Dificuldade de se relacionar pode ser sinal de insegurança masculina

Para muitos, envolver-se com alguém é sinônimo de perder a liberdade

Todo mundo conhece pelo menos uma mulher que já tenha se queixado da “fuga” dos homens quando estes percebem estar entrando em uma relação. Quando parece que os dois vão engatar em um relacionamento um pouco mais profundo, as coisas começam a esfriar repentinamente, sem qualquer explicação. E ele que parecia tão apaixonado e presente, já não está mais tão disponível, deixa de ligar, não envia mensagens, desaparece por alguns dias… O que acontece?

A necessidade de liberdade é bem mais perceptível nos homens. Mas o que vem a ser essa tal liberdade? Ela diz respeito à capacidade de escolha: onde não há escolha, não há liberdade. Vivemos em função de escolhas desde a hora em que acordamos até o momento em que vamos dormir.

O ponto fundamental disso é que toda escolha implica em perda e, ao escolhermos algo, fatalmente estamos deixando outra opção de lado. Isso gera consequências e temos que nos responsabilizar por elas. Não dá para ter tudo sempre. Assim, somos obrigados a enfrentar algumas privações.

Em um relacionamento conjugal, por exemplo, se escolho ficar com alguém necessariamente terei que abrir mão de outras conquistas e aventuras. Nem todas as pessoas estão aptas a enfrentar isso, o que implicaria em ter que abrir mão da satisfação imediata e passageira dos desejos que não param de nos tentar em prol de algo duradouro e sólido, mas que necessita de constante investimento.

Esse é o ponto que incomoda muitos homens, impossibilitando-os de investir em um relacionamento verdadeiro. Como abrir mão de sua liberdade e de ter quantas mulheres quiser no momento que lhe convier? Para eles, envolver-se com alguém significa deixar de estar com tantas outras que não lhe exigiriam satisfações, cobranças e compromisso. Que palavrinha assustadora essa! É como se a definição de compromisso fosse: perda total da liberdade, prisão, necessidade de dar satisfações do que faço e onde vou, fim do divertimento com os amigos, adeus aos jogos de futebol e corridas de Fórmula I pela TV, fim do desejo sexual acarretado pela mesmice – já que não posso variar com outras mulheres – e por aí vai.

Mas a liberdade não se restringe apenas à questão das outras mulheres, abrangendo as atividades em geral. Infelizmente muitos casais não lidam bem com a individualidade necessária dentro de uma relação, o que passa a falsa ideia de que todo compromisso restringe demais a vida de cada um. Esse é um aprendizado pelo qual todos nós devemos passar: aprender a conviver com as diferenças, respeitar o espaço de cada um, saber valorizar os momentos em conjunto e não obrigar o outro a fazer coisas que ele não gosta só porque formamos um casal.

É mito dizer que a partir do momento que se está namorando (isso mesmo, desde o namoro isso já acontece) deve-se fazer tudo junto e ir a todos os lugares e eventos com o companheiro. Nesse ponto já podemos identificar um grande erro. Se a mulher não gosta de futebol, por que tem que acompanhar seu namorado ao campo ou assistir aos jogos pela TV? Se ela vai a um encontro de amigos do colegial (turma que ele nem conhece), por que levar a “tiracolo” o namorado que, certamente, ficará deslocado, além de ter que se preocupar em fazer-lhe companhia?

Poderia citar inúmeros outros exemplos, mas quero apenas chamar a atenção desse fato que realmente atrapalha muitos relacionamentos.

É fundamental que cada um tenha seu espaço, conserve suas atividades e mantenha seus amigos.

Só assim é possível desfrutar de uma convivência harmoniosa, em que experiências e vivências individuais são compartilhadas e, a partir delas, o casal consegue construir um relacionamento gostoso e saudável.

Voltando à questão da liberdade, há certa confusão quando alguns homens dizem não querer perdê-la. Será que é realmente o medo de ficar “preso” a algo ou isso diz respeito à incapacidade de entregar-se ao amor e vivenciá-lo por completo?

Em relação a isso, gostaria de citar aqui um trecho do livro Amor Líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos, de Zygmunt Bauman (Ed. Zahar):

“Em todo amor há pelo menos dois seres, cada qual a grande incógnita na equação do outro. É isso que faz o amor parecer um capricho do destino – aquele futuro estranho e misterioso, impossível de ser descrito antecipadamente, que deve ser realizado ou protelado, acelerado ou interrompido. Amar significa abrir-se ao destino, a mais sublime de todas as condições humanas, em que o medo se funde ao regozijo num amálgama irresistível. Abrir-se ao destino significa, em última instância, admitir a liberdade no ser: aquela liberdade que se incorpora no Outro, o companheiro no amor”.

O mesmo autor segue citando Erich Fromm (The Art of Loving, Londres, 1957):

“A satisfação no amor individual não pode ser atingida… sem a humildade, a coragem, a fé e a disciplina verdadeiras (…), pois em uma cultura na qual são raras essas qualidades, atingir a capacidade de amar será sempre, necessariamente, uma rara conquista”.

Como é difícil entregar-se a algo que não se tem qualquer garantia de sucesso e que exige constante cuidado e investimento. Nossa cultura atual prega o uso imediato das coisas e seu descarte o quanto antes. Isso inclui prazeres passageiros, satisfações instantâneas e, claro, a fuga de tudo que necessita de esforços prolongados.

Vivemos uma ambivalência muito grande atualmente. As pessoas pregam que querem encontrar parceiros para relacionar-se ao mesmo tempo em que, quando os encontram, mantêm uma distância segura para que não se firme um compromisso.

O medo de que as relações percam seu “frescor” inicial, sua intensidade e sua paixão, transformando-se em algo congelado e sem graça leva as pessoas a não se envolverem verdadeiramente, mantendo relações frouxas e passíveis de terminar a qualquer momento.

Como me envolver com alguém hoje e fechar as possibilidades de conhecer algo melhor amanhã? É difícil abrir mão do que eu “poderia ter”, bancar as escolhas e vivenciar por inteiro o presente!

Numa relação a dois a insegurança sempre estará presente em maior ou menor grau. Não temos o controle dos sentimentos do outro – nem dos nossos muitas vezes – e nada nos garante que ele permanecerá apaixonado ou envolvido nessa história pelo tempo que gostaríamos. Amar exige entrega e doação ao outro. Quanto mais a pessoa se sentir insegura com relação a si mesma, mais essa entrega significará um risco de perder o controle sobre si mesmo.

Assim, permanecer longe é uma garantia de não me misturar ao outro arriscando perder o meu foco. E aqui repito o que já disse em várias ocasiões: investir no autoconhecimento emocional é a melhor forma de garantir sucesso em suas relações afetivas de um modo geral.

Há muito mais o que dizer. Ideias vão brotando, enquanto filminhos de inúmeras relações tanto minhas quanto de amigos e clientes que já estiveram comigo passam pela minha mente enquanto escrevo.

Àqueles que não se deixam envolver em relações amorosas por medo de perder sua liberdade, minhas últimas palavras: você é livre para escolher o que considera melhor para sua vida; é livre para escolher viver intensamente algo verdadeiro ou passar por inúmeros relacionamentos superficiais e frouxos; você é livre para permanecer no sofrimento ou buscar a felicidade; você é livre para fechar-se em seus problemas afetivos passados e traumas que já teve ou sair disso e assumir o controle de seu destino; você é livre para relacionar-se com várias pessoas ao mesmo tempo, e com nenhuma delas de verdade; você é livre para crescer ao lado de alguém que o ame sinceramente e está disposto a entregar-se através do amor ou seguir sozinho, lamentando-se pelos relacionamentos que nunca dão certo.

 

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