A absolvição dos genros

Ao contrário do que se pensa, estudo de psicóloga inglesa mostra que a pior relação é entre sogras e noras

Publicado na ISTO É em 05/08/2009

Foto: Reprodução

“Feliz é Adão, que não teve sogra.” “Sogra não é parente, é castigo.” “Só não mato minha sogra por pena do diabo.” “Sogra é igual a cerveja: só gelada e em cima da mesa.” Se depender dos ditados populares, a imagem das sogras é péssima – especialmente do ponto de vista dos genros. Mas a vítima preferencial das piadas familiares pode ter outro algoz, de acordo com a psicóloga Terri Apter, da Universidade de Cambridge, na Inglaterra. No recém-lançado livro “What do You Want From Me? Learning to Get Along with the In-laws” (O que você quer de mim? Aprendendo a se dar bem com a família estendida, em tradução livre), a pesquisadora se propõe a estudar as relações na família estendida, que inclui sogros e cunhados. E revela que a pedra no sapato da relação dos casais é a difícil convivência entre noras e sogras. “Minha pesquisa mostrou que os atritos nessas relações familiares podem causar problemas sérios”, diz a psicóloga. A tradutora Leilah Matos, 31 anos, viveu o problema na pele. “Eu tenho praticamente quatro sogras: a mãe do meu marido, duas tias e a avó materna dele”, enumera. “E elas são pessoas de gênio forte.” Leilah conta que, quando se casou, há oito anos, os atritos eram praticamente diários. “Elas interferiam e davam palpite em como arrumar minha casa.” Depois de uma discussão, ela e a sogra ficaram quase um ano sem conversar.

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Mas o bom-senso falou mais alto e fizeram as pazes. “A gente tem que se moldar à nora. Precisa entender o limite do outro, e ele o nosso”, ensina Nadia Karmann Monteiro, 63 anos, sogra de Leilah. “Minha nora é um doce, mas ela tem probleminhas de nervoso. Para ela também era complicado dividir o marido comigo”, diz Nadia, que resolvidas as diferenças, até se emociona ao falar de como a nora faz o filho feliz.

A harmonia dessa relação depende de um jogo equilibrado entre ser flexível e impor limites. Esse foi o erro da estudante Élide Nunes de Souza Molotievschi, 23 anos. Há um ano, ela virou vizinha da sogra. “E tive a triste ideia de deixar a chave de casa com ela”, conta Élide. Começou um inferno na vida da recém-casada, com a sogra xeretando na geladeira, nos armários e ligando para a família para fofocar. “Ela falava para meio mundo que minha casa era um chiqueiro, que o filho dela passava fome, que eu não lavava a roupa”, lembra. “O segredo é impor limites. Alguém só entra na sua casa se tem a chave”, afirma a psicóloga e terapeuta de casais Margareth dos Reis. “O casal tem que ter sempre um regulamento do relacionamento que permita colocar limites sem agredir o outro”, diz.

Para essa relação tão delicada dar certo, é preciso também que os dois lados baixem a guarda. No blog Casa da Sogra, em que a foto de uma jararaca dá as boas-vindas ao internauta, são postados relatos anônimos de noras à beira de um ataque de nervos, que recebem dicas de como lidar com a situação. Gracinhas à parte, a postura defensiva predispõe à confirmação do estereótipo, o que só aumenta a resistência. “Existe um estigma muito grande em relação à sogra”, diz Margareth. “E cabe a quem está entrando na relação neutralizá-lo”, acredita a psicóloga.

A publicitária Carolina Linden, 31 anos, já passou por maus bocados na mão de sogras. “Eram coisas pequenas, mas não tinha diálogo”, conta Carolina, lembrando de um almoço familiar em que ela deixou de comer um prato feito pela sogra porque tinha restrições alimentares na época. A sogra não perdoou, tachando-a de “fresca” para o resto da família. Mas a publicitária reconhece que não se empenhou para melhorar a relação. “Sou meio estourada, então, talvez, eu também não tenha sido a norinha que ela pediu a Deus.”

Para evitar que os atritos virem brigas mais sérias, os especialistas acreditam que o melhor a se fazer é convocar o marido para que ele imponha limites. “O papel do homem é crucial”, diz a inglesa Terri. “Ele pode eliminar muitas dificuldades se assegurar para sua mãe que ela continua sendo parte importante da vida dele, que a ama e respeita, apesar de estar casado.”

A psicóloga afirma que o homem precisa impor limites na interferência materna, para não permitir que a mulher se sinta marginalizada. “Se ele não fizer isso, a esposa pode começar a culpar a mãe do marido por não deixá-lo cuidar da sua vida.” A psicóloga e terapeuta familiar Marina Vasconcellos acredita que são amores que não se comparam, portanto, não podem competir. “Quem tem que dar limite é o filho”, afirma. “Se ele permite que a sogra invada, está pedindo para o casamento terminar.”

Especialistas recomendam o entendimento dessa relação, que já nasce conflituosa. Mas a uma distância segura. Há um ditado que diz que a casa da sogra não deve ser muito perto, para que ela não possa vir a pé nem muito longe, para que ela não precise fazer as malas. Pesquisas atestam esse dito. De acordo com estudo do Instituto Italiano de Estatística, as chances de um casamento durar aumentam a cada 91,4 metros entre a casa de um casal e a de seus sogros. Uma dica para as futuras noras.