Derrubando mitos do filho único – Parte 2

Esqueça os estereótipos sobre crianças que crescem sem irmãos. Especialistas garantem que elas podem se tornar adultos tão ou mais saudáveis do que aquelas que crescem em grandes famílias

Publicado na ISTO É em 16/07/2010

Outro motivo importante da redução de tamanho das famílias é a entrada da mulher no mercado de trabalho, algo incompatível com uma prole numerosa. “As pesquisas mostram que a maioria dos lares com filhos únicos é composta por casais com dupla renda”, diz José Eustáquio Diniz Alves, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Até a idade adulta, o gasto com a criação de um filho pode chegar a R$ 1,6 milhão para famílias com renda de R$ 25 mil e nada desprezíveis R$ 400 mil para famílias de renda entre R$ 2 mil e R$ 3 mil, de acordo com a consultoria Invent (leia na pág. 63). Ao colocar na ponta do lápis os gastos da primeira gravidez, a jornalista carioca Maria Fernanda Delmas decidiu lançar o livro “Olha Quem Está Poupando” (Ed. Elsevier), em que orienta os pais a controlar os gastos. “Ao decidir ter um filho, o casal deve conversar sobre as implicações para o bolso. Três gastos saltam muito: empregada doméstica, creche ou escolinha e saúde”, afirma.

AUTONOMIA Sylvia, ao lado do marido, Cláudio, diz que a vontade era colocar o filho Vinícius numa redoma. “Mas ele me ensinou a fazer a coisa certa” (Foto: reprodução)

Sem restrições financeiras para formar uma família, a enfermeira Elaine Dominicis Dias Pereira, 43 anos, sonhava com uma casa cheia. Mas ao tentar engravidar, aos 30 anos, descobriu que precisaria da ajuda de tratamentos de fertilidade. Foram várias tentativas frustradas du­rante quatro anos até que ela finalmente engravidou quando morava nos Estados Unidos. De volta ao Brasil, ela se controla para não mimar Victoria, 11 anos. Da escola à aula de equitação, a menina está tendo a melhor educação possível para que se torne, nas palavras da mãe, “uma pessoa sociável e de bom coração”. Para isso, Victoria acompanha Elaine em um projeto social e vende brigadeiros para arrecadar brinquedos para as crianças no Natal. “Essa é a liberdade que você dá para o filho único. Ela tem iniciativa, e pago para ver onde vai dar”, diz Elaine. Mas nas negociações familiares, a menina quase sempre ganha a mãe na lábia. “Ela tem senso de liderança”, derrete-se.

Alessandro considera que o saldo de não ter irmãos foi positivo e repetiu a dose com Erik, 5 anos. “Já é difícil dar atenção a um filho, imagine a dois.” (Foto: Reprodução)

Ao contrário de Elaine, que desejava ter mais filhos, a educadora Elisângela Hernandes, 29 anos, no sétimo mês de gravidez, está convicta de que esta será sua única gestação. Ela e o marido planejaram detalhadamente a experiência. “É um aprendizado nosso, entender o filho, o que significa cada choro.” Especialistas explicam que, com um acesso cada vez maior ao planejamento familiar, cresceu a expectativa sobre a experiência da maternidade. “As pessoas desejam que ela ocorra de forma idealizada: o quarto perfeito, o momento ideal, o companheiro certo”, diz a psicanalista Diana. “Muitos filhos únicos são tidos únicos na expectativa de que seja produzida uma experiência ideal e que seja um fardo menor”, afirma.

Foto: Reprodução

O lado mais sombrio da geração de filhos únicos está no envelhecimento. Na fase adulta, eles terão de lidar sozinhos com os cuidados e a perda dos pais. “É muito pesado não ter com quem dividir o fardo do cuidado”, afirma Diana. Filho único, o técnico carioca Alessandro Cardoso, 33 anos, decidiu reproduzir sua experiência com o filho, Erik, 5 anos. “Minha mãe tinha dedicação duplicada comigo, mas não cheguei a ser mimado”, recorda. “O problema foi a partir dos 12 anos, quando comecei a sentir falta de irmão mais velho, alguém que pudesse me orientar, servir de referência”. Fazendo um balanço geral, ele acredita que ser filho único teve mais fatores positivos do que negativos. Sua opção por não dar irmãos a Erik se deve às exigências da vida moderna. “Eu e minha mulher trabalhamos o dia todo. Já é difícil dar atenção a um filho, imagine a dois.” Embora mais tranquila, a opção ainda é alvo de críticas. “Mais do que os amigos, irmãos ajudam a aprender a dividir as coisas, lidar com frustrações e conviver”, afirma a terapeuta familiar Marina Vasconcellos. Famílias com uma única criança tendem a ser mais estáticas também. “Ter mais pessoas implica ampliar o repertório familiar”, afirma a terapeuta familiar Maria Amália Salles.

Mas ninguém deve resolver ter mais filhos por isso. Ou porque a criança pede insistentemente um irmãozinho. “Os pais têm o direito de decidir quantos filhos vão ter. Basta apenas que arquem com as responsabilidades naturais desse ato e usem dois elementos básicos: equilíbrio e bom senso”, afirma Tânia Zagury. Agindo assim, as chances de se criar pessoas saudáveis são muito maiores. Cabe aqui a velha máxima, tão usada na educação dos filhos, da qualidade em prol da quantidade.