Melhores amigas para sempre

As amizades feitas na infância podem oferecer grandes benefícios para a vida adulta

Publicado em IG Delas em 11/01/2011

Se dá para contar nos dedos das mãos os amigos de verdade, quantos deles nos acompanham desde a infância? Podem ser poucos, mas certamente são bons. “Amigos de longa data são os de rua, das brincadeiras. Estamos falando de vivência, de se tocar, se abraçar, saber o que o outro comeu. Recordações e vínculos assim trazem saúde mental e alegria”, diz Silvia Cavicchioli, terapeuta Gestalt e de relacionamentos.

Natália e Lari são amigas desde a infância. No detalhe, as duas no aniversário de 8 anos de Lari (de cabelos pretos) Foto: Reprodução

A farmacêutica Natália Beani de Carvalho, 25 anos, nem se lembra desde quando é amiga da designer Lari Paschoal, que tem a mesma idade. As duas estudaram no mesmo colégio, fizeram várias viagens e trabalhos escolares juntas e compartilharam amigos em comum. Um dia, a separação: elas foram estudar em lugares diferentes, no ensino médio. “O que não foi tão ruim”, diz Natália. “O distanciamento foi totalmente positivo, a amizade deu uma respirada. Ganhamos outros parâmetros e contatos, o que nos fez amadurecer bastante”, concorda Lari. Aliás, por coincidência, hoje seus namorados têm o mesmo nome. Quando Lari começou a namorar Igor, mandou um SMS para Natália: “Oficialmente estou te copiando”. E como boas amigas, elas sabem que podem passar (pelo menos um pouco) do limite durante as discussões. A designer, por exemplo, que não gosta de tatuagem, bateu o pé a cada uma das três que a amiga fez no corpo. Sobre a bronca, no entanto, diz ser carinho de irmã mais velha. “Temos o tom certo para não magoar. Somos bem duras uma com a outra, mas é puro amor”, diz Lari.

Laços de longo prazo nascidos na infância têm um trunfo: nessa fase, os vínculos são muito espontâneos. “Amizade não implica em interesses; o amigo gosta de você porque gosta”, diz Marina Vasconcellos, psicóloga e terapeuta familiar. “Isso é fundamental para saúde total do ser humano. Dependemos da relação com o outro, para dividir, aprender e experimentar coisas novas”, diz. Para Sílvia Cavicchioli, essas amizades são tão profundas que contribuem no seu senso de identidade. “É uma forma de se achar. Quando há fortes mudanças íntimas, a pessoa precisa ver-se e reconhecer-se nesses referenciais antigos. Eles trazem conforto e aconchego”, afirma a psicóloga.

Camila e Melina são amigas há 18 anos. Ano passado, viajaram juntas à Disney e estão planejando a despedida de solteira de Camila em Las Vegas (Foto: Reprodução Arquivo Pessoal)

Ainda que variem de acordo com a sociedade e época, parecem ser dois os ingredientes universais e constantes da amizade: confiança e reciprocidade. Sobre esses pilares, a economista Camila de Carvalho Fernandes, 26 anos, consolidou sua relação com a publicitária Melina Leila Melo, também de 26. Os valores de ambas foram construídos em brincadeiras de colégio, lanches partilhados no recreio e cumplicidade nas equipes de educação física. “Foi a Camila quem me deu um ‘empurrãozão’ para frequentar a igreja. Desde pequena, ela sempre teve uma espiritualidade marcante. Lembro que enquanto as outras crianças eram egoístas, vingativas, a Cá pregava o bem”, conta Melina.

Obviamente, desentendimentos acontecem. Como a discussão que tiveram na volta de uma viagem para a Disney, no ano passado, por causa do excesso de bagagem. Melina, que é fanática por bonecas Barbie desde criança, aproveitou o passeio para engordar sua coleção, enquanto Camila, que adora produtos de beleza, não resistiu aos bons preços e repôs o estoque de produtos para cabelo – e dá-lhe jogo de cintura para ninguém estourar o limite de peso das malas. Mas briga mesmo, de verdade, elas se lembram de uma só, na 3ª série. Na ocasião, Camila se recusou a fazer a lição de casa de Melina. “Ah, se todas as brigas do mundo fossem por causa disso”, diz Camila. Amigas há 18 anos, costumam brincar que o relacionamento “atingiu a maioridade”.

Quem tem um best friend forever, o chamado BFF, sabe: a falta de contato diário não afasta os verdadeiros amigos. Para a psicóloga Marina, não é a convivência o que define a amizade, e sim os valores em comum. Diferentemente dos contatos profissionais e amizades por afinidade de interesses, as de longo prazo envolvem amor e respeito. As referências exteriores, como uma banda em comum ou um hobby, podem até ser um ponto de partida, mas não seguram o laço. “Costumam ser poucas as relações profundas da sua vida. É difícil alguém que tenha um monte de amigos nesse nível”, diz ela. Nas palavras de Silvia Cavicchioli, “a amizade que resiste ao tempo é um amor que vingou”.