos pais são fundamentais quando o jovem se sente indeciso diante do vestibular

Publicado  no IG Delas em 19/08/2010

Com o fim do segundo grau, é comum ver adolescentes completamente alucinados com as primeiras dúvidas da vida adulta que surgem: vestibular, carreira, sonho, futuro e sucesso profissional. Imaginar um futuro coerente aos 17 ou 18 anos não é tarefa fácil para ninguém. Escolher o que se vai fazer para o resto da vida quando se teve quase nenhuma responsabilidade até então pode ser um dilema e tanto – tanto para filhos como para os pais. “Os adolescentes de hoje são muito menos maduros que antigamente, e é natural que os adultos fiquem tensos com as suas decisões. Os pais esperam que seus filhos vão para faculdade e, por isso, fazem uma pressão na hora da escolha”, afirma a psicóloga Heloisa Schauff, especialista em terapia de casal e família.

Para o adolescente, não se intimidar com essa pressão dos pais para fazer faculdade pode ser bem difícil. Em um mundo cada vez mais competitivo, no qual às vezes um diploma apenas não basta, escolher trilhar o próprio caminho fora do mundo acadêmico requer coragem e decisão. Não é todo mundo que pode optar por tirar um tempo para viajar o mundo, fazer cursos livres ou dedicar-se à música, por exemplo. Porém, há quem bata no peito, banque os sonhos e consiga convencer os pais, com muita conversa, de que parar os estudos por um tempo talvez seja a melhor saída.

Dez anos depois do fim do segundo grau - e já proprietário de um estúdio - José Neto ingressou na faculdade de Música (Foto: Mauricio Contreras/ Fotoarena)

José Martins Neto, 28 anos, foi um adolescente que, por não gostar de estudar, acabou largando a faculdade após cursar os primeiros seis meses. “Eu sempre fui um péssimo aluno, foi muito difícil terminar a escola, e, quando terminei, não queria continuar estudando. Cheguei a entrar em Rádio e TV porque rolava uma pressão da escola e dos meus pais, mas eu não achava que tinha que ir para a faculdade”, conta.

Ele revela que sua verdadeira paixão é a música e que, após o primeiro semestre cursando algo que detestou, decidiu largar tudo para virar baterista. “Falei com os meus pais e decidi fazer um curso em um conservatório. Foi complicado convencer meu pai especialmente, mas, por mais que ele não tenha achado a minha decisão ótima, acabou me apoiando”, explica. O resultado é que, algum tempo depois, José acabou montando um estúdio com um amigo e cavou seu próprio espaço no mundo da música. “Demorou para a gente dar certo, investimos tempo, dinheiro e tivemos que ter paciência. Mas hoje vivo de música, toco e trabalho com gravação e produção”.

E, passados dez anos do fim do colegial, ele finalmente decidiu cursar uma faculdade. De música, claro. “Bateu vontade, senti que estava defasado em teoria musical. Não acho que devia ter feito isso logo que saí da escola, não tinha maturidade e provavelmente não iria aguentar”, afirma.

O carioca Rodrigo de Sousa Deodoro, 24 anos, também optou por não fazer faculdade logo após terminar o segundo grau. Acostumado a trabalhar desde os 15 anos, ele conta que não tinha dinheiro para pagar os estudos e não conseguia se decidir por um curso. “Eu não tinha parado para pensar sobre isso. Comecei a trabalhar cedo e sempre pulei de um emprego para o outro. Depois de um tempo, vi que estava me virando bem sem fazer faculdade. Na verdade, até agora, esse esquema tem funcionado bem para mim”, diz.

Rodrigo conseguiu driblar a pressão dos pais e continuar no mercado de trabalho. “Meus pais não fizeram faculdade e, até certo ponto, tive liberdade para escolher por mim mesmo o que fazer da minha vida. Porém, é claro que rolava aquela vontade de ter o filho conquistando uma coisa que eles não tiveram a oportunidade de conquistar”, afirma.

Apoio moral

A psicóloga Marina Vasconcellos, especializada em terapia familiar e de casal pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), defende iniciativas como as de José e Rodrigo. “Com 17 ou 18 anos, a maioria dos adolescentes não tem maturidade para decidir o que vai fazer para o resto da vida. Seria muito bom se todos tivessem a oportunidade de, após a escola, tirar um tempo para viajar e se conhecer melhor”, fala.

A psicóloga recomenda que os pais não pressionem os filhos na hora da escolha do curso e, especialmente, não tomem a decisão por eles. “O melhor caminho no momento da dúvida do adolescente é, com calma, mostrar tudo o que ele pode aprender dali para a frente e apoiá-lo a conhecer profissões. Faculdade não é tudo, existem cursos técnicos bons, por exemplo. A pressão não gera bons resultados”.

Ao não ingressar em um curso superior logo depois do colegial, no entanto, não quer dizer que seu filho vá ficar em casa de papo para o ar. Heloísa fala sobre a opção de trabalhar enquanto o adolescente não sabe o que quer cursar na faculdade. “É uma alternativa bárbara, porque ele descobre cedo o que são regras e, já inserido no mundo do trabalho, conhece os rumos que pode tomar. A escolha da profissão acontece muito cedo, com o adolescente quase sempre muito protegido pelos pais. Por causa disso, muitos acabam fazendo faculdades das quais não gostam”, afirma.

E se seu filho já entrou em um curso, mas dá sinais de que pode ter feito a escolha errada, relaxe – e o apoie. A psicóloga orienta os pais a deixarem os filhos à vontade para mudar de profissão caso eles percebam que fizeram a opção errada. “O papel dos pais é orientar e questionar, mas respeitando o momento de dúvida. Não dá para obrigar um filho a fazer um curso que ele não quer”.