A hora do sinal vermelho

Como lidar com o momento de parar de dirigir

Publicado no Bolsa de Mulher em 03/10/2011

 

A volta do supermercado para casa já não é tão fácil. As ruas, antes velhas conhecidas, agora lhe parecem confusas. Dirigir à noite é um martírio. Pegar trânsito, então? Puro estresse. Se você se identifica com alguma dessas situações, pode ter chegado a hora de se aposentar do volante. O mais natural é que o sinal vermelho acenda primeiro para os idosos, mas ele pode também servir de alerta para jovens com problemas clínicos específicos. Na opinião dos psicólogos, a ajuda da família é fundamental para quem precisa tomar essa difícil decisão, já que a autoestima entra em jogo. Já parou para pensar se chegou a sua vez?

O Código Brasileiro de Trânsito não estipula uma idade limite para o uso da Carteira Nacional de Habilitação (CNH). Entretanto, para pessoas acima dos 65 anos, o intervalo de renovação do documento é reduzido de cinco para três anos. O objetivo é refazer com atenção os exames médicos. Segundo Dirceu Rodrigues Alves, diretor da Associação Brasileira de Medicina do Tráfego, são três as funções importantes para garantir a dirigibilidade: cognitiva, motora e sensório-perceptiva. “Se uma delas estiver comprometida, a pessoa já não está apta para conduzir”, ressalta.

A família é a principal responsável por observar os sinais. O primeiro deles está na função cognitiva. “Mesmo em trajetos conhecidos, é normal se perder e não conseguir voltar para casa”, diz a psicóloga Marina Vasconcellos. “Devemos sempre perguntar ao idoso como foi o trajeto, já que, em muitos casos, eles resistirão em contar por medo de ter que parar de dirigir”, acrescenta. Pequenos incidentes e multas de trânsito também devem ser notados.“É comum que eles não observem mais os sinais de tráfego e se envolvam em pequenos incidentes por conta dos reflexos reduzidos”, diagnostica a psicóloga Triana Portal, da Clínica Espaço de Saúde Morumbi. Mas nada tão grave. “Acidentes com idosos são sempre pequenos, com danos apenas materiais e de pouca abrangência”, conta o diretor da ABRAMET.

 

Como dar a notícia?

O momento de parar é muito delicado. “A pessoa já está passando por um processo de mudanças físicas. Isso já é angustiante. Ter que lidar com reflexos mais lentos, um corpo cansado e limitado é muito complicado”, observa a psicóloga Amanda Paiva, da Life Psicologia.Segundo os especialistas, o diálogo deve convencê-los dos riscos de continuar pisando no acelerador. “Isso deve ser feito da forma mais afetiva e cuidadosa possível, pois estamos falando de algo que simboliza uma invalidez e a perda de autonomia do indivíduo”, ensina Marina, acrescentando que a ajuda de um médico de confiança da família é muito bem-vinda.

Segundo a psicóloga Luciene Miranda, é importante saber lidar com a reação da pessoa a quem você dará um ultimato. E são dois os tipos de idosos que normalmente se sentem contrariados com a negativa: o idoso lúcido e aquele que está com a saúde cognitiva debilitada. No primeiro caso, a pessoa normalmente assume que possui problemas de saúde que a impossibilitam de dirigir. No entanto, de primeira, ela não gosta de assumir. Um diálogo direto ajuda bastante nesta situação. Já o idoso portador de doenças degenerativas não percebe os riscos e sequer aceita a opinião de terceiros. “Dependendo do grau do comprometimento cognitivo, vale tentar distrair o idoso, esconder a chave do carro, convidá-lo para sair de carona”, aconselha Luciene.

 

Fim da estrada, jamais!

Ao pendurar as chaves do carro, a rotina do idoso não deve ser alterada. “Se ele costumava visitar parentes, amigos, passear e fazer compras, por exemplo, os familiares devem tentar criar meios para que as atividades sejam mantidas”, enumera a psicóloga Claudia Ferreira. É importante ter sempre alguém para levá-los aos lugares, incentivá-los a andar de transporte público ou contratar um motorista particular. “O ex-motorista não pode deixar de fazer o que gosta para não se tornar um prisioneiro dentro da sua própria casa”, ressalta Claudia.

E se o fato de não comandar mais um veículo o deixar deprimido? “É necessário incentivar o idoso e mostrar que a limitação física não significa uma paralisia de suas atividades cotidianas”, explica Amanda. Manter a vida social ativa, através de grupos de terceira idade ou do convívio com a família, ajuda a evitar a sensação de isolamento. “Além de continuarem ativos social e mentalmente, esse grupos fazem com que os idosos estejam inseridos num universo em que todos passam pelas mesmas dificuldades e falam a mesma língua”, diz Claudia, garantindo que, ao final do processo de readaptação, o volante nem será mais lembrado: “Sempre existe um momento de parar. Mas todos devemos fazer com que esta mudança ocorra da forma mais natural possível”.